A CBF reuniu nesta segunda-feira os dirigentes de clubes brasileiros. A pauta era a MP 671, aquela da responsabilidade fiscal, mas um grande assunto retratado nos jornais desta terça-feira é outro: a criação de uma liga. Com o enfraquecimento da CBF, com José Maria Marin preso na Suíça, e Marco Polo Del Nero sob suspeitas de ser um dos co-conspiradores (como você pode ler aqui, Del Nero, ao que tudo indica, é um deles), há o consenso que o momento é bom para os clubes fazerem exigências. A pergunta é: os clubes querem mesmo autonomia ou só mais poder? Ao que parece, a segunda opção parece mais provável e foi isso que a CBF deu.

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O que os clubes querem?

Representantes de 18 clubes do futebol brasileiro e dirigentes da CBF estiveram reunidos na sede da entidade. Os clubes representados na reunião foram Atlético Mineiro, Atlético Paranaense, Avaí, Chapecoense, Coritiba, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Goiás, Grêmio, Palmeiras, Santos, São Paulo, Sport e Vasco. Figueirense, Joinville e Ponte Preta foram representados por diretor, advogado e vice-presidente, respectivamente. As decisões da reunião foram as seguintes, segundo nota da CBF:

1) Reforçar a unidade em torno do futebol brasileiro, reconhecendo a necessidade de modernização e independência;

2) Criação da Comissão Nacional Permanente dos Clubes Brasileiros, com fortalecimento e autonomia do Conselho Técnico, que poderá tomar decisões sem direito a veto da CBF;

3) Posição contrária ao relatório sobre a MP 671 apresentado pelo deputado federal Otávio Leite, com apresentação de proposta alternativa;

4) Divulgação massiva das medidas transformadoras do futebol brasileiro em andamento, com agenda positiva das ações;

5) Abertura da CBF aos clubes para apresentação de novas mudanças estatutárias.

A questão da MP 617

A principal questão para os clubes é mesmo a MP 617, que regulamenta o refinanciamento das dívidas. Os clubes querem menos contrapartidas exigidas pelo governo. As medidas são duras, ainda que não sejam tão radicais quanto os clubes querem fazer valer. Entre as exigências está, por exemplo, o rebaixamento de clubes que não cumprirem o acordo, ou seja, que deixem de pagar os tributos negociados e os correntes. Também exige que todos os clubes apresentem as famosas CNDs (Certidões Negativas de Débitos, que mostra que a entidade não têm dívidas com o governo federal) e também o Certificado de Regularidade do FGTS. Se não forem apresentados estes documentos, o clube seria rebaixado para a divisão imediatamente inferior.

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São medidas positivas, mas que precisam da concordância não só da CBF, mas também de todas as federações estaduais, que organizam campeonatos, já que este item precisa ser acrescentada no regulamento geral das competições. Isso significa que os clubes precisam fazer pressão para que isso aconteça. É uma medida que ainda deve ser contestada pelos clubes, mas, diante de um cenário de um futebol tão contestado pelo Fifagate, é possível que os clubes (e a CBF, junto com as federações) tenham que se adequar.

Há ainda pontos bem discutidos pelos clubes. Um deles é a inclusão de atletas, técnicos e árbitros no colégio eleitoral da CBF e das federações. É uma medida que, claro, a CBF não vai querer. Tem também a questão dos gastos limitados a 70% da receita do clube com folha salarial. A medida parece dura, mas afetará pouco na prática os clubes.

Atualmente, segundo o blog Olhar Crônico Esportivo, dos 10 clubes analisados em suas finanças, cinco deles ficaram acima dos 70% de gastos com folha: São Paulo, Cruzeiro, Internacional, Atlético Mineiro e Santos. Já Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Grêmio e Fluminense estavam de acordo com a proposta.

Ou seja, ainda haverá muita discussão em relação à MP 671. Há várias pontas fazendo força no caso. O governo já mostrou que quer contrapartidas bastante duras por parte dos clubes e usa o seu poder de credor para fazer os cartolas agirem de forma mais responsável e transparente com as suas contas. Só que o poder público está em baixa e dificilmente terá a força política para fazer valer a sua vontade. A CBF também não tem força o suficiente para brigar, diante de um enfraquecimento com as denúncias do caso Fifagate. Mas o seu poder não é desprezível, pois conta com a ajuda de uma vigorosa bancada no Congresso há anos.

Resta, então, os clubes, que, compreensivelmente, querem menos contrapartidas. Mas também sabem que essa medida pode colocar as federações e CBF na parede. Essas entidades são incompetentes para gerir os campeonatos e também são tubarões que mordem parte importante das arrecadações de bilheteria dos estádios. Equipes como Flamengo e Fluminense sentiram isso na pele no Campeonato Carioca, mas não é só nele. No Brasileiro e até na Libertadores, as federações estaduais abocanham parte da receita de todo e qualquer jogo. O momento é tão bom que os clubes receberam mais poder e veio justamente da CBF.

A CBF dá mais poder aos clubes

A criação de uma liga é um passo bem distante no atual momento. O que aconteceu na sede da CBF foi um passo muito menor. A entidade abriu mão do veto que tinha sobre a decisão do Conselho Técnico, formado pelos clubes. Isso significa, na prática, que qualquer decisão dos clubes relativos aos campeonatos será soberana e acatada pela CBF. Isso, claro, em tese. Essa medida cria uma autonomia para que os clubes tomem as decisões que quiserem, mas ainda embaixo do guarda-chuva da CBF.

É uma medida de fortalecimento, mas é também uma forma de a entidade dar os anéis para não perder os dedos. Del Nero sabe que precisa do apoio dos clubes e federações. Para isso, já estuda mais datas aos campeonatos estaduais do Nordeste, diminuindo datas da Copa do Nordeste. O que não faz sentido econômico algum. Afinal, a Copa do Nordeste é muito melhor técnica e financeiramente que os estaduais e parece que supre as necessidades dos grandes clubs da região de forma mais satisfatória. Mas, lembremos, a CBF vive do poder que emana das 27 federações estaduais. Por isso, dar duas datas a mais aos estaduais é ganhar capital político com todas as federações nordestinas, o que não é pouco.

Tudo isso é um pouco desanimador, mas é preciso considerar que é uma medida que abre possibilidades. É uma luta política que tem muitos desdobramentos e os clubes terão decisões importantes a tomar.

O que uma liga implica?

Criar uma liga não é só tirar a CBF do poder. Criar uma liga e ter os clubes tomando todas as decisões significa sair das asas da “mãe” CBF. Significa tomar as decisões sozinhos e pagar por elas. Significa ter todo o trabalho de organização dos campeonatos, decisão sobre os árbitros, e fazer tudo isso coletivamente. Eis aí o principal problema.

Quem mais puxa pela criação da liga são os dirigentes de Flamengo, Fluminense, São Paulo e Atlético Paranaense. Os dois últimos têm um grande teto de vidro. Carlos Miguel Aidar fala sobre liga desde os anos 1980 e é verdade que ele foi um dos principais articuladores do Clube dos 13 que fez o Brasileirão de 1987 (sim, AQUELE), mas o dirigente foi muito mal desde que assumiu o São Paulo, comprando briga com metade dos clubes da Série A com suas atitudes arrogantes. Mário Celso Petraglia, do Furacão, também tem um histórico de atrito com outros dirigentes. É difícil para os outros cartolas olharem para o são-paulino e o atleticano e confiarem que as mudanças que ambos defendem são para uma melhoria geral.

O conselho técnico parece ser o suficiente para a maioria dos clubes, o que é bastante contestável. Eurico Miranda, presidente do Vasco, é um dos defensores que a liga não é necessária porque os clubes já mandam. Mas ele é um dos que querem estender o poder do Conselho Técnico para incluir também a discussão das cotas de TV. Ou seja: ele quer basicamente retomar o que fazia o Clube dos 13, antes do seu esvaziamento em 2011. Algo que Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo, não parece muito disposto – o que é muito confortável também para quem recebe a maior cota atualmente, junto com o Corinthians.

As divisões entre os clubes passam também por fórmula de disputa, com um grupo defendendo a volta do mata-mata, enquanto outro defende a manutenção dos pontos corridos. A eventual criação de uma liga teria que incluir tanto a polêmica da fórmula de disputa quanto a divisão das cotas de TV, assuntos sensíveis a muitos clubes, por motivos diferentes. Os de baixo, claro, querem ganhar mais, enquanto os de cima tentam manter o quanto ganham.

O que une os clubes é a vontade de ter maior participação na CBF. Por exemplo, a mudança de estatuto, tão discutida nos últimos dias, não tem a participação das agremiações. Elas querem ter poder de voto, ainda mais se incluírem equipes das quatro divisões nacionais. Só isso já representariam 80 clubes, o que diluiria consideravelmente o poder das 27 federações estaduais. Mas este é um passo longo demais, até porque muitos dos clubes são profissionais só no nome e funcionam poucos meses do ano.

O Conselho Técnico dos clubes com poder de decisão é um passo importante, mas não quer dizer que a liga seja o próximo passo. O que parece mais provável é que os clubes usem essa possibilidade como poder de barganha para terem mais poder. Como os clubes não são empresas, são entidades sociais com poder político nelas, então o poder, mesmo a conta-gotas como o que a CBF parece disposta a dar, sacia a fome.

Tudo isso pode mudar se Del Nero for indiciado pela Justiça dos Estados Unidos no caso de corrupção na Conmebol, como tudo indica que será um dia. Enquanto isso, Del Nero trabalha pela manutenção do seu poder. E, até aqui, parece conseguir. Os clubes e federações defendem a sua manutenção. O dirigente ganha tempo. O cavalo selado para a criação da liga está passando. Os clubes, até aqui, não mostraram tanta disposição assim de montá-lo.