O futebol do Rio de Janeiro, muitas vezes, se acostumou ao péssimo hábito de sofrer. As ingerências não são exclusividades por lá, nem mesmo as dificuldades financeiras ou outros problemas que se tornam muito mais corriqueiros que deveriam no Brasileirão. Entretanto, tudo isso parece se juntar constantemente e proporcionar um ambiente de caos aos clubes cariocas. Há algumas rodadas que são terrivelmente sofríveis aos quatro grandes. A segunda-feira, no entanto, encerrou um fim de semana de rara euforia a todas as torcidas na primeira divisão. Com os triunfos de Fluminense e Vasco, todos os clubes do estado celebraram os três pontos na Série A.

Segundo levantamento feito pelo jornalista Jorge Luiz Rodrigues, já tinham se passado 62 rodadas desde a última “quádrupla comemoração” no Rio de Janeiro. Aconteceu logo na segunda rodada do Brasileirão 2017, e depois nunca mais. As dificuldades costumeiras do quarteto, com algumas constantes brigas pelo rebaixamento, contribuem para o quadro – embora também seja difícil uma combinação tão ampla, considerando que há 12 clássicos por edição da liga. Curiosamente, mesmo em situação melhor, os quatro grandes paulistas ainda não venceram todos juntos neste Brasileirão. E não apenas pelos resultados, esta 26ª rodada também beneficiou os cariocas na tabela da competição.

O Flamengo teve motivos a sorrir. Diante da fase complicada do clube, a poeira começa a baixar com três rodadas consecutivas sem derrota. A vitória sobre o Atlético Mineiro não serviu apenas para evitar que um eventual oponente pelo G-4 não igualasse sua pontuação. Ela também serviu para que o time de Maurício Barbieri voltasse a se colocar no páreo pelo título. São Paulo e Internacional só empataram, ficando dois pontos mais próximos. O problema é acompanhar o gás do Palmeiras, que se coloca como eventual favorito nesta reta final. As perspectivas, de qualquer maneira, já melhoraram.

O Botafogo pôde comemorar um bom resultado fora de casa, contra um rival direto. No domingo, conseguiu fazer estragos contra a defesa do Vitória, que vinha se acertando, e superou os rubro-negros por 4 a 3 no Barradão. Jogo maluco que teve como grande protagonista o camisa 11 Erik, participando de três tentos alvinegros. Com isso, o time chegou aos 32 pontos, quatro acima da zona de rebaixamento. São duas vitórias consecutivas, que permitem respirar.

Quem ficou um pouco mais tranquilo e pode até se permitir sonhar alto é o Fluminense. A equipe tem rendido razoavelmente nas últimas semanas, acima das expectativas que se criavam, e mira a parte de cima da tabela. Os 34 pontos, seis acima da zona de rebaixamento, indicam que nada está a salvo. Ainda assim, são apenas três abaixo da sétima posição, que talvez renda uma vaga na Libertadores, dependendo dos acontecimentos das próximas semanas. O Flu também desfrutou de um triunfo fora de casa, nesta segunda. Dentro da Arena Condá, onde nunca havia vencido, o Tricolor fez 2 a 1 sobre a Chapecoense. Os chutes de longe de Everaldo e Sornoza abriram caminho aos cariocas. Leandro Pereira até descontou no segundo tempo, mas a expulsão de Douglas freou a reação dos catarinenses.

Já em São Januário, o Vasco entrou em campo tentando encerrar a sequência ruim. Conseguiu comemorar, mas depois de uma boa dose de sofrimento, em atuação pouco convincente contra o Bahia. Ao menos veio a vitória por 2 a 1, que dá certa dose de alívio. Os baianos começaram melhor a partida, forçando Martín Silva, mas a situação melhoraria aos anfitriões no primeiro tempo. Douglas Friedrich foi expulso por uma entrada duríssima, que valeu ainda um pênalti aos cruz-maltinos, convertido por Pikachu. O problema é que os anfitriões não encaixavam seu jogo e permitiram o empate antes do intervalo, com Gilberto. Já no segundo tempo, os vascaínos dependeram de um garoto, Marrony. O jovem de 18 anos saiu do banco e cabeceou bonito o cruzamento de Pikachu, determinando o resultado. O time vai aos 28 pontos, um a menos que o Bahia, e fora da zona de rebaixamento pelos critérios de desempate na disputa com a Chape.

Mais importante que a coleção de vitórias cariocas é o momento e o contexto. A todos eles, há um ar de impulso, também pelos triunfos terem acontecido contra adversários diretos na tabela. As pretensões são modestas, pela história e pela torcida dos quatro grandes – exceção feita ao Flamengo, que ainda assim não justifica os investimentos. No entanto, o fato raro já oferece uma noite de paz no coração do Rio de Janeiro, como pouquíssimas vezes ocorreu nesta década.