O Arsenal será eternamente grato ao Milan. Afinal, um dos períodos mais vitoriosos da história dos Gunners se fundamentou a partir de uma pechincha feita lá em Milão. Em agosto de 1996, os londrinos contrataram uma jovem promessa que despontou no Cannes e mal jogou em sua única temporada no San Siro. Seu nome? Patrick Vieira. Tudo bem, os £4,8 milhões pagos na época tinham um valor maior do que atualmente. Mas ainda assim, foi apenas o 14° negócio mais caro da Premier League naquela janela. O garoto de 20 anos custou menos que o volante Sasa Curcic (quem?) ao Aston Villa. E, bem, não precisamos nem discutir qual deles impactou mais. O francês se tornou o pilar do Arsenal de Arsène Wenger por quase uma década – a década vitoriosa do treinador em Highbury.

Além da tacada de mestre em 1996, Arsenal e Milan já se cruzaram outras vezes ao longo da história. Inclusive em campo. Durante anos mais prodigiosos que os atuais para ambos os clubes, foram dois embates nos mata-matas da Liga dos Campeões. O primeiro aconteceu em 2007/08, quando os Gunners foram os responsáveis por eliminar os atuais campeões europeus nas oitavas de final. Cesc Fàbregas e Emmanuel Adebayor definiram a vitória por 2 a 0 em Milão. Quatro anos depois, seria a vez do Milan dar o troco. Foi uma batalha eletrizante para definir o classificado às quartas de final. Os rossoneri enfiaram 4 a 0 no San Siro. Já no Estádio Emirates, os londrinos anotaram 3 a 0 ainda no primeiro tempo, mas não conseguiu forçar a prorrogação.

 

E, antes desses jogos ou da chegada de Vieira, houve mesmo uma final continental entre Milan e Arsenal. O ano era 1995, tempos áureos do Milan sob as ordens de Fabio Capello e de respeito no Arsenal comandado por George Graham. Os rossoneri eram os atuais detentores da taça da Liga dos Campeões, estraçalhando o Dream Team do Barcelona na final de 1994. Já do outro lado, o Arsenal vinha de sua última (e uma das duas únicas) conquista europeia, a Recopa. Campeão da Copa da Inglaterra na temporada anterior, o time derrubou uma série de adversários de respeito em sua caminhada – passando por Odense, Standard Liège, Torino e Paris Saint-Germain. E na decisão, superou o ascendente Parma de Nevio Scala, com triunfo por 1 a 0 em Copenhague.

Desta maneira, Milan e Arsenal disputaram a Supercopa Europeia de 1994/95. Tudo bem que não era o título mais prestigioso entre os oferecidos pela Uefa, mas havia certa expectativa sobre o confronto. De um lado, o timaço do milanista dispensava apresentações, com sua força especialmente na defesa. Resguardando o goleiro Sebastiano Rossi, estavam Mauro Tassotti, Franco Baresi, Alessandro Costacurta e Paolo Maldini, que formaram a linha de zaga na partida de ida, em Highbury – enquanto Christian Panucci entrou na lateral esquerda para a volta. No meio, mais qualidade com Marcel Desailly, Demetrio Albertini, Roberto Donadoni, Zvonimir Boban e Dejan Savicevic. Já no ataque, Daniele Massaro era o homem de referência.

Os Gunners, por outro lado, não eram um time de se ignorar. E também por contarem com uma linha defensiva histórica para o clube: David Seaman no gol, Lee Dixon na lateral direita, Steve Bould e Tony Adams no miolo, além de Nigel Winterburn na esquerda. O meio tinha Stefan Schwarz e John Jensen, bem como Ian Selley vestindo a camisa 10 e Kevin Campbell caindo pela direita. Na volta, em Milão, o dinamarquês “Faxe” Jensen foi para o banco e deu lugar ao ídolo Paul Merson, de volta após um período se reabilitando da dependência química. Por fim, mais à frente, a potência de Ian Wright, acompanhado pelo centroavante galês John Hartson.

Às vésperas do jogo de ida, o Milan acabou afetado por uma tragédia. O confronto entre ultras na visita ao Genoa resultou na morte de um torcedor adversário, Vincenzo Spagnolo, esfaqueado. O caso gerou grande repercussão na Itália e provocou a paralisação do futebol no país por uma semana. A Uefa, por outro lado, não teve a mesma sensibilidade e manteve a data do primeiro duelo da Supercopa. Na coletiva de imprensa, Fabio Capello afirmou que seu time estava distante das melhores condições psicológicas, com os jogadores sensibilizados pelo acontecimento. Não à toa, faltou emoção em Highbury. O Milan foi melhor, fazendo o ataque adversário cair em sua linha de impedimento e criando as melhores ocasiões. O placar, todavia, não saiu do 0 a 0. Ao Arsenal, valia celebrar o retorno de Tony Adams após dois meses no estaleiro e, claro, a aparição de Paul Merson, que saiu do banco. O meia era aplaudido pela torcida a cada toque na bola.

O jogo de volta aconteceu na semana seguinte, sem que a poeira tivesse baixado tanto. A preocupação com a segurança no San Siro era evidente, assim como o medo afastou os torcedores das arquibancadas. Apenas 23 mil estiveram presentes. Já o Arsenal, que vinha em momento ruim na temporada, via a crise se instaurar ao redor do técnico George Graham. Ele era acusado de receber uma comissão ilegal nas contratações dos dinamarqueses John Jensen e Pal Lydersen, com £425 mil pagos pelo empresário de ambos diretamente ao comandante. O escocês negou o entrave, mas acabaria demitido duas semanas depois, após comprovada sua ação. Além de encerrar sua passagem de nove anos no comando do Arsenal (durante os quais ergueu oito taças, inclusive duas do Campeonato Inglês), pegou um ano de suspensão imposto pela Football Association.

Dentro de campo, o Milan não tomou conhecimento do Arsenal, apesar da formação mais defensiva dos visitantes. O primeiro gol saiu aos 41 do primeiro tempo, em lançamento cirúrgico de Daniele Massaro para Zvonimir Boban – que substituía Marco Simone, titular no primeiro jogo. De frente para David Seaman, o croata não perdoou. Já no segundo tempo, os Gunners tiveram um tento anulado, mas o domínio era rossonero. Coube ao próprio Massaro fechar a conta em 2 a 0, cabeceando escanteio cobrado por Dejan Savicevic. O iugoslavo, ao lado de Marcel Desailly, foram preponderantes ao baile italiano. Ao final, os milanistas celebraram sua oitava taça desde a chegada de Fabio Capello, ratificando o posto como potência europeia.

Curiosamente, por pouco Milan e Arsenal não fizeram também a Supercopa Europeia no ano seguinte. Ao final da temporada 1994/95, ambos voltaram às decisões continentais. O Milan desperdiçou a chance de emendar o bicampeonato da Champions ao cair para o Ajax, com o gol emblemático de Patrick Kluivert aos 40 do segundo tempo. Já o Arsenal, apesar dos tumultos em sua direção, foi novamente finalista da Recopa. Com Stewart Houston no banco, os ingleses buscaram o empate contra o Zaragoza no tempo normal, mas acabaram derrotados por 2 a 1 com um gol aos 15 do segundo tempo da prorrogação. O herói foi o meio-campista Nayim, antigo ídolo do Tottenham, que arriscou um chutaço do meio da rua e surpreendeu David Seaman, encobrindo o goleiro. Então jogador do clube espanhol, Cafu teria se lembrado da pintura sete anos depois, ao oferecer uma certa dica a Ronaldinho Gaúcho em cobrança de falta na Copa do Mundo de 2002.


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