Espanha

Qualé, maño?

Criou-se uma ideia no Brasil: cair para a segunda divisão é bom para clubes em crise profunda conseguirem se reestruturar e voltar com força. Uns mais, outros menos, mas foi o que ocorreu com Fluminense, Palmeiras, Botafogo, Grêmio, Corinthians, Atlético Mineiro e, talvez, Vasco. Mas não dá para encarar isso como regra, e exemplos em outros países mostram isso. Como o Zaragoza.

É verdade que o clube aragonês não é tão grande quantos os brasileiros citados no parágrafo acima. Mas, em um país que tem poucos times realmente grandes, ter a tradição e força de um Zaragoza, um Sevilla ou um Betis é suficiente para ficar sempre na elite, investindo em projetos que permitam à equipe a brigar por vagas em competições europeias. O que não vem ocorrendo com os maños.

Após 16 rodadas, a campanha zaragocista é tenebrosa. Perdeu nove jogos (segunda pior marca da liga), sofreu 35 gols (pior defesa), fez apenas dois pontos nas últimas sete partidas, levou de 6 a 0 do Real Madrid e 6 a 1 do Barcelona e marcou apenas 13 pontos. Está na penúltima posição, à frente apenas do deplorável Xerez.

Nem se imagina que essa equipe conta com um time bastante razoável, com nomes de algum destaque internacional. Há nomes de destaque internacional em todos os setores, do goleiro (Carrizo) ao ataque (Arismendi, Ewethon e Uche), passando pela defesa (Roberto Ayala e Diogo) e meio-campo (Ponzio, Babic e Pennant). Uma base que se formou há três anos e teve mudanças graduais, quase sempre fracassando.

As notícias dessa virada de ano são sintomáticas. O técnico Marcelino García Toral, que ganhou destaque pela ótima campanha do Racing de Santander em 2007/8, foi demitido. Em seguida, saiu o presidente Eduardo Bandrés e sua diretoria. O comando foi assumido pelo sócio majoritário do clube, Agapito Iglesias, que reconheceu a crise institucional do Zaragoza.

A mudança imediata foi o anúncio de José Aurélio Gay (lê-se gái) para o comando da equipe. A decisão foi surpreendente, pois tudo parecia acertado para o retorno de Víctor Muñoz, que passou por La Romareda entre 2004 e 2006, conquistando uma Copa do Rei. A preferência pelo técnico do Zaragoza B, porém, indica uma tentativa de mudança. Gay conhece bem a estrutura do clube e pode criar um projeto mais discreto, ou “low profile” (como diriam os anglófonos).

Logo de cara, o novo treinador decidiu trombar com Ayala e Ewerthon. O primeiro chegou como estrela internacional em 2007, um ano após ser um dos melhores zagueiros da Copa do Mundo. O segundo é ídolo da torcida há anos. Mas ambos não estavam, na avaliação de Gay, se dedicando ao time. Tanto que a explicação para não relacioná-los para a partida contra o Deportivo de La Coruña, neste domingo, foi “precisamos de 11 em campo, não de oito e meio. Na situação que estamos, temos de estar com toda a equipe, mas vejo que eles estão em corpo, não em mente. Creio que eles não podem nos ajudar e prefiro quem possa nos dar esperança”.

Esse tipo de problema se tornou comum no Zaragoza. Quando chegaram, em 2006, Bandrés e Iglesias tinham planos ousados. Mantiveram os bons nomes que o elenco já possuía, como os irmãos Gabriel e Diego Milito, Ewerthon, Ponzio, César (atual goleiro do Valencia) e Sergio García, e o reforçou com dois nomes de peso, D’Alessandro e Aimar.

Na primeira temporada, o time foi bem e conquistou uma vaga na Copa Uefa. Mas a desperdiçou rapidamente, caindo diante do Aris, da Grécia, na primeira fase do torneio internacional. Depois disso, foi ladeira abaixo. Os resultados deixaram de ser proporcional à quantidade de talentos do clube, que virou uma máquina de engolir treinadores e jogadores. As estrelas cada vez menos acreditavam no projeto, que desmoronou.

O rebaixamento em 2008 foi seguido pela promoção em 2009. Isso deu a sensação de que a situação estaria mudando, mas ficou claro que o acesso veio apenas pela diferença técnica entre o Zaragoza (que estava reforçado com Ricardo Oliveira) e os outros times da Segundona. De volta à elite, a falta de consistência da equipe voltou a se manifestar.

Para evitar novo rebaixamento, Gay aposta no simples fato de que o Zaragoza tem mais talento que alguns adversários. E é verdade. Se ele colocar a seu lado algumas estrelas, encontrar na base nomes razoáveis para preencher a equipe e até fazer algumas incursões no mercado de inverno, dá para superar concorrentes como Almería, Málaga, Tenerife e Racing de Santander. É essa a esperança da torcida, que não aguenta mais se decepcionar com um clube que não cansa de prometer.

Devo, não nego, pago no fim do ano

Uma notícia pegou de surpresa os espanhóis: o Deportivo de La Coruña acertou com seus jogadores que não pagaria uma parte dos salários de dezembro, janeiro e fevereiro. A principal surpresa nem foi a decisão, mas o fato de os jogadores aceitarem e, mais que isso, revelarem que não é novidade no Riazor.

Por problemas de fluxo de caixa, o Deportivo se vê em dificuldades nessa época do ano. Para não deixar os atletas sem salários, ou não ter de escolher alguns para receber, a diretoria negociou com o elenco e todos os jogadores terão depositados € 12 mil euros nesses três meses. O restante será pago no fim da temporada, quando as contas do ano são fechadas – e apresentadas à liga espanhola e ao sindicado de jogadores. Isso foi feito na temporada 2006/7, quando a venda de Arbeloa ao Liverpool ajudou a quitar a dívida.

Manuel Pablo, capitão da equipe, diz que os jogadores entendem a situação e sabem que a diretoria age de boa-fé. O brasileiro Filipe Luís reforça a tese, comentando que € 12 mil euros mensais está longe de ser um salário ruim para sobreviver. É difícil saber até que pontos os atletas realmente aceitam isso. Ou se o pagamento parcial não pode ser um elemento a mais numa futura crise.

De qualquer modo, fica evidente que a situação financeira do Deportivo é delicada, perto do limite. E que, talvez, o clube tenha de vender jogadores, como fez em 2007.

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Equipe Trivela

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