Espanha

Os 75 anos de Iribar, o grande guardião do arco e das tradições do Athletic Bilbao

San Mamés, a mítica catedral do Athletic Bilbao, ocupou o imaginário dos futebolistas da Espanha ao longo de um século. O estádio construído em 1913, afinal, não se limitava como mero palco de grandes jogos. Era um marco arquitetônico. A partir dos anos 1950, quando as arquibancadas foram ampliadas, um suntuoso arco de 270 toneladas passou a sustentar as estruturas. Porém, representava mais do que isso. Contava Quini, antigo artilheiro de La Liga, que era possível ver o arco a 15 quilômetros de distância: “Embora você soubesse que a glória podia te esperar, também sabia que teria que lutar durante 90 minutos, porque esta obra majestosa te indicava que não ia a qualquer parte”. E, se para os visitantes havia a imponência, para os anfitriões ele se erguia tal qual um portal, o ponto de passagem rumo a um mundo de sonhos. O arco no qual milhares de torcedores juram, de pés juntos, ter visto um anjo. O anjo que sobrevoou a catedral por 18 anos e, décadas depois, permanece como eterno guardião.

José Ángel Iribar defendeu o Athletic Bilbao mais do que qualquer outro jogador. O goleiro disputou 614 partidas pelos leones, marca que tende a permanecer absoluta por mais algumas décadas. E este “defender” ganha diferentes sentidos, ao se pensar no simbolismo do veterano. Há a referência direta à sua posição, camisa 1 venerado. Mas em um clube que se vale tanto de suas tradições, Iribar acaba as encarnando. É o filho querido, que nasceu no País Basco e nunca desejou vestir outras cores desde que aportou a San Mamés. É o salvador que carregou o time em momentos difíceis, de raras conquistas, assim como foi carregado nos ombros nas principais façanhas. E, diante da reabertura na Espanha, na qual os bascos redescobriam a liberdade em torno de sua identidade, o arqueiro foi também um porta-voz.

Um ídolo, de qualquer forma, se erige principalmente por aquilo que faz em campo. Neste sentido, Iribar foi um dos melhores que a Espanha já viu. Campeão da Eurocopa de 1964, figura em qualquer lista de maiores goleiros da história do país. E se não recebe a mesma reverência em outras partes do mundo, isso se dá mais por falta de conhecimento do que por menosprezo. Alfredo Di Stéfano dizia que o basco foi o melhor arqueiro que precisou enfrentar. Outras lendas certamente compartilham o sentimento da Flecha Loira, assustados por aquele homem que se agigantava sob a meta. “El Chopo”, lhe chamavam, em referência à árvore homônima de tamanho singular. Embora não fosse dos mais altos, com 1,84 m, o camisa 1 também parecia tocar os céus.

Como goleiro, Iribar era bastante sóbrio. Vestido quase sempre de negro, transformava o seu posicionamento em uma aula de geometria a quem o assistia, bem colocado. Tinha reflexos apurados, mas não abusava das acrobacias, em voos diretos ao seu destino. E se o perigo vinha com pressa, o camisa 1 não se furtava a deixar os paus, explorando as dimensões da área. Os socos arrojados para afastar os cruzamentos se tornaram uma marca registrada. Além disso, ajudava a modernizar a posição em outros sentidos. Seus lançamentos longos com as mãos eram uma arma notável aos contra-ataques do Athletic. E até mesmo nos acessórios inovava, viajando com frequência a Londres para comprar o mesmo tipo de luvas que usava Gordon Banks.

Já como homem, Iribar ainda é bastante sóbrio. Reconhecido por sua liderança humilde e generosa, o goleiro conquistava a todos por sua afabilidade. Culto, segundo dizem, é daqueles com quem se pode travar uma boa conversa sobre qualquer assunto. E se fora de campo a serenidade imperava, dentro das quatro linhas era verdadeiramente um leão. Crescia nos grandes jogos e se transforma sob os urros das arquibancadas. Não à toa, os gritos em homenagem o goleiro seguem ecoando – agora em San Mamés Berría, a nova casa do Athletic, que substitui a catedral. Iribar se engrandece diante da torcida, volta a tocar os céus. E por isso, na semana em que completou 75 anos, as homenagens foram amplas ao Chopo. Para demonstrar como o velho anjo do arco de San Mamés continua acima de todos, mesmo preferindo se colocar sempre ao lado dos seus.

Os primórdios

José Ángel Iribar nasceu em 1° de março de 1943, na cidade de Zarautz, provincia de Gipuzkoa. Em tempos nos quais o País Basco de reconstruía após a derrota na Guerra Civil, o garoto cresceu em uma família humilde. Mais velho de cinco irmãos, precisava ajudar nas tarefas, trabalhando no campo. E logo elegeu o futebol como maior paixão. Praticava nos times escolares e, nos tempos livres, batia bola com os amigos nas praias da cidadezinha. Parecia predestinado a se tornar goleiro.

O jovem talento não tinha dúvidas sobre a sua posição. Seu pai, inclusive, era um fã confesso do lendário Ricardo Zamora, goleiro de carreira admirável por Espanyol e Real Madrid, além da seleção. Assim, passou o gosto ao rebento, que admirava de longe os grandes arqueiros, se deliciando com as suas histórias. Adorava ir à barbearia, mas não exatamente para cortar o cabelo. Por lá, tinha à disposição jornais e revistas esportivas. Lia atentamente os relatos e observava as fotos, tentando imaginar e reproduzir os movimentos. Nas areias, voava e sonhava. Trabalhava suas virtudes e apurava seus reflexos.

O futebol se tornou mais sério a Iribar a partir dos 13 anos, quando se juntou ao Club Deportivo Zarauz. Por lá, conheceu o seu primeiro ídolo. Se a televisão era um artigo de luxo, restava ao menino admirar Edmundo, goleiro de carreira modesta, mas titular do Zarauz. Nos treinos e nos jogos, se fixava em cada gesto do professor. A partir dele, começou a usar roupas negras para atuar. A partir dele, entendeu como a sobriedade pode ser importante sob as traves.

Ainda juvenil, Iribar teve uma chance de ser testado pela Real Sociedad. Poderia ser contratado pelo maior clube de Gipuzkoa. No entanto, o nervosismo atrapalhou o adolescente e os olheiros não se impressionaram com o que viram, logo o dispensando. O goleiro seguiu militando nas fileiras do Zarauz, mas a pedido do pai aprendeu outro ofício, formado torneiro mecânico, trabalhando em uma pequena fábrica. De qualquer maneira, não demoraria para o destino oferecer uma nova chance no futebol. Um vizinho era ex-jogador do Basconia, da segunda divisão, e providenciou mais um teste. O prodígio precisou se empenhar para convencer à família. Ao final, ganhou a permissão, mas tinha apenas um ano para isso. Caso não conseguisse, desistiria da carreira.

Por muito pouco o desejo de Iribar não se despedaçou. O  Basconia tinha dúvidas de sua real qualidade, vendo aquele garoto ágil, mas desengonçado. Por sorte, uma das maiores lendas do Athletic Bilbao apareceu em seu caminho. Agustín Gainza vestiu a camisa alvirrubra por quase duas décadas. Conquistou nove títulos com o clube e compôs uma linha de ataque mítica em San Mamés, sobretudo ao lado de Zarra e Panizo, seus companheiros também na Copa do Mundo de 1950. O craque pendurou as chuteiras em 1959, mas continuou atuando nos bastidores dos leones, fazendo a relação com clubes associados. Um deles era o Basconia. E ao ver o arqueiro, impressionado com seus lançamentos e seus saltos, não pestanejou: “Se vocês não se decidirem, eu mesmo coloco o dinheiro”. Assim, aos 18 anos, a promessa ficou.

A ascensão no Basconia

Reserva do Basconia, Iribar se projetou rapidamente. Ganhou sua primeira chance na sétima rodada da segunda divisão, após a lesão do titular. Enfrentaria justamente o Indauchu, outro clube basco e também filiado ao Athletic Bilbao. Enquanto os adversários eram da capital, conveniados com os jesuítas e com a escola de engenheiros, o seu time se colocava como o primo pobre, do povoado. Justamente os azarões venceram, por 2 a 0, com uma atuação decisiva do goleiro. E sua fama não demoraria a se expandir.

O momento crucial da carreira de José Ángel Iribar aconteceu na Copa do Generalíssimo (atual Copa do Rei) de 1961-62. Nos 32-avos de final, o Basconia eliminou o Atlético de Madrid. Os colchoneros contavam com uma equipe fortíssima, protagonizada por Enrique Collar e Joaquín Peiró. Não à toa, terminaria a temporada conquistando seu primeiro título continental, a Recopa Europeia, em cima da Fiorentina. Contra os pequeninos bascos, porém, os madrilenos não se impuseram. Após uma vitória para cada lado, Iribar brilhou no jogo-desempate e ajudou seu time a se classificar.

Problema maior viria na fase seguinte, os 16-avos de final. O Basconia encararia o Barcelona, treinado por László Kubala. No jogo de ida, os bascos acabaram derrotados em casa por 2 a 0, encarando os reservas catalães. Já no Camp Nou, um massacre. O mistão blaugrana enfiou 10 a 1 sobre os aurinegros, com destaque à tripleta de Jesús María Pereda. Ainda hoje, é a maior goleada aplicada pelo clube em seu estádio. A lesão de dois jogadores visitantes, em uma época na qual as substituição não eram permitidas em todas as competições, explica bastante o placar. Tanto é que, mesmo buscando a bola no fundo das redes tantas vezes, Iribar saiu com moral. O próprio Kubala pediu sua contratação.

Iribar terminou a temporada 1961-62 no Basconia. Naquele momento, estava claro que o prodígio não seguiria no clube. O desempenho coletivo nem foi tão bom, com os bascos escapando do rebaixamento na segundona apenas pelos critérios de desempate. Ainda assim, seria pior sem o goleiro. Diversas potências queriam comprá-lo. Valencia e Atlético de Madrid fizeram as suas ofertas. Mas ninguém foi mais agressivo que o Barcelona. Os blaugranas colocaram na mesa uma oferta de três milhões de pesetas, valor altíssimo na época. O Real Madrid, por exemplo, havia desembolsado seis milhões por José Araquistáin, ídolo de Iribar e titular da seleção. As cifras, de qualquer forma, não bastariam.

No fim das contas, pesou o convênio do Basconia com o Athletic Bilbao – sob muitas turbulências. O acordo previa que os bilbaínos cedessem jogadores sem custos às filiais, mas também poderiam pinçar os talentos que quisessem de graça. Insatisfeitos com a maneira como os alvirrubros priorizavam o Indauchu em suas relações, os aurinegros até aceitaram vender Iribar, mediante o pagamento de um milhão de pesetas, e não mais de mão beijada. O fato de que a maioria dos dirigentes do Basconia eram torcedores do Athletic explica a pedida bem mais baixa. Apesar do desconto generoso, o clube de Bilbao ficou contrariado. Mas não dava para ignorar a promessa apenas por orgulho. A partir de então, Iribar se mudava a San Mamés.

Surge um ídolo

A repercussão do negócio não transformava José Ángel Iribar em titular imediato do Athletic Bilbao. Afinal, os leones prezaram bastante por seus goleiros ao longo das três décadas anteriores. Desde a primeira edição do Campeonato Espanhol, em 1928-29, a meta alvirrubra se revezou praticamente entre três arqueiros – todos eles idolatrados em San Mamés. O pioneiro foi Gregorio Blasco, lenda que faturou quatro ligas e quatro copas em uma década como titular, mas se exilou no México diante da Guerra Civil. Ao final do conflito, José María Echevarría assumiu a posição por três temporadas e chegou a ser convocado à seleção, mas viu sua carreira abreviada aos 22 anos, por uma lesão. Então, surgiu Raimundo Lezama. Um “niño de la guerra” (crianças e adolescentes bascos que se refugiaram na Inglaterra durante a guerra civil), o garoto despontou no segundo quadro do Southampton, até voltar para casa. Passou antes pelo Arenas de Guecho e foi comprado pelo Athletic. O goleiro arrojado permaneceu em San Mamés por 16 anos, metade deles como titular, recolocando o clube no topo do futebol espanhol.

Lezama perdeu espaço a partir de 1950-51. Na penúltima rodada daquela temporada, estreava Carmelo Cedrún. Levado ao Athletic ainda nas categorias de base, o jovem de 20 anos estava nervoso para o primeiro jogo, encarando o Sevilla em San Mamés. Ganhou o apoio dos veteranos do elenco, incluindo um tal de Gainza. Deu certo: teve ótima atuação na vitória por 3 a 0 dos leones, chegando a defender um pênalti. A partir de então, se tornou intocável nos leones. Chegou à seleção espanhola e conquistou La Liga em 1955-56, além de três Copas do Generalíssimo no final da década de 1950. Era titular do time que alcançou as quartas de final da Copa dos Campeões, eliminado apenas pelos Busby Babes do Manchester United. E às vésperas da compra de Iribar, estava em viagem ao Chile, onde disputou a Copa do Mundo de 1962. Enfrentou Tchecoslováquia e México, até ser substituído por Araquistain no compromisso final da fase de grupos, contra o Brasil.

Assim, por mais que o Athletic estivesse acostumado em confiar sua meta a jovens goleiros, era natural que Iribar começasse esquentando o banco de Cedrún – que, às vésperas de completar 32 anos, acumulava mais de 300 partidas pelo Campeonato Espanhol. Na abertura da temporada, aliás, ocorreu um episódio singular. Os leones enfrentariam justamente o Barcelona em San Mamés, depois de todo o tumulto nas tratativas com o Basconia. Nas arquibancadas, a recepção aos catalães não foi nada amistosa. Dentro de campo, porém, o Barça venceu por 3 a 2 – graças a um gol no qual o assistente assinalou o impedimento, mas o árbitro validou, causando ainda mais revolta.

Apesar do moral de Cedrún, não demorou a Iribar estrear. Entrou em campo na rodada seguinte, saindo do banco contra o Málaga, depois que o titular bateu a cabeça na trave e sofreu uma concussão. Na sequência, o veterano retomaria a posição e a nova brecha ao novato aconteceria apenas na rodada final, com o campeonato decidido, encarando o campeão Real Madrid. Pela primeira vez, El Chopo atuava em San Mamés. O goleiro ia pegando tudo contra o esquadrão de Miguel Múñoz, até que um novo erro de arbitragem prejudicou os leones. Manolín Bueno foi derrubado fora da área, mas o juiz assinalou o pênalti. Antes da cobrança, o jovem de 20 anos se dirigiu a Ferenc Puskás e disse: “Bate para fora, senão não sairemos do estádio hoje”. Ao que o Major Galopante respondeu: “Sim, sim, filho da puta”. E mandou a bola no fundo das redes, decretando a vitória dos visitantes por 1 a 0. Ofendido de início, o goleiro se acalmou depois de conversar com o merengue Amancio. Segundo ele, o húngaro tratava a todos assim, “com as primeiras palavras que aprendeu em espanhol”.

O talento de Iribar se evidenciava e, na temporada seguinte, ele já se tornou titular. Carmelo Cedrún disputou os quatro primeiros jogos do Campeonato Espanhol 1963-64, mas perdeu espaço e acabou vendido ao Espanyol. Estava claro que um fenômeno se firmava em San Mamés. Naqueles tempos, o Athletic contava com muitos jogadores significativos (como José María Orué, Eneko Arieta, José Luis Artetxe e Fidel Uriarte), mas o fato é que o time não se mostrava tão competitivo. O elenco atravessava uma entressafra, após o adeus da geração dourada dos anos 1950. Assim, as campanhas quase sempre ficavam pelo meio da tabela de La Liga. Naquela primeira temporada com o novo goleiro, os leones acabaram em um modesto oitavo lugar.

A explosão na seleção espanhola

José Ángel Iribar se tornou o cara certo no lugar certo. Se o Athletic não empolgava, o goleiro impressionava por suas boas atuações. E em um momento no qual a seleção espanhola renovava o seu elenco, ganhou a primeira chance ainda em outubro de 1963, convocado para um amistoso contra a Bélgica. Diante da lesão de Araquistain, concorreria com Pepín, goleiro do Betis. Naquele compromisso, esquentou o banco, mas a mera presença de quem ainda dava os primeiros passos já era bastante significativa. Um facilitador para isso estava no banco de reservas: o técnico José Villalonga admirava o garoto há tempos. Era ele o comandante do Atlético de Madrid na eliminação para o Basconia, um ano antes.

A estreia de Iribar pela seleção aconteceu em março de 1964. No primeiro dia daquele mês, o Athletic perdeu para o Atlético de Madrid por 2 a 0, mas ainda assim o arqueiro foi o melhor em campo, pegando pênalti e evitando uma diferença mais elástica. Na mesma semana, recebeu sua segunda convocação, novamente ao lado de Pepín. Mas a forma referendava o basco à camisa 1. Seria um compromisso importante: em momento no qual as eliminatórias da Eurocopa eram disputadas em mata-mata, a Espanha enfrentava a Irlanda por uma vaga na fase final do torneio. Os espanhóis não encontraram dificuldades, goleando por 5 a 1 em Sevilha e carimbando a classificação com o triunfo por 2 a 0 em Dublin. Sem muito trabalho, a aposta se firmou como titular da seleção aos 21 anos.

Já o grande desafio aconteceu em junho, na etapa decisiva da Euro 1964, sediada na própria Espanha. Nas semifinais, a Fúria encarou o talentoso time da Hungria, liderado por Florián Albert e Ferenc Bene. Os espanhóis, de qualquer maneira, tinham os seus predicados. E recompensaram o apoio da torcida no Santiago Bernabéu. Jesús María Pereda (o mesmo da tripleta no Barcelona 10×1 Basconia) abriu o placar, mas Bene deixou tudo igual no fim do tempo regulamentar. O duelo seguiu à prorrogação. Então, Amancio Amaro apareceu para decidir, a oito minutos do fim. Iribar poderia ter feito melhor no tento dos magiares, em uma bola difícil que acabou espalmando para o meio da área, mas ninguém o tratou como vilão. Pelo contrário, foram justamente as suas intervenções que deram sobrevida aos ibéricos.

“Iribar foi muito bem, é um grande goleiro. Fez algumas defesas que pareceram milagres. Demonstrou seu talento, para que assim acontecesse”, avaliou o Mundo Deportivo do dia seguinte. Já o jornal ABC ponderou sobre o arqueiro: “O certo é que a Hungria teve ocasiões que poderia ter inclinado a semifinal a seu favor, mas foram salvos por esse goleiro extraordinário que é Iribar. Foram poucas ações, mas magistrais. Todas menos uma: a jogada confusão do gol de empate”.

Na decisão, a Espanha enfrentaria a União Soviética, campeã da primeira edição da Euro, em 1960. O significado daquela partida, todavia, ia muito além dos aspectos meramente esportivos. O regime de Francisco Franco travava constantes embates diplomáticos com os países da Cortina de Ferro. A presença de soviéticos e húngaros no território espanhol era um avanço, considerando os imbróglios ocorridos nos anos anteriores. O episódio mais emblemático, afinal, ocorreu na própria Euro 1960, quando os ibéricos se recusaram a viajar a Moscou, permitindo que os oponentes avançassem à semifinal por WO. Quatro anos depois, o significado político da final era bem claro.

Pessoalmente, a decisão da Eurocopa também tinha seu valor a Iribar. Ele se encontrava com uma de suas inspirações na carreira. Lev Yashin era o vigente detentor da Bola de Ouro. Um goleiro sóbrio e, ao mesmo tempo, inovador – como o colega espanhol, que também desempenhava seu trabalho além das traves. E para um basco ligado às tradições suprimidas em sua comunidade autônoma, exaltar ou punir qualquer vertente política não parecia a prioridade. O camisa 1 estaria em campo para desempenhar o seu trabalho e fazer seu time campeão.

Empurrada por 80 mil nas arquibancadas do Bernabéu, a Espanha abriu o placar logo aos seis minutos. Luis Suárez cruzou, a defesa bobeou e Pereda soltou a bomba. Iribar foi exigido a primeira vez logo na sequência, com boa defesa para evitar o empate. Contudo, não conseguiu salvar o chute de Galimzyan Khusainov aos oito minutos. O soviético apareceu livre na entrada da área e o quique de seu chute enganou o goleiro. O camisa 1 faria boas intervenções na sequência, especialmente em arremate de Viktor Ponedelnik no segundo tempo. De longe, diante da pressão da Fúria, o basco comemoraria o gol decisivo aos 39. Jogadaça de Pereda na direita, enganando o marcador e cruzando para Marcelino Martínez completar de peixinho. Aquele gol definiu a vitória por 2 a 1 e a conquista espanhola. Iribar, em seu quatro jogo pela equipe nacional, já se eternizava.

Carregado nos braços, mesmo sem vencer

Retomando a rotina no Athletic Bilbao, Iribar permaneceu absoluto em San Mamés. O clube continuava sem empolgar – zanzando pelo meio da tabela, sem passar da quinta colocação até o final dos anos 1960. Em compensação, contava com aquele que inegavelmente se mantinha como o melhor goleiro do país. “É Iribar e mais dez”, diziam rotineiramente os torcedores. As dificuldades financeiras no clube eram evidentes, com salários mais modestos do que boa parte dos concorrentes na Espanha. Além disso, a restrição aos jogadores bascos diminuía as opções no mercado. Ainda assim, os leones se valiam dos pagamentos em dia e do orgulho regional para manterem um elenco minimamente competitivo. E as principais ambições desabrochavam na Copa do Generalíssimo, torneio que tinha os alvirrubros como maiores campeões.

Em 1966, Iribar ganhou a chance de disputar a sua primeira final com o Athletic Bilbao. O time fez uma campanha notável nas fases anteriores da copa, eliminando Atlético de Madrid e Betis, entre outros. Já na decisão, uma verdadeira pedreira. O Zaragoza treinado por Ferdinand Daucik era um dos clubes mais incensados da Espanha naquele momento, capaz de se meter entre os primeiros colocados em La Liga e a conquistar a Taça das Cidades com Feiras – competição que, anos depois, se transformaria na Copa da Uefa. Na linha de frente dos aragoneses, brilhava o quinteto conhecido como ‘Los Magníficos’: o herói da Eurocopa, Marcelino Martínez, era acompanhado por Carlos Lapetra, Juan Manuel Villa, Eleuterio Santos e pelo brasileiro Canário.

Até pelo copeirismo evidente daquele Zaragoza, o favoritismo estava do lado blanquillo. E o Athletic Bilbao não conseguiria mudar o destino daquela final. Os aragoneses acabaram erguendo a taça no Santiago Bernabéu, com a vitória por 2 a 0. Mas, pelo massacre que se viu em campo, o placar saía magro. O responsável por isso? José Ángel Iribar. Embora tenha sofrido dois gols no primeiro tempo, o goleiro ia brecando os Magníficos com um punhado de grandes defesas, sobretudo na etapa final. Uma atuação histórica, como ficou evidente na cerimônia de premiação. Enquanto o Zaragoza recebia o troféu, os torcedores do Athletic faziam uma festa particular. Carregavam Iribar em seus braços, homenageando o ídolo e cantando: “Iribar és cojonudo, cómo Iribar no hay ninguno”.

Semanas depois, Iribar disputou a Copa do Mundo de 1966. Era uma das referências da seleção espanhola, sorteada em uma chave bastante difícil. E o time de Paco Gento, Ufarte, Amancio, Marcelino, Luis Suárez, Del Sol e outras estrelas não teve vida longa. Venceu apenas um de seus jogos, contra a Suíça. Já as derrotas para Alemanha Ocidental e Espanha, nas quais o goleiro pouco pôde fazer, determinaram a eliminação precoce da Fúria. Aquela seria a única aparição do arqueiro em um Mundial.

Um pouco mais feliz seria o final da década de 1960 ao Athletic Bilbao. Voltou a disputar a final da Copa do Generalíssimo em 1967, desta vez derrotado pelo Valencia. Já em 1969, os leones encerraram um jejum de 11 anos sem títulos. Na decisão, enfrentaram o Elche, que tinha Araquistáin no gol e era treinado pelo uruguaio Roque Máspoli. Aos 37 do segundo tempo, Antón Arieta anotou o gol que determinou a vitória por 1 a 0 e a conquista dos bascos. Com poucas e decisivas defesas, Iribar se consagrou.

Na mesma época, Iribar também sustentou seu respeito além das fronteiras. Ao final daquela década, o Athletic passou a disputar sistematicamente a Taça das Cidades com Feiras, que não dependia do desempenho nas ligas nacionais para determinar seus participantes. As campanhas não eram tão impressionantes assim, com três eliminações nas quartas de final, duas delas para o Ferencváros. A trajetória mais notável aconteceu justamente em 1968-69, quando os bascos eliminaram Liverpool, Panathinaikos e Eintracht Frankfurt, até a queda para o Rangers. Por sua boa atuação em Anfield, El Chopo ganhou o apelido de “Anjo Voador” da imprensa inglesa. Já em 1969-70, em sua aparição na Recopa Europeia, o Athletic se despediu logo na primeira fase. Foi eliminado pelo histórico Manchester City de Joe Mercer, que terminaria com a taça.

Quando o anjo viu “as barbas de São Pedro”

A seleção espanhola atravessou anos de entressafra após a Copa de 1966. O time perdeu muitas de suas referências e se ausentou das competições internacionais seguidamente. Caiu para a Inglaterra na última fase qualificatória da Euro 1968, para a Bélgica em seu grupo das Eliminatórias para a Copa de 1970 e para a União Soviética a caminho da Euro 1972. Neste momento, Iribar se revezava com Salvador Sadurní e Miguel Reina no posto de titular. Ao menos via as perspectivas melhorarem no Athletic Bilbao.

Em 1969-70, como não acontecia desde os anos 1950, os leones voltaram a disputar o título. Treinado pelo inglês Ronnie Allen, o time via a afirmação de vários talentos preparados nas temporadas anteriores – entre eles, Uriarte, Txetxu Rojo e Javier Clemente. Frequentando as primeira posições desde as primeiras rodadas, o Athletic deixou claro o duelo com o Atlético de Madrid a partir da virada do turno. Na antepenúltima partida, os bascos até pareciam com a taça nas mãos, ao derrotarem os colchoneros em San Mamés e tomarem a primeira colocação. Na semana seguinte, porém, perderam na visita ao Valencia e o triunfo sobre o Celta no último compromisso foi insuficiente, com o vice-campeonato. Como consolo a Iribar, ele conquistou o Troféu Zamora, como goleiro menos vazado da Liga. Buscou a bola apenas 20 vezes nas 30 rodadas.

Na sequência da década, o Athletic voltou a fazer campanhas mais modestas, ainda na metade superior da tabela. Já em 1973, o goleiro viveu um ano decisivo, de diferentes maneiras. A começar pelo drama enfrentado a partir de janeiro. Iribar foi infectado por uma bactéria e começou a padecer de febre tifóide. Passou três semanas no hospital, queimando em febres incontroláveis. Segundo suas próprias palavras, “chegou a ver as barbas de São Pedro”, de tão mal que estava. Eram frequentes as visitas de amigos famosos do futebol, enquanto recebia centenas de cartas dos fãs. Muito católico, o povo basco dedicou missas e terços ao ídolo. Como em um milagre, ele conseguiu se curar de maneira repentina.

Em 17 de fevereiro, Iribar ganhou alta. A partir de então, trabalhou duramente para recuperar a forma. O goleiro havia passado por seguidas transfusões de sangue e perdeu 18 quilos durante a doença. Em 22 de abril, já estava novamente em campo, enfrentando o Betis na reta final do Campeonato Espanhol. E numa época na qual a Copa do Rei se acumulava nos últimos meses da temporada, participou de toda a campanha vitoriosa, que culminou em seu segundo título pelos leones. O Athletic enfrentou na decisão o surpreendente Castellón, que acabara de fazer ótima campanha em seu retorno à primeira divisão e contava com um tal de Vicente del Bosque no meio-campo. Não impediram a festa dos bascos, que ganharam por 2 a 0 no Estádio Vicente Calderón.

Já nos meses seguintes, Iribar viveu aquela que classifica a maior decepção de sua carreira. A Espanha disputou ponto a ponto a vaga na Copa de 1974, concorrendo com a Iugoslávia em sua chave nas Eliminatórias. Por terem terminado o grupo com o mesmo número de pontos e o mesmo saldo de gols, as duas seleções foram obrigadas a disputar um jogo-desempate em fevereiro de 1974, realizado no Waldstadion, em Frankfurt. O gol da vitória iugoslava por 1 a 0 aconteceu aos 10 minutos. E com falha de Iribar. Primeiro, o goleiro não saiu para socar uma bola levantada na linha da pequena área, rumo ao segundo poste. Josip Katalinski cabeceou a primeira vez e o goleiro ainda conseguiu defender. Mas em vez de rebater para longe ou agarrar, soltou o rebote, que o adversário não perdoou. Depois disso, os espanhóis não conseguiram reagir, se ausentando do Mundial.

A bandeira do orgulho

Apesar das severas críticas, Iribar continuou como titular da seleção espanhola. Seguiu em frente no ciclo seguinte, que contava com as eliminatórias da Euro 1976. Neste intervalo, superou um recorde histórico da Fúria. Desde a década de 1930, Ricardo Zamora se mantinha como o jogador que mais vezes havia defendido a equipe nacional, com 46 partidas. Pois o basco conseguiu igualar o ídolo de seu pai em novembro de 1974, em duelo contra a Escócia. Já no ano seguinte, se tornaria o novo detentor do recorde.

Depois, criou-se a expectativa de que Iribar poderia alcançar a simbólica marca de 50 aparições pela Espanha. O que nunca aconteceu. Em abril de 1974, ele enfrentou a Alemanha Ocidental, em confronto direto por um lugar na Eurocopa. As duas seleções empataram por 1 a 1 em Madri e decidiriam a classificação um mês depois, em Munique. Entretanto, na preparação, os companheiros receberam a notícia de que o arqueiro não jogaria. Segundo os dirigentes, ele teria precisado retornar a Bilbao, para resolver problemas familiares. Desde então, há muitas interrogações sobre o caso.

A revista Don Balón afirmou que, ameaçado pelo ETA, Iribar pediu ao técnico László Kubala para não convocá-lo. Há quem diga que ele se recusou a atingir a marca, para não ser usado como símbolo da Espanha franquista. E outros também acusam uma possível ordem de cima, para barrar o basco. Segundo as próprias palavras do veterano ao jornal El País, anos depois, ele estava inteiro e sem impedimentos familiares. Teria jogado a partida 50 sem problemas. No fim das contas, nunca a cumpriria. Já a Espanha, com o ídolo merengue Miguel Ángel na meta, perdeu para os alemães por 2 a 0 e foi eliminada.

Dentro do contexto vivido na Espanha, as acusações relativas ao momento político têm certo nexo. Ocorria uma forte pressão popular pela redemocratização do país, após a morte do ditador Francisco Franco em novembro de 1975. Os movimentos em defesa das identidades locais ganhavam força. E o próprio Iribar tinha as suas ligações com a causa basca. Em tempos nos quais sequer se permitia a comunicação nas línguas regionais, em claro gesto de supressão cultural, o arqueiro conversava em euskera com alguns companheiros nos vestiários. O próprio Athletic Bilbao não podia usar o seu nome original, de origens inglesas, chamado nesta época de “Atlético”. No mesmo período, agarrou-se ainda mais às premissas de aceitar apenas jogadores com origens bascas no elenco. Era uma maneira de preservar as raízes. “Desde que cheguei ao Athletic, percebi o que o clube representava a Bilbao e a Bizkaia. Todos estavam preocupados com o momento, com as consequências da guerra. Não sei, havia um espírito de ser exemplares no jogo e fora dele. Logo, quando é você que entra em campo, tenta transmitir isso”, comenta o veterano.

O maior símbolo do orgulho basco era a chamada ikurriña – a bandeira histórica da região. A mera exibição do emblema vinha sendo motivo de mortes naqueles meses, na luta entre os que buscavam a afirmação regional e os que tentavam se segurar no poder. Os episódios sangrentos entre o ETA e a polícia franquista eram frequentes e, diante do uso da ikurriña em diversos atos violentos, o cerco do poder central a ela era enorme. No entanto, se necessitava demonstrar que a bandeira tinha um significado muito maior aos bascos, longe de se limitar aos ataques. Assim, a imagem de Iribar em 5 de dezembro de 1975, ao lado de outros jogadores, se torna fundamental.

Naquele dia, Real Sociedad e Athletic Bilbao fariam o clássico do País Basco no Estádio de Atotxa, antiga casa dos txuri-urdin. E quão grande foi a surpresa de todos, ao verem Iribar, capitão dos bilbaínos, entrar em campo segurando a proibida ikurriña ao lado de Inaxo Kortabarria, dono da braçadeira donostiarra. Para chegar ao gramado, a bandeira precisou ser costurada clandestinamente pela irmã de José Antonio de la Hoz, jogador da Real. A caminho do estádio, ele passou por uma revista da polícia, que não encontrou o pano escondido na bolsa de materiais esportivos, e colocou o símbolo no estádio através de uma janela do vestiário. Então, ela ficou em um recipiente de água benta, até que a levassem ao banco de reservas. Só então entregou aos capitães, conforme o combinado.

Nas arquibancadas de Atotxa, os torcedores bascos vibravam enlouquecidamente. Sabiam a grandeza que representava aquele gesto. A polícia confiscou a bandeira, mas os jogadores não sofreram maiores consequências por sua ousadia. Dez dias depois, a Espanha aprovava seu referendo de reforma política com massivos 94% de aprovação e retomava a democracia. Já em 1978, a ikurriña se tornou oficialmente a bandeira da comunidade autônoma formada pelos bascos. “Foi um passo importante que ajudou à legalização final da ikurriña. Primeiro foi permitida e logo depois legalizada. Houve dúvidas, sem que se soubesse como iriam reagir e o que se iria passar, mas sempre nos pareceu impossível que algo pudesse ser feito a duas equipes de renome. Foi como um impulso final”, comentou Iribar, anos depois. O goleiro ainda foi capitão da seleção basca em seu ressurgimento, em 1979. De 1988 a 2010, exerceu o papel de técnico da Euskal Selekzioa.

A final europeia de Iribar com os leones

Esportivamente, a temporada de 1976-77 deixaria uma marca indelével ao Athletic Bilbao. O clube terminou em terceiro no Campeonato Espanhol, mesmo tendo sofrido uma acachapante goleada por 5 a 0 naquele dérbi histórico de Atotxa. Todavia, existiam outros motivos para celebrar. Classificado à Copa da Uefa pela quinta colocação na temporada anterior, os leones experimentaram um sucesso inédito nas competições continentais.

A campanha do Athletic impressionou desde as primeiras fases. Os bilbaínos eliminaram Újpest e Basel, até encarar o Milan nas oitavas de final. A vitória por 4 a 1 em San Mamés abriu caminho, apesar da derrota por 3 a 1 na visita ao time de Gianni Rivera. Depois, os bascos encararam um clássico local contra o Barcelona. Em tempos nos quais Johan Neeskens e Johan Cruyff ainda brilhavam no time treinado por Rinus Michels, os alvirrubros resolveram com os 2 a 1 em San Mamés, segurando o empate por 2 a 2 na visita ao Camp Nou. Por fim, com dois empates, desbancaram na semifinal o RWD Molenbeek – que, entre seus destaques, contava com Morten Olsen e Johan Boskamp.

Treinado por Koldo Aguirre, antigo meio-campista do clube, aquele Athletic possuía muitos predicados. A defesa liderada por José María Lasa via a ascensão de jovens valores, como Francisco Escalza e Agustín Gisasola. E, da base, eclodiam Andoni Goikoetxea e José Ramón Alexanko, se firmando na reta final da temporada. O meio-campo tinha a cátedra de Javier Irureta, contratado após gloriosa trajetória pelo Atlético de Madrid, e o refinamento de Ángel María Villar – sim, o mesmo que depois se tornaria presidente da federação, preso por corrupção. Já no ataque, duas lendas. Pela ponta direita, caía Dani Suárez. Incisivo, possuía um faro goleador incrível. Não à toa, encerrou a carreira como segundo maior artilheiro da história do Athletic, atrás apenas de Telmo Zarra. Já do lado esquerdo, aparecia Txetxu Rojo. Homem de um clube só, vestiu a camisa alvirrubra menos apenas que Iribar, com 541 aparições no currículo. Dono de uma canhota talentosa, combinava a isso muita energia em suas investidas.

O problema é que o adversário da final não era qualquer time. A Juventus atravessava um momento excelente, dominando a Serie A. Vice-campeã da Copa dos Campeões quatro anos antes, a Velha Senhora buscava seu primeiro título continental. E o recém-contratado técnico Giovanni Trapattoni iniciava sua era em Turim com grandes talentos. Na defesa, Gaetano Scirea e Claudio Gentile ganhavam tarimba ao lado de Antonello Cuccureddu e Francesco Morini. O meio tinha Marco Tardelli, Romeo Benetti e o capitão Giuseppe Furino. Já na frente, muito respeito a Franco Causio, Roberto Boninsegna e Roberto Bettega.

E havia ainda um duelo particular no gol. Se Iribar era o dono da braçadeira e grande referência do Athletic Bilbao, encontrava o seu espelho na Juventus. Um ano mais velho, Dino Zoff era muito parecido com o basco – inclusive na própria feição. Como seu colega de ofício, combinava sobriedade, agilidade e experiência. Duas lendas que se tratavam com mútua reverência, diante da oportunidade que surgia de subirem de patamar.

O primeiro jogo da final aconteceu em Turim, no Estádio Comunale. Diante de 54 mil espectadores, a Juventus construiu sua vantagem. Anotou o gol da vitória por 1 a 0 logo aos 15 minutos, em peixinho de Tardelli que encobriu Iribar. O goleiro ainda evitou uma diferença maior, em milagre ao espalmar uma cabeçada à queima-roupa de Scirea, nos minutos finais. Já no reencontro em San Mamés, a situação ficou um pouco mais difícil ao Athletic quando Bettega apareceu entre os zagueiros e abriu o placar aos sete minutos, com mais um tento de cabeça. A reação dos bascos ao menos não tardou, com Irureta empatando quatro minutos depois. Por conta do placar agregado, os anfitriões precisavam de mais dois gols para ficar com a taça. Insistiram. Mas conseguiram apenas mais um, aos 33 do segundo tempo, com Carlos Ruiz. A vitória por 2 a 1 era insuficiente, com a Juve botando a faixa no peito.

Dias depois, o Athletic Bilbao perdeu outra final. Enfrentava o Betis, em busca de mais uma Copa do Rei. No tempo normal, empate por 1 a 1, e mais dois gols saíram durante a prorrogação no Calderón, um para cada lado. A decisão ficaria para a disputa de pênaltis, que se arrastava. Iribar pegou um dos chutes nas alternadas, mas viu Villar desperdiçar logo na sequência. Após 19 arremates e 15 conversões, o camisa 1 precisou comparecer à marca da cal. E justamente em sua cobrança, parou nas mãos do betico José Ramón Esnaola. Mais uma frustração.

O fim da carreira e as homenagens

Não eram os 34 anos de idade ou os vice-campeonatos que minavam o moral de Iribar. Prova disso é que, naquela mesma época, o Athletic recebeu uma proposta bastante vantajosa para vender o seu ídolo. O Real Madrid estava interessado em levá-lo ao Bernabéu e botou o cheque na mesa dos leones. Quando o presidente basco chegou ao veterano para perguntar o que pensava, sua resposta foi categórica: “Nem se mexa. Estou muito bem aqui e gostaria de encerrar a carreira aqui. Achei que você sabia”. Sua paixão era única.

Iribar permaneceu no Athletic por mais três temporadas. Em 1977-78 ajudou os bilbaínos a terminarem na terceira colocação do Campeonato Espanhol, vendo justamente o Real Madrid se sagrar campeão. Já no último ano, por sua escolha, a transição na meta alvirrubra foi gradual. Mesmo ainda sendo a melhor opção, aceitou o banco de reservas para abrir espaço aos mais jovens. A última partida oficial aconteceu em dezembro de 1979, às vésperas de completar 37 anos.

Diante do adeus, Iribar recebeu uma ampla despedida da torcida em San Mamés. Athletic e Real Sociedad disputaram um clássico amistoso em maio de 1980, para honrar a história de 614 jogos na meta bilbaína. Naquele momento, o ex-goleiro enveredava por outros caminhos. Envolveu-se com a política do País Basco, participando de um movimento independentista – o que largaria pouco depois, em assunto que não gosta de tratar. Já a meta dos leones não se viu mais órfã. Após passagens breves de Peio Aguirreoa e Andoni Cedrún (filho de Carmelo) como titulares, a partir de 1981 um novo garoto assumiu a posição: Andoni Zubizarreta. Um dos muitos fãs de Iribar, que acabou por honrar seu legado. Conquistou o bicampeonato espanhol, em 1983 e 1984.

Apesar da aposentadoria, Iribar continuava frequentando Lezama, o CT do Athletic. Inclusive, ajudou a aperfeiçoar as qualidades de Zubizarreta, a quem orientava nos treinos. Assumiu as equipes de base e virou técnico do time principal em 1986-87, já em um momento de declínio do elenco, em que precisou disputar um hexagonal contra o rebaixamento. Não valia a pena colocar em xeque a adoração. Assim, a lenda deu um passo para trás e permaneceu como treinador de goleiros até 1999. Depois disso, transformou-se em presidente de honra da associação de veteranos, um cargo simbólico. Em 2017, participaria das homenagens a Gorka Iraizoz, um de seus mais dignos herdeiros. E diante do impasse sobre a renovação de Kepa Arrizabalaga nos últimos meses, o veterano se prontificou a conversar com o jovem. Dias depois, o talento cortejado pelo Real Madrid acertou sua permanência em Bilbao.

O último jogo de Iribar aconteceu em 2013. Vestiu o uniforme e colocou as luvas para a despedida de San Mamés, antes de sua demolição. Entrou aos 45 do segundo tempo, completamente ovacionado, fechando a festa preparada ao adeus do estádio centenário. O anjo não mais voaria pela catedral. Já o velho arco, a obra suntuosa que marcava a arquitetura do local, foi transferido a Lezama. Tal qual José Ángel Iribar, mantém a sua aura no clube. Representação do que foi, do que é e do que será o Athletic Bilbao.

Abaixo, um vídeo de Iribar e outros goleiros do Athletic lendo um trecho de Eduardo Galeano, o capítulo sobre a posição no livro ‘Futebol ao Sol e à Sombra’

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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