Quando se comenta sobre o Campeonato Holandês, é habitual citar que só Ajax, PSV e Feyenoord podem sonhar com o título – em que pese o “hiato” vivido há uma década, quando ganharam a Eredivisie AZ (2008/09) e Twente (2009/10). Ao longo desta década, o estereótipo parece ter encurtado: em que pese o histórico título do Feyenoord em 2016/17, saindo de uma fila de 18 anos, parece que a disputa da Eredivisieschaal se tornou privativa entre Ajax e PSV. Pois bem: pelas ocorrências na pré-temporada e pelas perspectivas que se veem, o Campeonato Holandês 2019/20 – que começa nesta sexta-feira, às 15h de Brasília, com Zwolle e Willem II se enfrentando – pode iniciar uma fase em que o Ajax despontará como o grande, talvez único, favorito efetivo ao título.

Faz parte de uma intenção: o desejo manifesto do diretor de futebol Marc Overmars é fazer do Ajax “o Bayern da Holanda”. Por isso o clube superou seus desacertos nos últimos três anos para uma temporada 2018/19 que terminou quase perfeita, com a “dupla coroa” (campeonato e copa) – só não foi perfeita por certos três gols de Lucas Moura. Por isso, novamente o Ajax mostra força no mercado de transferências – principalmente, ao tirar do Sevilla Quincy Promes, que tinha mercado em centros mais competitivos do futebol europeu (mais ou menos o mesmo motivo pelo qual Dusan Tadic foi trazido do Southampton, antes da temporada passada). Por isso, em campo, a equipe se esforça para manter seus destaques – e os que saem, como Frenkie de Jong ou Matthijs de Ligt, já saem por quantias que permitem ao Ajax fazer investimentos e manter seu poderio no futebol da Holanda. Por tudo isso, a temporada começou bem, com o título ganho inquestionavelmente na Supercopa da Holanda. Nada grande, mas mantém o domínio.

Já não é o mesmo cenário do PSV. Durante algum tempo, o clube de Eindhoven sabia lidar bem com seu orçamento – grande, mas menor que o do Ajax. No meio desta década, a dupla que comandava o clube de Eindhoven (o diretor geral Toon Gerbrands e o diretor esportivo Marcel Brands) sabia antecipar possíveis saídas, buscando reposições de qualidade e promovendo os jovens mais talentosos. Há um ano, Brands se foi para o Everton-ING. Só nesta pré-temporada se teve dimensão do impacto da perda para os Boeren: saíram Luuk de Jong, Angeliño e Daniel Schwaab, sem que viessem nomes prontos para serem titulares.

Restou ao técnico Mark van Bommel usar nomes inesperados (como o zagueiro Derrick Luckassen, recém-retornado de empréstimo ao Hertha Berlim e já titular da zaga) ou fazer improvisações (Michal Sadílek na lateral esquerda, Steven Bergwijn no meio-campo) para tentar começar bem a temporada e se consertar no decorrer dela. Deu errado: as quedas na Supercopa da Holanda e na Liga dos Campeões já colocam o vice-campeão holandês sob pressão, aparentemente menos capaz de fazer frente ao Ajax do que na temporada passada.

O Feyenoord, então, vive tempos de reformulação: muitos símbolos saíram (Tonny Vilhena, Robin van Persie, Giovanni van Bronckhorst), alguns novatos apareceram, mas a impressão é que o clube de Roterdã centrará esforços na construção do novo centro de treinamentos e no ambicioso projeto da Feyenoord City, estádio/complexo que substituirá De Kuip, de abertura prevista para 2024 – esperando que os boatos de possibilidade de investimento por parte de empresários norte-americanos se confirmem.

Mais incapazes ainda de buscar o título parecem os clubes médios. É claro que AZ, Utrecht e Vitesse podem tirar algum ponto dos três grandes (ou até mesmo vencê-los) numa rodada ou noutra do campeonato. Mas raramente mostram regularidade e confiabilidade para sonharem com algo mais. Groningen e Heerenveen, antes habituados a dividirem o espaço com os três médios citados, andam perdidos em problemas internos. E o resto dos clubes do Campeonato Holandês se preocupa, antes de mais nada, com a própria sobrevivência.

O Ajax se preocupa com isso: aceita de bom grado sugestões adotadas para aumentar o nível técnico da Eredivisie. A partir desta temporada, haverá o rebaixamento direto de dois clubes, haverá o “acordo de cavalheiros” proibindo que um clube da primeira divisão tire um jogador das categorias de base de outro, haverá o acordo em que os participantes de competições europeias cedem 5% da renda da UEFA para divisão entre clubes menores. Entretanto, são paliativos. Que parecem cada vez mais insuficientes para evitar que o Ajax “descole” do Campeonato Holandês e entre numa “super-elite” europeia. Pior: sabe-se lá se os Ajacieden terão capacidade para repetirem as façanhas da temporada passada, o que inviabilizaria a entrada do clube de Amsterdã na fechada “super-elite”.

Por tudo isso, a Eredivisie começa com uma pergunta: quem poderá parar o Ajax? Não só nesta temporada: nas próximas. É o que será visto por quem tiver interesse no Campeonato Holandês – novamente transmitido pelos canais ESPN. Para tentar ajudar a responder, o Espreme a Laranja falou sobre cada um dos dezoito clubes do campeonato, nos textos abaixo. Curta!

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