– Quinze anos de Trivela!

– Precisamos fazer um baile!

– Sai pra lá! Que coisa mais demodé!

– Demodé é usar a palavra demodé!

– Aliás, como escreve demodé?

– A gente procurava no Alta Vista a resposta?

– Não lembro.

– Foi antes ou depois da bolha da internet?

– Foi antes do bug do milênio.

– Flopou.

– Cuma?

– Caraca. Isso aqui não vai ficar datado?

– Vai. Tudo fica. Tá no cabeçalho. Ou tá no pé da mensagem.

– Ainda tem pirâmide invertida em Jornalismo?

– Ainda tem Jornalismo?

– A gente tenta fazer isso faz tempo. Fizemos site. Portal. Revista. Fizemos belas parcerias. Tivemos ótimos colaboradores. Viramos referência.

– Newsletter. Lembra? Como chamava aquele estagiário?

– O que virou empresário da noite?

– Não. O que achava que sabia tudo.

– E não são todos eles?

– Somos todos nós. Jornalistas. Ainda mais os esportivos.

– É.

– É….

– O que vai ser daqui 15 anos?

– O que foram os últimos 15 anos?

– Vamos mudar?

– De endereço, plataforma, mídia?

– De tudo.

– Mudamos. O futebol mudou.

– Depois da Copa João Havelange em 2000 poderemos ter a Copa Ricardo Teixeira em 2014.

– Campeonato Brasileiro por pontos recorridos no STJD.

– Voltaríamos ao mata-mata. O genocídio futebolístico.

– É tão ruim assim?

– Não é. Mas é que nada dura 10 anos no Brasil.

– A Trivela tem 15!

– E num corpinho de…

– 15 é crime. É 18. Barely legal.

– Boa. Tudo é meio quase legal mesmo no futebol brasileiro.

– Por isso a gente fala muito da bola que rola lá fora.

– Fomos dos primeiros. Ainda bem que não somos os últimos.

– Nem os únicos.

– Tem uma turma ótima por aí.

– Mas sempre tem gente que reclama que diz que tem cara que torce primeiro pelo Derby County e depois pelo Botafogo.

– Gosto não se discute. Amor também não.

– Futebol se discute muito. E tem para todo mundo do mundo todo. Se tem jogo na Championship mais legal que clássico do Brasileirão, que fazemos?

– Vemos os dois. Só não podemos fingir que assistimos a nenhum. Ou dormimos na frente da TV.

– Pior. Metemos o pau no jogo e no campeonato e nem ao estádio vamos.

– Torcedor de pagar-pra-ver.

– Paga-pau de estúdio.

– Coxinha de sofá.

– Poser.

– Será que alguém vai entender esse papo no futuro?

– Será que a gente entendeu o passado?

– Hicks Muse. ISL. MSI. Parmalat. Unimed. Odebrecht. Bom Senso.

– Você está trocando as bolas.

– É tudo isso e muito mais. Ou menos.

– É um diz que não DIS.

– É Kia. Motors ou Joorabchian.

– É Teixeira. É Marin. É Andres. É Marco Polo.

– Já foi Eurico. Dualíb. Mustafá. Juvenal.

– Já foram?

– Voltaram.

– Nunca saíram.

– Mas tem gente boa entrando. Ou querendo entrar. Tem cada vez mais ex-atleta jogando junto. Pensando junto. E bem.

– Profissionais estudando.

– Mas gente de outras aéreas querendo entrar nesse jogo e sendo expulsos pela gente que não quer perder as jogadas de sempre.

– Tem de tudo. Mas tem esperança.

– Tem?

– Teve Estatuto do Torcedor.

– Teve…

– Teve mais de dez anos de Brasileirão racionalizado.

– Mas os estaduais voltaram a inchar e encher o calendário e o saco.

– Eles não podem acabar. Precisam apenas ser racionalizados. Enxugados em datas dos grandes, espichados pelo calendário do ano.

– Mas daí isso não acaba nunca!

– Termina. Tudo um dia acaba.

– Esse é meu medo. Acabar essa nossa paixão.

– Essa não morre. É incondicional.

– Paixão de torcedor

– Paixão que nos levou há 15 anos a fazer o que ainda fazemos por imensa paixão.

– Aquilo que me anima pelos próximos 15 anos.

– Aqueles que me desanimam por estarem cada vez mais vivos nos próximos 15 anos. Ou décadas.

– Não podemos entregar os pontos.

– É. Mas basta um recurso no tribunal…

– Não cairemos!

– Se cairmos, logo subiremos.

– Papo de paulista!

– Conversa de clubista.

– Ranço de bairrista.

– Eixo do mal!

– Viu? É difícil fazer Jornalismo Esportivo. Com maiúscula.

– Difícil é fazer Jornalismo. Com caixa alta.

– E caixa baixo…

– Mas quando se tem paixão e história para contar, vai mais rápido.

– Eu não sabia que 15 anos passavam tão rápido.

– Lembra? Tinha Sul-Americano Sub-20 na Argentina. Ronaldinho Gaúcho era o craque do time. Júlio César o goleiro. Emerson jogava no ataque. Ele não era Sheik ainda.

– Nem Emerson…

– Tinha um balaio de gato naquele time. Eriberto que era Luciano…

– Mas a gente só dizia que africano que era gato…

– Preconceito. Desinformação. Chute. Má apuração.

– Tudo que tentamos combater em 15 anos.

– Tudo que ainda vamos lutar muito para não errar a mão.

– Com toques de efeito e de categoria.

– De Trivela.

– Mas que prepotência e cabotinismo! Até parece que somos jornalistas esportivos!

– Somos todos iguais.

– Uns mais que os outros.

– Parabéns para nós!

– Não. Obrigado.

– Para nós.

– Não. Para você que está lendo agora. Que nos lê há 15 anos. É tudo para você.

– Acabou bonito.

– Viu como tudo pode acabar bem?

– Eu sei que muitos bens acabam. Isso eu sei.

– Mas o nosso valor é outro. É fazer. É jogar. É participar.

– Barão de Coubertin da cobertura esportiva.

– Mais ou menos isso.

– Dom Quixote.

– Don Pernil Santa Coloma!

– Coronel Bolognesi!

– João Marcos, Benazzi, Marquinho, Darinta e Tonigato! A defesa do Palmeiras de 1981!

– Motor e Astronauta! A dupla da meiúca do São Paulo de Rio Grande nos anos 80!

– É isso!

– 15 anos disso! Futebol intravenoso. Venenoso.

– Tolete!!!

– Quem?

– A gente conta daqui 15 anos.

Mauro Beting foi colunista da revista Trivela de 2005 a 2008.