Para quem gosta de futebol, não necessariamente o dos maiores craques, a Liga Europa é uma grande diversão. Pode não contar com a badalação da Champions, mas possui uma abrangência e uma diversidade bem mais interessantes. A “segunda divisão europeia” integra muito mais os clubes de diferentes países. Prima pelas boas histórias, de equipes que não costumam figurar tantas vezes na elite. Da Irlanda ao Cazaquistão, a pluralidade se destaca. Enquanto isso, se tornou o melhor caminho para camisas pesadíssimas que já não contam com grande poder aquisitivo.

Em uma época na qual a Champions se indica cada vez mais fechada ao mesmo grupinho de clubes e países, a Liga Europa mais parece um banquete. Sim, há pontos a se discutir na competição, como a falta de um apelo maior na fase de grupos ou o domínio que os times que caem cedo na Liga dos Campeões muitas vezes apresentam nos mata-matas. De qualquer forma, para quem curte equipes diferentes e uma dose maior de imprevisibilidade, a alternativa é muitíssimo válida. Não à toa, muitas quinta-feiras são mais animadas que as terças ou as quartas.

No nosso tradicional guia do torneio, damos os detalhes de dentro e de fora dos campos para que você acompanhar de perto a Liga Europa. Confira os destaques:

– As quintas recheadas de futebol na TV

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Sejamos sinceros: não há nada melhor que uma tarde repleta de futebol na TV, com vastidão de jogos para ficar zapeando – principalmente se você puder se esparramar no sofá, sem precisar daquele drible de corpo no chefe ou no professor. É exatamente o que acontece na Liga Europa, e com a rodada em dois horários principais. A transmissão na TV brasileira ainda ajuda bastante, já que os direitos são divididos entre ESPN e Fox Sports. São cinco canais à disposição, além do Watch ESPN. Dá para ficar umas boas horas perdido entre tantas partidas e a partir de fevereiro melhora, com a emoção dos mata-matas.

– Porque a imprevisibilidade, aqui, existe

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Ninguém precisa ser grande conhecedor de futebol para saber que a Liga dos Campeões é um campeonato de cartas marcadas. Mesmo que aconteçam algumas surpresas, será raríssimo não ver Real Madrid, Barcelona e Bayern de Munique nas semifinais – se dois dos três caírem antes, já parecerá uma hecatombe. A Liga Europa, por sua vez, mantém o ótimo nível de surpresa. Difícil prever qualquer coisa, ainda mais quando os mata-matas ganham vários eliminados da Champions sedentos por uma taça. Alguém pode citar o Sevilla tricampeão nos últimos anos. De qualquer forma, por mais que os andaluzes dominassem, protagonizar tamanho sucesso nas competições continentais também foi um ponto fora da curva, algo que não acontecia desde o Bayern de Munique dos anos 1970.

– O empenho pela vaga (e pelo dinheiro) da Champions

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Sim, há uma vaga na Champions em jogo. E a gente sabe que a taça da Liga Europa deveria ter muito mais significado, mas nem sempre acontece assim. Com tantos milhões em jogo, será possível ver algum time que não esteja tão bem na liga nacional, tentando subir um degrau no nível europeu através da competição continental. O Sevilla, de certa forma, se beneficiou disso na última temporada, à medida que ficou distante do G-4 em La Liga. O Liverpool, por sua vez, demonstrou uma aplicação até incomum para os ingleses. Terminou chupando o dedo e se concentrando apenas na Premier League. É bem possível que outros exemplos se repitam em 2016/17.

– A quebra da hegemonia ibérica?

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O domínio da Península Ibérica na Liga Europa / Copa da Uefa nos últimos anos é evidente. Desde 2003, 10 dos últimos 14 campeões saíram da região, sendo ainda oito espanhóis e dois portugueses. Mas, olhando para esta edição, ao menos as credenciais não são tão boas assim na fase de grupos. Entre os tugas, restou o Braga, com o trio de ferro classificado à Champions. Enquanto isso, os espanhóis veem o Athletic Bilbao um pouco mais preparado, enquanto Villarreal e Celta passam por um momento de reformulação. Se há esperanças de que a taça se mantenha entre os ibéricos, ela é mais forte entre os possíveis terceiros colocados da Champions.

– A legião ‘soviética’ marca presença

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Quem acompanha a Liga Europa há alguns anos já está acostumado. Tornou-se corriqueiro ver os países das antigas repúblicas soviéticas, e não só Rússia e Ucrânia, disputando a competição. Azerbaijão e Cazaquistão expandiram as fronteiras em direção ao oriente, com três representantes desta vez. Além disso, mesmo que a força não seja a mesma dos últimos anos, Zenit e Shakhtar Donetsk entram como dois clubes a se acompanhar. Campeões do torneio ao longo da última década, sabem a taça e a importância para ganhar notoriedade no cenário continental.

– A Holanda vem (ou deveria vir) com tudo

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Em compensação, um país que merece um pouco mais de atenção nesta Liga Europa é a Holanda. A antiga potência da Champions, com seis taças no currículo, já não faz mais cócegas às ligas endinheiradas. Resta brigar no segundo escalão. E a representação desde a fase de grupos é boa. O Feyenoord caiu em um grupo difícil, mas conta com um elenco tarimbado, capaz de avançar e ir mais longe. O Ajax, por sua vez, tenta se recuperar do vexame nos playoffs da Champions, contra o Rostov. Além disso, não dá para descartar o PSV. Considerando que estão na mesma chave de Bayern de Munique e Atlético de Madrid na LC, sonhar com a Liga Europa se sugere um objetivo bem mais palpável.

– Manchester United, o time a se assistir?

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Sem muitas margens para debate, o Manchester United possui o elenco mais forte da Liga Europa nesta fase de grupos. Entretanto, estar na competição pode significar um ‘problema’ aos Red Devils, cujo claro objetivo é a Premier League. Resta ver como José Mourinho lidará com a rotação de elenco, enquanto concentra forças no campeonato nacional. Ainda assim, dá para fazer um bom estrago. Basta vontade, algo que, porém, nem sempre nota-se entre os ingleses na ‘segunda divisão europeia’.

– Sassuolo, Nice e a chance de um lugar ao sol

Berardi, do Sassuolo (AP Photo/Marco Vasini)

Entre as principais ligas da Europa, há dois clubes que estreiam na fase de grupos de uma competição continental. O Nice já foi potência na França durante os anos 1950, caindo duas vezes para o lendário Real Madrid nas quartas de final da Champions, mas não ia além das preliminares de um torneio europeu desde 1998. Treinada por Lucien Favre e trazendo alguns reforços de renome, pode fazer uma campanha interessante. Já o Sassuolo tem sede de história. Para quem estava na quarta divisão há dez anos, a oportunidade é imensa. E os neroverdi demonstraram muita vontade desde as etapas qualificatórias, passando por cima do Estrela Vermelha.

– Os italianos vêm babando pelo ranking

Totti, da Roma (Foto: Divulgação)

Durante um bom tempo, a Itália parecia não dar a mínima para a Liga Europa. Um jogo que virou durante as últimas temporadas, com a queda no ranking de países da Uefa e o peso de também ir bem no torneio. O título não acontece faz tempo, mas a melhora no desempenho é perceptível. E, agora, a Serie A apresenta candidatos qualificados o suficiente para voltar ao topo do pódio. Roma e Internazionale aparecem abaixo apenas do Manchester United em competitividade nesta fase de grupos. Não se pode descartar também a Fiorentina, acostumada ao torneio, em sua quarta participação consecutiva. Além deles, há o supracitado Sassuolo.

– Os alemães honrarão a sua liga?

Konoplyanka deixou o Sevilla, onde era camisa 10, para se transferir ao Schalke 04 e vestirá a camisa 11

Se alguns países nem sempre justificam a sua força na Liga Europa, a Bundesliga precisa ser questionada com mais frequência. Os clubes alemães muitas vezes despontam entre os favoritos do torneio, mas quase nunca justificam. O Borussia Dortmund tinha credenciais em 2015/16, mas parou no épico contra o Liverpool. E, assim, as grandes campanhas ficam cada vez mais limitadas ao passado. O último finalista foi o Werder Bremen, em 2009, enquanto a taça não vai para o país desde que o Schalke 04 derrotou a Internazionale em 1997. Os próprios Azuis Reais, desta vez, contam com talento e elenco para ao menos as fases finais. Já o Mainz 05 é outro em condições de negar as decepções recentes.

– Todo o esplendor de Viena e Atenas

Olympiacos-Panathinaikos

Viena e Atenas ocupam posições importantes na história do pensamento europeu. Em épocas diferentes, já apareceram entre as capitais intelectuais do continente e possuem influência marcante até hoje. No futebol, por sua vez, também chegaram a ocupar lugares de destaque, embora sem o mesmo protagonismo. E, na Liga Europa, contarão com dois clássicos indiretos – rivais disputando para ver quem vai mais longe no torneio continental. Figurinha carimbada na Champions, o Olympiacos caiu logo na primeira fase preliminar desta vez, e cruza com o Panathinaikos, que lida com problemas financeiros há algumas temporadas. Enquanto isso, os vienenses terão Rapid e Austria Viena, figurantes da Liga Europa nas últimas décadas.

– Dundalk põe a Irlanda de novo no mapa

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A Irlanda marcou a Euro 2016 como poucos países, por sua torcida pulsante. E, pela segunda vez na história, poderá disputar a fase de grupos de uma competição europeia. O Dundalk repete a façanha do Shamrock Rovers em 2011/12. Mas se os compatriotas foram saco de pancadas, sem um mísero ponto na fase de grupos, dá para esperar um pouco mais de honra dos atuais representantes. O Dundalk eliminou o Bate Borisov e por pouco não aprontou diante do Legia Varsóvia nas preliminares da Champions. Pode roubar alguns pontinhos desta vez.

– A nova geografia da Europa?

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É interessante observar o mapa da fase de grupos da Liga Europa nesta temporada. Há regiões que acumulam representatividade no torneio. São sete clubes do ‘Benelux’, entre quatro belgas e três holandeses. A Europa Central conta com oito representantes, divididos em dois suíços, três austríacos e três tchecos. Já no Mar Egeu, também são sete clubes, sendo três turcos, três gregos e um cipriota. Talvez isso seja apenas um cenário circunstancial. Alguns classificados das grandes ligas caíram cedo, enquanto outras regiões geralmente representadas se ausentam – cinco escandinavos e sete balcânicos foram eliminados na última fase preliminar. Mas também pode indicar a mudança que se desenha para a próxima temporada, com a Champions mudando de formato. Não será estranho se, enquanto o primeiro escalão das ligas se engalfinha no principal torneio, a Liga Europa comece o território de países com poder aquisitivo um pouco menor, ao menos na fase de grupos.

– Os velhinhos a se admirar

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Caso você busque jogadores midiáticos, vá ver as partidas de Manchester United, Internazionale ou Roma. Dos 25 jogadores com maior valor de mercado da Liga Europa, 21 se dividem entre os três clubes. O torneio, todavia, também pode ser uma chance de ver alguns velhos ícones em seus últimos momentos pelo continente. A Roma segue sendo atrativo, com Totti em sua derradeira turnê europeia. Mas vale ficar de olho em Rosicky e Kuyt, se dedicam aos clubes de coração; em Aduriz fazendo gols a rodo em Bilbao; em Cambiasso oferecendo sua raça pelo Olympiacos; no faro de gol que persiste em Van Persie ou Huntelaar. E a rodada começou promissora, com gol de Milan Baros, às vésperas de completar 35 anos, pelo Slovan Liberec.

– O velho Rasunda de volta a uma final

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O principal estádio da Suécia está eternizado nas Copas do Mundo. Afinal, foi no velho Rasunda que o Brasil conquistou o seu primeiro título mundial e o menino Pelé começou a se tornar rei. Entretanto, a mítica cancha de Solna nunca teve o mesmo espaço nas competições continentais. Apenas uma final aconteceu lá: a Recopa de 1998, quando Gianfranco Zola comandou a vitória sobre o Stuttgart de Krasimir Balakov. Desde então, mudanças notáveis aconteceram no estádio. Incluindo a sua demolição, reinaugurado em 2012 como Friends Arena. O ambiente é completamente diferente, mas permanece a aura da casa da seleção sueca, que receberá a decisão desta temporada.