Clássico, jogo muito importante. Jogo emocionante, marcante. É o tipo de jogo que ficaremos lembrando por anos, falando como foi o primeiro Majestoso da história da Libertadores. Corinthians x São Paulo na Arena Corinthians. Um jogo emocionante que irá abrir a fase de grupos da Libertadores de 2015 e provavelmente muita gente gostaria de ver. Muitos corintianos, claro, afinal o time é mandante. Mas muitos são-paulinos também. Ver o time ganhar de um rival fora de casa no primeiro jogo entre eles na Libertadores seria um momento épico. Um momento para o pai aproveitar com o filho, para o casal que torce para o mesmo time curtir junto, para a mãe leva a filha que adora futebol. Só que a Polícia Militar e os dirigentes parece que não se importam com isso. O esquema de segurança montado pela PM para a torcida visitante é quase um recado: não vá ao estádio.

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A começar pelo esquema para ir ao estádio. Precisamos lembrar que a Arena Corinthians fica ao lado da estação Corinthians-Itaquera de metrô e trem, o que torna o acesso muito fácil. Ótimo para o torcedor que vai ao estádio. Menos se for visitante. Porque aí, o esquema de segurança é descer muitas estações antes e ir escoltada pela PM andando por alguns quilômetros. Ou seja: se gasta um tempão para ir e, considerando que é um dia útil (ou quase, porque é quarta-feira de cinzas, grande parte das pessoas trabalha depois do meio-dia), isso se torna complicado. Ainda mais porque muita gente trabalha no centro da cidade ou em regiões com alta concentração de empresas, como as Avenidas Paulista, Faria Lima e Berrini, ou os bairros de Pinheiros e Itaim-Bibi. Ir até Itaquera á um deslocamento grande, que é possível fazer de metrô, mas não dá para chegar tão cedo assim. Bom, este já é um problema.

A saída do estádio, porém, é o ápice do mau planejamento. E mau planejamento sendo muito, mas muito otimista, porque a ideia que passa é que é má vontade mesmo. A PM defendia que os torcedores são-paulinos ficassem retidos no estádio por uma hora depois do fim do jogo, por medida de segurança, para que os corintianos deixassem o estádio primeiro. Depois, a PM escoltaria os são-paulinos. O lógico seria que a escolta fosse até o metrô, com um esquema especial dentro das estações, como acontece em quase todos os dias de jogos (quem é da zona leste sabe que há um esquema especial do metrô em dias de jogos de Corinthians, São Paulo e Palmeiras na capital). Só que a ideia da PM é fazer os torcedores andarem do estádio, do lado da estação Itaquera, até a estação Tatuapé do metrô.  Segundo o Google Maps, uma caminhada de 11,2 quilômetros, que demora 2h20min. Vamos entender esse esquema.

O jogo começa às 22h. Acaba por volta de meia-noite. Os são-paulinos ficariam retidos até cerca de 1h da manhã. Então, seriam escoltados em uma caminhada de mais de 11 quilômetros até a estação Tatuapé, chegando por volta de 3h30. Ficariam por ali cerca de uma hora, até que a estação voltasse a operar (segundo o site do metrô, isso ocorreria às 4h40). Então os são-paulinos pegariam o metrô e voltariam para suas casas ou iriam direto para o seus locais de trabalho, considerando que trabalhariam na quinta-feira pela manhã, que é um dia útil.

Pense bem: esse é um esquema viável para ver um jogo de futebol? Uma pergunta melhor ainda: vale a pena todo esse sacrifício para ir ao jogo? Se você fosse com o seu filho, ou sobrinho, ou um irmão menor, você gostaria de ir ao estádio nessas condições? Por mais que você seja um torcedor fanático, é um esquema que dificulta muito para que as pessoas comuns possam ir ao estádio.

Um programa como esse exige um grau tão grande de sacrifício que afasta a maioria dos torcedores. Se lembrarmos o que a PM – e especialmente o Ministério Público – fez há poucas semanas no dérbi entre Palmeiras e Corinthians, o primeiro no Allianz Parque, temos a clara sensação que estas duas entidades trabalham na verdade para não lidar com as pessoas. Nem PM, nem MP, parecem gostar  de lidar com pessoas. Clássico? Ah, um bando de caras violentos, melhor ter torcida única. E sabe por que muita gente aceita esse argumento? Porque se diz que esses jogos são frequentados apenas por torcedores organizados. Só que se fala isso como se essa fosse a causa, e não a consequência.

Só os torcedores organizados vão a esses clássicos porque o esquema de segurança que se monta e o terror que se faz em cima disso é para assustar. É quase um recado: não vão aos estádios, é lugar de marginais. Parece que as autoridades querem que só tenham torcedores organizados, querem aquelas cenas ridículas de dois mil torcedores visitantes escoltados por polícia fazendo provocações imbecis que acabarão em hostilidade.

E aí, quando isso acontece, parece que a PM esfrega as mãos: é uma chance de usar o seu arsenal de bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cavalaria. E, assim, justificar que não dá para ter essas festas populares porque elas são frequentadas por animais. Se monta uma jaula para que só os animais a frequentem. O passo seguinte é usar isso como justificativa para acabar com as torcidas visitantes em clássicos. Vão nos tirando pouco a pouco o direito de ver um jogo de futebol.

Isso é potencializado pelo fato de o jogo estar marcado para às 22h. O horário mais tarde para futebol deveria ser às 21h, porque resolve em grande parte o problema de não ter transporte público depois do jogo. E todo esse debate ocorre com um jogo no Itaquerão, arena vizinha a uma estação de metrô. Será curioso ver o que criam para o jogo de volta, no Morumbi, onde é não há transporte de massa por perto (o metrô foi prometido para 2014 e adiado muitas vezes). O torcedor que deixa o estádio tricolor precisa caminhar até uma avenida próxima, pegar um ônibus até o metrô e só então entrar no trem. Isso, claro, em um jogo às 20h30, porque em um jogo às 22h isso é impossível. Mas esta é uma conversa para outro post.

Estão nos afastando do estádio. O recado, com tantas incompetências e tanta falta de tato em lidar com pessoas, parece ser que as pessoas não devem ir ao estádio. Quando há shows ou grandes eventos na cidade, vemos a prefeitura e o governo do Estado se mobilizarem para criar um esquema especial de transporte. No futebol, não. E olha que jogo às quartas-feiras, 22h não é nem toda semana. Uma, duas vezes no mês, não mais do que isso.

Para o jogo desta quarta-feira, a solução encontrada foi na base do menos pior: São Paulo e Corinthians aceitaram pagar ônibus para os torcedores visitantes, com escolta policial, tanto no jogo da Arena Corinthians quanto para o jogo da volta, no Morumbi. Com destaque para a relação para lá de suspeita de Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo, com o presidente da torcida Independente. Ele atendeu uma ligação do presidente da torcida em meio a uma entrevista coletiva, pediu para que a torcida cuide dos ônibus que o clube irá custear. Algo que, se o clube vai pagar, deveria também organizar. Ou, melhor ainda, deveria deixar que os torcedores organizados organizem e cobrar onde se deve cobrar: que o horário do jogo não seja tão ridículo, que os governos do município e do Estado façam o transporte público atender à demanda em dia de jogos (os ônibus da madrugada que a prefeitura irá implantar nos próximos meses é um ótimo início, aliás, mas precisa ser ampliado e atender, sim, dias de jogos).

Houve um tempo que a prefeitura fazia um esquema de ônibus com a antiga CMTC (a companhia  pública de ônibus urbanos). Jogos no Morumbi, por exemplo, tinham ônibus expressos saindo dos terminais de ônibus do centro da cidade, como o Terminal Bandeira. Mesmo depois da privatização, já sob o comando da SPTrans, ainda houve esse esquema. Hoje, não há mais. O torcedor que se vire. Ou que não vá. É o que a PM e o MP querem que todos façam.