Espanha

O que o dinheiro não compra

Málaga tem 570 mil habitantes, um número que a coloca como sexta maior cidade da Espanha. Está à frente de Palma de Maiorca (8ª), Bilbao (10ª), A Coruña (17ª), Pamplona (30ª), San Sebastián (34ª) e Vila-Real (acima de 100ª). No entanto, seu futebol é desproporcionalmente irrelevante. A única vez que um clube local se classificou no Campeonato Espanhol na mesma posição da cidade no ranking de população foi em 1973/74, quando o Club Deportivo Málaga foi sétimo. Na temporada anterior, os malaguenhos tiveram sua melhor campanha na Copa do Rei: caíram nas semifinais.

Nesses 37 anos, o CD Málaga faliu, o Atlético Malagueño (seu time B) passou a se chamar Málaga Club de Fútbol e se tornou o principal representante do futebol da cidade. Mas nada mudou. De melhor, o time teve uma quarta de final da Copa Uefa e dois oitavos lugares em La Liga. Todo esse histórico de decepções e de resultados muito abaixo do potencial transbordou em 8 de junho. No primeiro dia de venda de venda de carnês para a temporada 2011/12, 13.400 torcedores já garantiram um lugar em todos os jogos. Mais da metade dos 26 mil lugares disponíveis no estádio La Rosaleda (conta que exclui a cota obrigatória dos visitantes).

É esse o tamanho da empolgação da torcida malaguenha com as perspectivas dos boquerones para o futuro imediato. O xeique catariano Abdullah Al Thani decidiu reforçar seu projeto de criar em Málaga uma nova força do futebol espanhol. No meio da temporada passada, contratou o técnico Manuel Pellegrini, o zagueiro Demichelis e o atacante Julio Baptista para salvar o clube do rebaixamento. Objetivo nº 1 conquistado, é momento de ir mais fundo para chegar à parte de cima da tabela.

Até esta segunda, já estavam certas as contratações do atacante Van Nistelrooy (Hamburg), do zagueiro Mathijsen (Hamburg), dos meias Toulalan (Lyon) e Buonanotte (River Plate) e do lateral Monreal (Osasuna). Segundo a – normalmente impulsiva – imprensa espanhola, estariam na lista de compras os meias Camuñas, Pedro León e Joaquín, os zagueiros Tasci e Otamendi, e os atacantes Lucho González e Ricardo Álvarez (Vélez). Se os jogadores do elenco atual permanecerem e algumas dessas negociações se concretizarem, o time poderia ficar assim: Caballero; Gámez, Mathijsen, Demichelis e Monreal; Tasci e Toulalan; Buonanotte, Julio Baptista e Lucho González; Van Nistelrooy. O comando seguiria com Manuel Pellegrini.

Em teoria, é um pacote em condições de brigar por vaga na Liga Europa, eventualmente até pela Liga dos Campeões. Há jogadores experientes, alguns jovens com potencial para crescer, um técnico capaz de transformar o grupo em uma equipe propriamente dita e um financiador disposto a tomar prejuízo em nome do sucesso do clube. Mas como disse o genial Yogi Berra, ex-jogador de beisebol que é uma espécie de Vicente Matheus do esporte americano, “na teoria, não há diferença entre teoria e prática. Mas, na prática, há”.

Sobram interrogações em torno desse início de trabalho do Málaga de Al Thani para 2011/12. As contratações já anunciadas lembram muito outro projeto de clube ascendente europeu com pé no Oriente Médio. Como fez o Manchester City em suas primeiras temporadas sob a direção do xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes. Não se pensa em montar um time a partir do que há de melhor no elenco atual. A ordem é sair comprando.

Isso fica claro nas funções ofensivas. O clube já fechou com Van Nistelrooy e Buonanotte, e ainda corre atrás de dois ou três entre Joaquín, Lucho González, Álvarez, Camuñas, Pedro León. Considerando que Julio Baptista (elogiado publicamente pelo torcedor mais ilustre do Málaga, o ator Antonio Banderas) e Rondón foram os destaques dos boquerones no final da temporada, seria recomendável mantê-los. O clube ficaria com cinco ou seis jogadores, todos com status de titular, para três ou quatro posições. O investimento em alguns desses reforços de frente seria mais adequado para outras posições.

Outro problema é buscar jogadores mais pelo nome do que pelo potencial de crescer junto com o clube, como o Villarreal faz com tanto sucesso. Al Thani provavelmente não cobrará resultados econômicos dessa aventura (se quisesse lucro, iria para o Valencia ou o Atlético de Madrid), mas certamente quer vitórias. E, com nomes de peso internacional como Van Nistelrooy, Mathijsen e, eventualmente, Joaquín, o catariano tem argumentos para pressionar a comissão técnica imediatamente.

Se o xeique tiver disposição para investir por muitos anos, o Málaga dificilmente vai virar uma bolha e explodir durante sua gestão. No entanto, todo o clube, a começar pelo proprietário, precisa saber que é preciso ações planejadas, e não impulsivas, para ter sucesso em campo.

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Equipe Trivela

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