Espelho para nova geração de meninas, Andressa Alves cresceu sem referência feminina

Por Livia Camillo, do Papo de Mina

A infância é uma fase de descobertas e aprendizados. É neste período da vida em que as pessoas formam os traços mais autênticos da personalidade e começam a descobrir seus interesses e talentos. Mas nem sempre este processo é justo para as meninas. Afinal, com tantas regras impostas pela sociedade – “não fale assim, não vista isso, não brinque daquilo” – muitas delas acabam não tendo oportunidade de desenvolver seus talentos e sonhos.

Andressa Alves, jogadora da Roma e da seleção brasileira, passou por todos os obstáculos que uma mulher poderia passar para realizar o sonho de jogar futebol. E depois de superar todos os preconceitos, e até a falta de uma bola para jogar, descobriu o peso da responsabilidade que tem com as novas “Andressas” pelo mundo: ser a referência que ela mesma não teve.

“Eu lembro do meu pai jogando comigo e isso me motivava a continuar fazendo o que eu amava, mas de jogador eu lembro do Ronaldo Fenômeno [como referência]. Para mim, ele era incrível”, relembrou Andressa em contato com o Papo de Mina.

“Era normal quando criança a gente ser ofendida. A mulher não podia jogar e eu encarava isso com muita raiva e mostrava que era melhor que os meninos, e por isso eles tentavam me desmotivar. Tinha que superar essas ofensas diariamente e isso me fortaleceu para encarar qualquer obstáculo no caminho”, acrescentou.

Inspiração para uma nova geração de meninas

Um episódio recente mexeu com as lembranças da atacante. O caso de Larissa Vitória, a Lari Gol, que viralizou nas redes sociais com um depoimento sobre o bullying sofrido por escolher jogar futebol em meados de julho.

“Certamente, todas nós sofremos assim como a Lari, e nossa luta é para que isso não aconteça com nenhuma menina. É difícil, mas estamos na luta”, afirmou.

Lari Gol recebeu apoio de várias personalidades do esporte, inclusive de Andressa, que enviou alguns presentes, como chuteira e bola. Itens tão essenciais para a prática do futebol, mas que são pouquíssimas vezes entregues para garotas.

O que o futuro prepara para o futebol feminino

Apesar de muita coisa ter mudado desde que começou a jogar, Andressa sabe que o futuro ainda depende de muita transformação na sociedade. Ao comentar a frase “menino veste azul, menina veste rosa” da Ministra de Estado da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, a atleta lamentou os efeitos negativos que este tipo de pensamento causa.

“Num todo, eu consigo ver uma evolução. É claro que tem muitas pessoas que ainda pensam como a ministra, e ela com um cargo tão importante deveria tentar fazer uma mudança na sociedade e de alguma forma fazer outras pessoas pensarem diferente”, declarou.

Protagonizando uma campanha da Nike, com a peça #ABonecaQueNuncaPedi, a ponta-esquerda contou sua trajetória chutando cabeças de bonecas até ganhar uma bola de verdade. Uma história que, infelizmente, ainda se repete atualmente.

“Falta o machismo enraizado no Brasil acabar e as famílias começarem a educar seus filhos ut(as) ensinando que todos têm direitos de fazer o que amam e que o esporte é para todos e não distingue gênero” concluiu.

Andressa Alves com a boneca da campanha da Nike (Foto: Divulgação/Nike)

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