Em uma rodada do Brasileirão com tantas injustiças cometidas pela arbitragem, ou pior que isso, lances realmente inadmissíveis, não sou eu que bancarei o justiceiro na tentativa de listar todos os erros – e as chances de ser injusto e me esquecer de algum, entre tantos, acaba sendo enorme. Ainda assim, este é provavelmente o final de semana em que mais fica claro o tiro no pé que foi recusar o VAR no Brasileirão por “questões financeiras”, algo que, sabemos, não deveria ser um problema à CBF. O preço a ser pago por todos os clubes acaba sendo caro demais e os efeitos são visíveis. Muitos dirigentes vão bradar contra a arbitragem, quando o jogo de bastidores indica certa omissão generalizada, enquanto as falhas se espalham para todos os lados.

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O VAR, cabe lembrar, não é um sistema infalível. Ele continua sendo operado por humanos e depende da competência (ou da honestidade, mas este é outro debate moral) para ser utilizado corretamente. Os admitidos erros continuam sendo possíveis, como se viu na Copa Libertadores, no lance em que a Conmebol reverteu a decisão sobre Dedé, ou neste domingo no Italiano, em pênalti que o juiz se recusou a conferir no monitor, sabe se lá por falta de aviso da central ou por decisão própria ao estar próximo da jogada. Boa parte desses lances são interpretativos, em que nem mesmo com o acréscimo do recurso tecnológico se sana o debate. Ainda assim, é uma maneira de atenuar tamanha sangria.

A Copa do Mundo serviu para naturalizar o VAR. Novamente, vale dizer que nem tudo funcionou às mil maravilhas ao longo do torneio e que as decisões discutíveis são normais. Ainda assim, ficou evidente que a tecnologia muito mais ajuda do que atrapalha e corrigiu lances que poderiam ter muito mais impacto. Não houve nenhum tento validado incorretamente por impedimento, por exemplo. E mesmo que as possibilidades econômicas da Fifa sejam muito maiores, estimativas apontam que a CBF teria condições de aplicar a novidade no Brasileiro. A interrupção ao Mundial, no fim das contas, marcou um antes e um depois mais abrangente na maneira de se pensar a arbitragem.

Muitos dos erros no Brasileirão seriam corrigidos com consultas simples ao VAR. O pênalti marcado a favor do Cruzeiro contra o Palmeiras no Pacaembu é um desses casos. Foi escancarado o toque de mão de Gustavo Gómez fora da área. É até difícil de entender como ninguém conseguiu perceber isso em campo, mas, vá lá, o vídeo facilitaria o trabalho. E mesmo que não seja uma decisão absoluta, os lances interpretativos ofereceriam uma segunda chance de avaliação. A reclamação enorme (e com razão) do Atlético Paranaense no pênalti que rendeu a vitória do Santos se encaixa neste tipo de visão.

Enquanto isso, o debate banal fica entre quem foi mais prejudicado. Até mesmo dentro da própria partida, como foi no Beira-Rio. Discussões cansativas e infindáveis que poderiam ser, ao menos, reduzidas com o VAR. Dependerá da capacidade de quem opera a tecnologia. Porém, poderíamos dar um foco maior àquilo que realmente aconteceu no jogo, não aos lances pontuais que mudaram todo o encadeamento dos fatos.

Se os dirigentes preferem lavar as mãos, a se unir para aplicar uma justiça maior na condução do campeonato, a arbitragem péssima trata de criar a pressão pelas inovações. E a discussão já deveria estar adiantada, pensando que há uma série de adaptações e testes a serem feitos até que a medida se aplique de maneira ampla – indo além das fases finais dos torneios de mata-matas, como já acontece, outra patacoada. Mesmo na Copa do Brasil, se mostraram que alguns ajustes precisam ser feitos, para que nada passe batido. Enquanto isso, perde-se tempo para apontar o dedo aos outros, quando isso não leva absolutamente a lugar nenhum.

A importância do componente humano é clara. Por isso mesmo, além do VAR, faz-se necessária uma preparação melhor aos árbitros. Que os erros aconteçam em qualquer canto do mundo, parece que há alguma coisa errada a partir do momento em que tantas falhas bizarras se espalham no país. Não parece ser apenas uma coincidência, até porque há problemas óbvios de posicionamento da equipe de arbitragem em parte dos acontecimentos deste final de semana. Neste sentido, visando aumentar o foco específico sobre o trabalho, a falta de profissionalização dos juízes brasileiros acaba se tornando outra urgência. A cobrança dos dirigentes precisa partir destes vários pontos. E então, também buscar os recursos que possam auxiliar os homens do apito a ficarem menos suscetíveis aos seus inescapáveis deslizes.