Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro, ainda é uma cidade simples. Tão simples, pacata e parada que parece até abandonada pelo destino. Tanto é que seu estádio – usado pelo Esporte Clube Pau Grande, que hoje disputa o campeonato amador da Liga Mageense de Desportos – parece perdido no meio de uma floresta. Um estádio chamado… Mané Garrincha.

“Ah, a casa do Mané?! É ali, perto da padaria, na segunda à esquerda.” Foram as instruções que eu recebi de um grupo de pessoas que conversava, animadamente, à porta de um bar. Tinham uma cerveja na mesa, feita de marfinite (daquelas vermelhas, da Brahma). Segui as instruções, e logo estava diante de uma porta marrom, de madeira envernizada.

Abriu a porta para mim o cidadão que será entrevistado. Com andar lento e até meio trôpego, ele é um senhor. Está com as feições mais envelhecidas, os cabelos levemente grisalhos, e com uma protuberância bastante saltada na barriga. Sua camisa, com um tom claro de marrom, tem alguns botões abertos, o que faz com que a barriga salte para fora. Há, ainda, uma bermuda jeans, relativamente puída, e uma sandália com tiras de couro.

E as pernas. Ah, as pernas, das quais muito se falou. Estas continuam tortas, viradas para o mesmo lado. O joelho lembra uma pessoa de 75 anos, tantas são as cicatrizes e as deformações causadas por anos de infiltrações – e uma, longa e vertical, que parece ter resolvido a insistente artrose que o vitimou anos a fio. São as pernas que não deixam dúvidas: é ele, o meu entrevistado, Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, à beira de completar 77 anos.

Mal entro na casa, já dou de cara com a sua terceira esposa oficial, Valeska, trinta anos mais jovem. Ela está com um bebê no colo, Josefina, o terceiro filho de Garrincha com ela (17º, pela contagem oficial). Os outros, José e João, de 7 e 9 anos, respectivamente, “estão na rua, brincando. Às vezes só voltam à noite, e a mãe briga”, segundo o pai.

Na sala, a TV mostra um programa de auditório. Mas é quando passamos pela cozinha, bastante simplória, com uma pia forrada por pratos a lavar, armários muito simples e uma mesa de madeira, que chegamos à parte da casa na qual Garrincha parece se sentir mais à vontade: um espaço amplo, com uma frondosa árvore (“É uma macieira”, diz Garrincha), mato no chão. E pássaros. Muitos pássaros. Que encontram, ali, um terreno sossegado o bastante para poderem contentar um cara que sempre os amou. E que se entusiasma como uma criança ao falar deles: “Olha aquele curió! Aquela rolinha vem sempre aqui! Olha, pintassilgo, raramente vem um aqui!”

Mas, logo, Garrincha deixa a alegria juvenil e volta ao seu permanente ar de enfado. Não é que ele se chateie com a minha presença, acho: é natural dele. Sentamos num banco de madeira, e ele logo fala: “Então, vamos lá, meu filho. O que você quer saber? Acho que quer saber como eu deixei de entornar aquilo que eu entornava, né?” Sinalizo que sim com a cabeça. E ele começa um longo monólogo. Já deve ter falado isso algumas vezes, para alguém da imprensa que vez por outra o procura:

“É, eu lembro daquela internação na Clínica São Vicente. Ali foi feio, meu filho. Fiquei uns quinze dias em coma – e eu nem tinha bebido tanto assim naquele dia em que eu fui internado. A clínica ficou desesperada, ninguém sabia o que fazer. Daí me mandaram para o Souza Aguiar. De lá, direto para a UTI. Daí, meu filho, foi um perereco… todo mundo decidiu entrar na roda e ajudar. Botafogo, a Nair, a Elza, o Agnaldo Timóteo, o seu João [Saldanha]… até o Aloísio Birruma, que foi roupeiro do Botafogo no meu tempo! E um querendo dar mais palpite do que o outro.”

Ele toma um fôlego e continua: “E eu lá, piorando e piorando. Daí, me mandaram para o Samaritano. De novo, nada melhorava. E a discussão continuava – até porque meus filhos mais velhos também começaram a caitituar sobre o que iam fazer comigo. Então, o governo entrou na parada, porque o Figueiredo disse que eu era “patrimônio brasileiro”, o Pelé também ajudou… e deu que me mandaram para os Estados Unidos. Quase morri no trajeto. Daí as coisas começaram a andar. Saí do coma, fiquei bom. Daí fiz uns tratamentos lá, já aproveitaram para operar da artrose, e eu voltei pra cá. Nisso, já era 1984.”

Pelo menos, nisso, a quase-tragédia que viveu Garrincha parece ter ajudado: seus vários filhos, as mulheres de sua vida, os companheiros de futebol, o Botafogo, todos uniram-se para ajudá-lo. Como que para explicar, ele diz: “Isso eu não sei nada, estou contando o que me falaram. Então, a Nair e a Elza passaram a se revezar para ficar comigo, meus filhos passaram a me visitar, o governo me deu uma pensãozinha vitalícia, o Botafogo se comprometeu a me ajudar – coitados, não ajudavam nem o clube -… e eu conheci a Valeska, há uns 20 anos.”

Novamente, a face de Mané se ilumina: “Ela, sim, me salvou. Porque, mesmo com todo mundo dando uma forcinha, eu continuava querendo beber. Pô, beber é bom pra chuchu! Daí, ela chegou, lindinha, tinha uns 20 anos. Conheci ela numa festa duma dessas escolas de samba, o enredo ia ser sobre mim. Claro que eu fui acompanhado por uns três filhos, senão eu ia me acabar numa branquinha.

“Daí eu vi ela sambando. Pedi o telefone dela, um dos meus filhos pegou, e eu fiquei ligando pra ela. Falei um tempão “minha nega, por você eu paro até de beber”. E ela: “Se você fizer isso, eu fico contigo. Mas eu duvido.” Já viu homem provocado, né? É fogo na jaca… daí eu parei. Já não bebia desde a internação, mas agora era questão de honra. E a gente já está junto desde 1990. Ela é mais uma que se juntou para não me deixar sozinho. Porque, se deixar… mas, também, agora, já cansei. Bebo mais água. Estou mais tranquilo.”

Já um pouco cansado daquela história, preferi deixar o Mané em paz. E perguntei sobre se ele é visto como ídolo, e gosta disso. Aí, sim, a face dele assume um ar de enfado verdadeiro: “Ah, meu filho, eu não gosto muito dessas coisas, não. Não tenho paciência. É até melhor, já que a filharada também prefere que eu fique mais em casa. Por isso me trouxeram pra Pau Grande: porque eu gosto mais de ficar aqui, de cuidar dos passarinhos, de jogar no bicho… papai já comeu muito alto, viu? Já cheguei a ganhar umas duzentas pratas.”

Amplio minhas indagações, perguntando se ele ainda tem contato com os companheiros de carreira. E a face dele fica um pouco mais iluminada: “Ah, tem o meu compadre Nilton. Já me tirou de cada fria… pensar agora, eu com 77 anos, relativamente inteiro, sem beber, e ele, com 85, sempre tendo ficado na linha, agora fica lá, naquela clínica. Às vezes eu vou lá, mas é na maciota. Nem divulgo. Zagallo volta e meia tá aqui, gosta muito de mim. Amarildo aparece de vez em quando. Mas não falo com muita gente, não. Até porque, já está todo mundo indo: o Quarenta já foi, o Pampolini, Paulinho Valentim, Didi, seu João, seu Zezé, Sandro [Moreyra]…”

E o Botafogo? Será que o clube de General Severiano ainda causa lembranças nele? “Ah, claro que eu gosto do Botafogo. Não vejo mais o time, nem nada. Não tenho paciência. Mas o clube me ajuda, é até lei lá, eles têm que ajudar o Garrincha, virou lei interna depois que eu passei pelo problema… daí o clube me ajuda, o presidente vem aqui de vez em quando. Eu gosto. Eu até tenho uma simpatia pelo Corinthians, pelo Flamengo, joguei nos dois, mas eu gosto mesmo é do Botafogo.”

E Pelé? Ele já parece meio enfadado só de eu pronunciar o nome daquele que, talvez, foi o parceiro mais conhecido: “Ah, sabia que tu ias me perguntar… a gente nunca foi amigo próximo! Teve relação boa, e tudo, a gente nunca brigava, nunca brigou, mas também não era gente de sair pra beber! Às vezes a negada insiste em achar que, só da gente não se falar, é porque a gente está brigado… nunca aconteceu nada! Ele é de um lado, eu do outro!”

Mas estão brigados? Você desgostou dele, Mané? “Magina! Claro que eu tenho respeito pelo crioulo. Às vezes – bem de vez em quando mesmo, que ele é bem ocupado, né? -, a gente se vê. Eu vou à casa dele, ou a gente marca em um lugar. Não dá pra ele vir aqui, né? Imagina ele aqui em Pau Grande, o mundaréu de gente que não ia ter atrás dele! Mas quando a gente conversa é legal, a gente lembra das coisas de jogador. Às vezes ele já me deu grana para ajudar… tem um coração grande, o negão.”

Agora, minha pergunta é mais profunda. Você vê futebol, Mané? Sabe que há um monte de jogadores que, quando tentam um drible mais elaborado como os que você dava, com incrível simplicidade, pela ponta direita, são saudados como representantes da verdadeira arte do futebol brasileiro? Sabe daquele garoto chamado Neymar? E ele mantém a mesma rabugice mansa: “Ney o quê? Sei lá desse garoto. Eu gosto de bater bola. De ver, não. Não vejo nada, nem daqui, nem lá de fora. Pra não dizer que eu não vejo nada, eu vejo o Brasil na Copa. Só. Tem uns amiguinhos do Zé e do João que ficam falando de uns times lá da Europa, mas eu não sei nem quero saber. Eu gosto de ver as peladinhas que a molecada joga. Até participava, às vezes, quando o joelho ajudava.”

Ah, agora a entrevista começou a chegar num ponto legal. Ele começa a falar das travessuras que ainda pode praticar. Como empinar pipa, jogar pião. As peladas, como já dito, não são mais frequentes, pela petição de miséria em que estão os joelhos. Mas ele conta das proezas que fez quando ainda se arriscava nas ruas de Pau Grande, como se cada garoto que ele driblou fosse Jordan (Jordã, não Jórdan, sempre bom lembrar), Tomires, Paulinho de Almeida, Pinheiro… “Ah, rapaz, quando eu tinha uns 55 anos, eu peguei um garoto de uns vinte numa pelada lá na rua. Fiz que ia três vezes, e ele foi. Quando eu fiz que ia pela quarta vez e saí em frente, ele caiu. Rapaz… a rua veio abaixo!”

Mas, enfim, o que você acha da vida, Mané? Das mulheres que teve, dos filhos que perdeu tragicamente, de tudo por que já passou? Resposta simples: “Ah, passou, né? Perdi filhos, já maltratei umas mulheres por aí, já bebi muito… mas passa, né? Mas eu não me arrependo, não. Eu vivi, né? Agora é melhor mesmo eu ficar aqui.”

Pausa. E Mané: “Já tá bom, né?” Já estava bom. E me despeço. Valeska ainda é simpática, pergunta se quero um café, já está quase pronto, por que não fica aqui, mas sinto que já está bom fazer a entrevista. E saio com uma sensação muito forte: a de que, por mais que a família faça marcação cerrada, por mais que hoje ele leve a vida de modo tranquilo (e quando não o fez?), por mais que ele esteja com idade avançada, Mané ainda é uma criança. Livre, como os passarinhos que adora. E que faria tudo o que fez de novo, por mais mal que lhe causasse. Enfim, repita-se: Mané, no fundo, é livre.

Baseada num texto do site da revista Vanity Fair, no qual David Kamp escreveu uma entrevista fictícia com John Lennon, como se ele estivesse vivo aos 70 anos de idade, a Trivela decidiu “realizar” uma entrevista fictícia com Mané Garrincha, que completaria, em 28 de outubro, 77 anos.