Especial: o futebol na terra de Kim Jong-Il

Jong Tae-Se chora copiosamente. O estádio Ellis Park, em Joanesburgo, ouvia o hino norte-coreano quando o atacante não segurou a emoção. O que, aliás, sempre foi comum do “Rooney Asiático” em jogos de sua seleção. Era a estreia do Brasil na Copa de 2010 e, para milhões de pessoas no mundo, aquele era o primeiro contato direto com alguma imagem de indivíduos norte-coreanos que não fossem militares desempenhando coreografias diante dos olhares do caricato ditador Kim Jong-Il.

A figura caricata do presidente se transformou em ícone do país mais misterioso do mundo. Uma nação em que pouco se sabe o que acontece, que poucos estrangeiros visitam e que não faz questão de ser diferente. A morte do ditador, que estava no poder desde o falecimento de Kim Il-Sung, seu pai, poderia abrir a brecha para uma maior integração da Coreia do Norte com o resto do mundo. E isso inclui até o futebol, que tem na seleção nacional e seu atacante emocional como única imagem forte.

A participação da Coreia do Norte em Copas do Mundo é tão inconstante quanto os humores do ditador do momento. Os norte-coreanos não se inscreveram para os primeiros sete Mundiais. Na primeira oportunidade que teve, em 1966, passou pelas Eliminatórias e chegou às quartas de final, deixando a Itália pelo caminho. Entre 1970 e 94, em 2006 e 2014, não passou pelas Eliminatórias asiáticas. Em 1998 e 2002, primeiras Copas sob o regime de Jong-Il, não se inscreveu. Em 2010 foi até a Copa pela segunda vez.

Cada uma das aparições é cercada de problemas diplomáticos. Há um mês, o Japão perdeu da Coreia do Norte em Pyongyang pelas Eliminatórias para 2014 (os japoneses já estavam classificados e os norte-coreanos, eliminados) e acusou o governo local de intimidar seus jogadores e torcedores. Nas Eliminatórias para 2010, a Fifa determinou que Coreia do Norte x Coreia do Sul fosse disputado em Xangai. Motivo: dentro de território norte-coreano é proibido tocar o hino e hastear a bandeira dos sul-coreanos.

Essas participações esporádicas – mais alguns amistosos com países amigos – representam quase todo o contato internacional do futebol norte-coreano. Os times locais não participam das competições interclubes da Ásia desde 1992 e poucos jogadores do país recebem autorização para defenderem equipes estrangeiras.

O Campeonato Norte-Coreano é quase um torneio secreto fora das fronteiras do país. Ele foi criado em 1960, mas seus campeões são desconhecidos até 1984. Contando a partir de 1985, o maior campeão é o 25 de Abril, ligado ao Exército (o nome homenageia o dia do Exército), com 12 títulos. Dividindo a segunda posição no ranking estão Kigwancha (time da companhia ferroviária) e o Pyongyang City, ambos com 5 conquistas. De seus elencos, são conhecidos os jogadores que defendem a seleção norte-coreana e os poucos estrangeiros (chineses). O 25 de Abril é exceção por fazer excursões anuais à China. não há relatos de resultados rodada a rodada.

Desse modo, mesmo os observadores mais dedicados ao futebol asiático têm dificuldade de conhecer a capacidade técnica da Coreia do Norte. A situação só não é mais crítica devido a uma geração de zainichis, japoneses descendentes de coreanos, que têm talento para o futebol e adotaram a nacionalidade da terra de seus pais. Alguns deles preferiram defender a Coreia do Norte. É o caso de Jong Tae-Se (nascido em Nagoia, atualmente defende o Bochum-ALE), Ryang Yong-Gi (Osaka, defende o Vegalta Sendai), Kim Song-Gi (Hyogo, Cerezo Osaka) e An Yong-Hak (Okayama, Kashiwa Reysol). Todos eles atuam pela seleção norte-coreana, mas jamais tiveram contrato com um clube do país.

O futebol poderia ser um caminho para retomar o contato da Coreia do Norte com o mundo e do mundo com a Coreia do Norte. Mas as perspectivas não são boas. Kim Jong-Un, filho de Jong-Il e herdeiro natural ao comando do país, não é visto como um liberal. Aliás, há quem o considere mais radical que o pai, mesmo tendo estudado na Suíça.

Desse modo, a tendência é que a imagem mais marcante que os amantes do futebol terão da Coreia do Norte será, por muito tempo, o choro de Tae-Se. Ao menos, uma imagem mais humana e emocionante que Kim Jong-Il e o regime que ele impunha a seu povo.