Outro amistoso em 2008, outra vitória substancial sobre um anfitrião da Eurocopa. Primeiro foi a Áustria, vítima de um 3 a 0 em fevereiro. Desta vez, a Suíça. Em pleno St. Jakob Park, os helvéticos levaram humilhantes 4 a 0 dos alemães, resultado que coloca a seleção de Kobi Kuhn em estado de alerta e que, aos poucos, começa a despertar um sentimento de favoritismo exacerbado entre os alemães que chega a preocupar.

No ataque a Alemanha dá mostras de que não tem mais com que se preocupar. Mario Gómez, com seus dois gols e uma assistência, praticamente garantiu seu lugar na Euro – e como titular, provavelmente ao lado de Miroslav Klose. Sem falar que Kevin Kuranyi está em alta e, ao lado de Podolski – que, mesmo na reserva do Bayern tem marcado com alguma constância quando entra –, coloca a Alemanha entre as seleções com o melhor ataque da Europa.

Ballack jogou melhor que contra a Áustria, mas ainda está longe de ser o camisa 13 que carregou o Bayer Leverkusen a uma final de Liga dos Campeões em 2002 e que carregou a Alemanha nas costas até a final do Mundial daquele ano. Talvez por sua condição física, tem atuado mais defensivamente do que de costume. O sentimento geral é de que até a Euro ele melhora e volta a ser ‘o capitão que todos esperam’.

A defesa? Segue com problemas, mas o sem número de falhas não resulta em gol há quatro jogos e Jens Lehmann pode comemorar 621 minutos sem sofrer gols. Contra quem jogaram os alemães nesses quatro jogos? Chipre, País de Gales, Áustria e, agora, Suíça. Até o início da Eurocopa? Grandes clássicos contra Bielorrússia e Sérvia.

É claro que a equipe de Joachim Löw tem totais condições de chegar à Euro e confirmar o favoritismo, levantando o título mais uma vez, mas isso não passa da esfera da especulação.

O time de Löw, apesar de dar mostras de que está no caminho certo, ainda tem problemas – sobretudo no setor defensivo. Em 2006, os alemães começaram o ano com uma humilhante goleada para a Itália, em Florença, por 4 a 1. Muitos acharam que o time de Klinsmann estava fadado ao fracasso na Copa do Mundo. Por ironia do destino, caiu diante da mesma Itália nas semifinais, mas melhorou muito do jogo de Florença para o de Dortmund.

Por mais que a linha de trabalho da comissão técnica de Löw, seqüência da de Klinsmann, baseada na psicologia e na melhora da auto-estima dos jogadores, prega que ‘o melhor ambiente traz melhores resultados’, mas algumas pancadas, de vez em quando, fazem bem para que um time ou uma seleção perceba seus reais problemas. Agora, talvez, seria a hora certa para a Alemanha perder um jogo para corrigir os seus.

A saideira

Quando comecei a escrever para a Trivela, ainda na faculdade, em agosto de 2000, queria ter publicado um texto que havia lido em O Estado de S. Paulo (em 29 de março de 2000 – quase oito anos exatamente) alguns meses antes, na mesma época que o Cassiano me convidou para escrever para o site.

Na época, enrolado com problemas da faculdade e recém-chegado da Alemanha, não achei o tal texto, que havia recortado, sem nunca ter sonhado que, um dia, escreveria sobre futebol alemão. Esta semana, por coincidência, achei o dito texto, que reproduzo abaixo.

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A escola do futebol

Por Hans-Ulrich von Schroeter*

O Brasil e os Estados Unidos têm muito em comum. Distantes da velha Europa, ambos são países imensos, nos quais a minha terra natal, a Alemanha, caberia várias vezes. A maioria dos brasileiros, assim como a dos norte-americanos, nunca viajou para fora de seu país. Naturalmente, os dois países também são muito diferentes. Os Estados Unidos fazem parte do chamado Primeiro Mundo. Aliás, aqui no Brasil, os EUA são considerados o próprio símbolo desse Primeiro Mundo. Mas poucos brasileiros dão-se conta de que conhecem melhor o mundo lá fora do que os norte-americanos graças à grande paixão do brasileiro pelo futebol.

Lembro-me do período que, aos 17 anos, passei como aluno da high school, equivalente aos 2° grau, no estado americano do Tennessee. Os meus colegas, todos norte-americanos muito simpáticos, me perguntavam de onde eu era. “Da Alemanha”, eu respondia. Olhares desamparados me mostravam que essa palavra não lhes dizia muito. “Onde fica?” Eu tentava explicar. Queria responder até àquelas perguntas que mostravam que meus colegas não tinham a mínima idéia do que era a Alemanha.

Quando, um dia, uma colega me perguntou se lá na minha terra havia carros, desisti. Vi que não adiantava. Se tivesse respondido que os Mercedes, Volkswagens, BMWs, Audis e até os Porsches são carros alemães, ela, com certeza, me teria tomado por um grande mentiroso. Respondi, então, que só andávamos de carros de boi. Era justamente o que ela tinha pensado. A partir de então, quando me perguntavam onde era a Alemanha, preferia responder que era um dos estados da Nova Inglaterra e fazia fronteira entre o Maine e New Hampshire. “Ah, sabemos onde fica”.

Faz algum tempo, tomei um táxi aqui em São Paulo. Como as distâncias na cidades são grandes e o trânsito é difícil, muitas vezes dá para bater um bom papo com o motorista, que, por causa do meu sotaque, logo percebeu que não sou daqui. Perguntou de onde eu era. “Da Alemanha”, respondi. “Ah”, disse ele, “nunca fui lá. Sei muito pouco sobre a Alemanha. Conheço o Borussia Dortmund. O Werder Bremen era o time do Júnior Baiano, não era? E o Dunga já jogou no Stuttgart.”

“Sabe”, ele continuou, “eu costumava confundir o Bayer Leverkusen com o Bayern de Munique, mas agora sei que a cidade de Leverkusen, onde jogam o Émerson e o Zé Roberto, é a sede da Bayer de lá, enquanto ‘Bayern’, com ‘n’, é o nome de um estado de vocês, a Baviera, que fica no sul do seu país, onde tem montanha as pessoas vestem calças esquisitas de couro e bebem chope em canecões de um litro, não é? Munique é a capital desse estado, que, na verdade, nem se chama Munique. Vocês, alemães, dizem Múnxem, não é isso mesmo?”

“É”, respondi, “München”.

“Eu sei”, explicou ele, “porque num jogo na TV disseram tudo isso. É que lá no Bayern, com ‘n’, jogam o Élber e o Paulo Sérgio, o senhor conhece? Viu o golaço do Paulo Sérgio contra o Real Madrid?”

“Claro”, respondi. E fiquei impressionadíssimo com os conhecimentos dele. Então, ele queria saber por qual time eu torcia, lá. “Para o Fortuna Düsseldorf”, respondi. Este ele não conhecia. Expliquei que a minha cidade, Düsseldorf, também é capital estadual, que o fortuna já foi bom, que em 1979 perdeu a final da Taça da Europa contra o Barcelona, 4 a 3, na prorrogação. E que agora, infelizmente, tinha descido para a terceira divisão.

“Então, o Fortuna Düsseldorf é o Fluminense de lá”, concluiu ele. “Alemão gosta de futebol”, ele constatou. “É tricampeão da Copa, ganhou em 54, 74, e 90. Mas lá fora ninguém é tetra, não. Só nós”, afirmou, com um sorriso. Ao fim da viagem, pedi um recibo. Vi, com surpresa, que o motorista, bem informado, escrevia com a lentidão de quem faz caligrafia chinesa. Talvez percebendo minha indisfarçável surpresa, ele disse que não costumava escrever muito.

Descobri, depois, que aquele taxista não era nenhuma exceção. Todos os brasileiros com os quais conversei conheciam Beckenbauer, Gerd Müller, Rummenigge, Klinsmann e Matthäus. Alguns, quando perguntei se os conheciam, ficaram te chateados, achando que eu estava insinuando sua falta de cultura. Impossível não saber que a Alemanha ganhou a Copa de 90. “Não dá para eu esquecer aquela final”, me disse um vizinho. “Eu torci tanto contra a Argentina!” Também descobri que, no Brasil, ‘Beckenbauer’ pode até ser um prenome. Um amigo brasileiro me jurou ter visto escrito o nome de alguém chamado Bequembáua.

Recentemente, fui convidado à casa de um amigo, onde alguém tocava piano. Ao saber que eu era alemão, o pianista começou a tocar, quase certinho, o hino nacional alemão, obra de Joseph Haydn. Fiquei emocionado. Ele me explicou que gostava de hinos e, além do da Alemanha, sabia tocar os da França, da Holanda, da Argentina, da Itália e alguns outros mais, até o da Rússia. E passou a tocar uma Marselhesa impecável. Eu queria saber como ele tinha aprendido. “De ouvido”, respondeu. “Antes dos jogos da seleção, não tocam sempre os hinos?”

*Hans-Ulrich von Schroeter é cônsul da República Federal da Alemanha para Assuntos Culturais

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Queria ter publicado este texto em minha estréia no site porque o autor expressava algo que já havia vivido e com a qual concordava: o brasileiro gosta de futebol, não interessa de onde.

Desde que comecei a escrever para a Trivela, ouvi de gente com décadas de experiência na profissão dizer que “brasileiro quer saber do Timão e do Mengão. Ninguém quer saber de futebol europeu“.

Não demorou muito tempo para ver quem tinha razão. Por ironia do destino, alguns dos que questionavam a dedicação e outros colegas à Trivela, cansaram de dar indiretas do tipo: “Me avisa aí se abrir uma vaguinha na revista”.

Este ano a Trivela completa 10 anos. Tem uma das revistas de futebol mais respeitadas no meio futebolístico e jornalístico, a ponto de ser chamada de referência por gente respeitada.

Nesses quase oito anos em que fiz parte da “Equipe Trivela”, cresci muito como jornalista e como pessoa e, graças aos colegas e amigos com quem tive a honra de dividir as páginas deste site e da revista.

Em apenas 28 anos de vida e quase dez de carreira, tive a oportunidade de cobrir um Copa do Mundo (2006, na Alemanha) e tornei-me correspondente no Brasil da revista kicker, referência mundial em jornalismo esportivo há quase século (foi fundada em 1920). Mais do que isso: pude trabalhar num veículo independente e no qual, em muitos momentos, ajudei a moldar. E tive uma série de conversas com taxistas como o do texto acima, Brasil e mundo afora.

Tudo isso, graças à Trivela.

Nesta quinta-feira, despeço-me desta coluna e da Trivela, rumo a uma nova empreitada profissional em que, tenho certeza, cheguei graças aos colegas, amigos e, claro, leitores, que desde 2000 acompanham meu trabalho.

Um abraço a todos!

E vida longa à Trivela!