Espanha

Piqué: “Cogitei deixar a seleção da Espanha, mas seria dar razão a quem vaia”

Gerard Piqué, um símbolo do Barcelona e da Catalunha, se tornou o centro da polêmica na seleção da Espanha. O zagueiro se apresentou depois dos tristes acontecimentos na região no último domingo, quando um plebiscito, considerado ilegal pelo governo espanhol, foi violentamente reprimido pela polícia espanhola, deixando 761 feridos. Com isso, o jogo do Barcelona contra o Las Palmas, no Camp Nou, foi jogado com portas fechadas. Alguns torcedores vaiaram Piqué, além de levarem cartazes pedindo a sua saída.

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Não é a primeira vez que Piqué é questionado na seleção espanhola. O acirramento dos ânimos em um momento de pouco diálogo e muita violência – seja da polícia, seja das pessoas com xingamentos nos treinos ou nas redes sociais -, a questão se torna ainda maior. E Piqué foi à coletiva de imprensa para falar com o público.

“É impossível colocar em dúvida o meu compromisso. Estou aqui desde os 15 anos e considero isto uma família. É uma das grandes razões que eu continuo aqui. E o compromisso pela seleção sempre foi o mesmo. Me sinto muito orgulhoso de poder fazer parte de um grupo de jogadores que é único. Minha mensagem é que não duvidem do meu compromisso”, disse.

A questão da Catalunha

Piqué ainda falou sobre o que acontece na Catalunha e tentou não entrar em polêmica. “É muito difícil transmitir a vocês o que está acontecendo na Catalunha. O que eu vi é algo muito diferente do que vocês veem aqui, porque só veem o que a televisão querem que vejam… Agora estamos em um ponto que se está radicalizando tudo. A situação da Espanha e Catalunha é como o filho de 18 anos que quer sair de casa. A Catalunha sente que não é tratada como merece. Ou o pai se senta para dialogar, ou o filho se vai”.

Foi perguntado a ele se ele acha que, em caso de independência, se existiria uma seleção catalã. “Não sei o que aconteceria. É um cenário que eu não considerei, mas no caso de acontecer isso, suponho que seja um processo de dois ou três anos, como aconteceu com o Brexit”, respondeu o jogador, de 30 anos. “Acredito que acontece o mesmo. E, no meu caso, como já teria 33 anos, não acredito que tenha que tomar essa decisão, assim eu não considerei”, analisou.

Um dos questionamentos que se faz a Piqué é se ele defende a independência da Catalunha e, se defende, como poderia continuar jogando pela seleção da Espanha. “Acredito que um independentista poderia jogar na seleção espanhola. Porque o independentista não tem nada contra a Espanha. O catalão que quer a separação não está contra a Espanha e tampouco tem sua própria seleção. Não é o meu caso, mas por que um independentista não poderia jogar na seleção espanhola?”, afirmou.

Apesar da resposta, ele disse que não iria revelar o que pensa sobre a independência da Catalunha. “Esta é a pergunta de um milhão e obviamente eu não vou responder”, disse ao jornalista que perguntou. “Os jogadores são figuras globais, assim não posso resolver por um lado ou por outro. Perderia metade dos meus seguidores e nós viemos aqui para jogar futebol”, afirmou o zagueiro.

“Meus filhos são colombianos, libaneses, catalães e espanhóis… Hoje em dia é tão fácil ir de um lugar a outro. Agora mesmo minha resposta é o de menos. Há um problema muito grande. Ou se dialoga, ou isto irá aumentar, e as consequências ninguém sabe”, continua ainda o jogador do Barcelona.

Relacionamento com Sergio Ramos

Piqué se tornou um símbolo do Barcelona e da Catalunha e, por isso, é colocado do lado oposto a Sergio Ramos, do Real Madrid, que muitas vezes fez declarações em tom oposto ao companheiro de zaga em assuntos políticos. Por isso, há muitas dúvidas sobre o relacionamento entre os dois, algo que Piqué esclarece dizendo que não só não há problema como o relacionamento é bom e serão sócios de um negócio.

“O que falam de Sergio Ramos é mentira. Nós temos um relacionamento fenomenal, já disse mil vezes. Na verdade, vamos ser sócios em um negócio que criei não faz muito tempo. Deixemos de lado esse tópico. Ele e eu somos muito próximos”, respondeu Piqué.

Permanência na seleção

“Eu quero sair daqui da melhor forma possível. São quase 10 anos com a seleção, um terço da minha vida. Não quero sair pela porta de trás e sentir que tudo acaba mal. Quero continuar por todos aqueles que me apoiam”, declarou o jogador.

“Eu cogitei sair, porque no final temos que considerar todas as opções, mas acredito que o melhor é continuar. Sair agora iria supor dar a razão a estas pessoas que entendem que o melhor é vaiar e não vou dar a eles esse luxo. Estou convencido que há muito mais gente a favor que eu fique”, continuou Piqué.

Presente na seleção espanhola desde 11 de fevereiro de 2009, Piqué jogou 91 partidas. Passou pelas seleções de base, desde 2002, na seleção sub-16. Passou por todas as categorias de base e conquistou a Copa do Mundo de 2010 e a Eurocopa de 2012.

Depois do jogo contra o Las Palmas, no último domingo, dia do referendo, 1º de outubro, Piqué chegou a declarar que se o técnico ou alguém da federação espanhola achar que suas posições são um problema para o time, que ele poderia deixar a equipe. Foi prontamente defendido pelo técnico Lopetegui, que elogiou o seu comportamento.

Tudo indica que apesar da sua grande carreira e de ser um dos melhores da sua posição no mundo, o questionamento sobre ele de um grupo de torcedores da Espanha continuará.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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