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O maior retranqueiro da história montou o melhor ataque do Barça

Ao chegar em Barcelona, Gerardo Martino resgata uma história rica do clube. O substituto de Tito Vilanova é o quarto argentino a assumir o comando blaugrana. Uma dinastia iniciada pelo mítico Helenio Herrera, considerado um dos maiores técnicos da história e que acumula três passagens pelo Camp Nou – a de maior relevância, entre 1958 e 1960, quando rivalizava com o Real Madrid, pentacampeão da Copa dos Campeões.

Herrera fez sua fama à frente da Internazionale, com a qual foi bicampeão europeu e tricampeão italiano. Em Milão, El Mago criou o Catenaccio e colocou seu nome na galeria dos maiores retranqueiros de todos os tempos. O que poucos sabem é que, no Barça, o argentino foi responsável pelo ataque mais prolífico do clube desde a década de 1920 – com média de gols de 3,20, superior a Pep Guardiola, Rinus Michels, Johan Cruyff, Frank Rijkaard ou qualquer outro que tenha feito sua fama com o futebol ofensivo dos culés.

Nascido em Buenos Aires, Herrera viveu até os nove anos na Argentina. Mudou-se para Marrocos na infância, fez carreira como defensor no futebol francês e se consagrou como técnico do Atlético de Madrid, bicampeão espanhol em 1950 e 1951. Depois de um bom trabalho com o Sevilla, HH foi levado pelo Barcelona em 1958, com uma missão ingrata: encerrar a hegemonia do Real Madrid, tricampeão continental e dono de quatro das últimas cinco Ligas.

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O elenco à disposição, logicamente, ajudou Herrera a fazer um excelente trabalho. O time já contava com Ladislao Kubala, Luisito Suárez e Evaristo de Macedo. Em 1958, contratou Sandor Kocsis e Zoltán Czibor, montando um quinteto ofensivo de peso para competir com os merengues. Além disso, os métodos do argentino também ajudavam bastante, investindo em uma melhor preparação psicológica, em treinos físicos mais efetivos e em um estudo sistemático dos adversários.

Como resultado, o Barcelona desbancou o Real Madrid de maneira arrasadora em 1958/59. Os catalães conquistaram o Campeonato Espanhol com uma rodada de antecedência e estabeleceram aquela que ainda é a maior média de gols do clube na competição, com 3,2 tentos por partida. Além disso, os blaugranas faturaram a Copa do Generalíssimo eliminando os merengues de maneira vexatória nas semifinais – vitórias por 4 a 2 fora e por 3 a 1 em casa.

Em sua segunda temporada, enfim, Herrera teria a grande chance de superar os rivais na Copa dos Campeões. E os ventos sopravam a favor em La Liga. A vitória por 3 a 1 no clássico da 26ª rodada fez com que os blaugranas igualassem a pontuação do Real na liderança. Na época, o critério de desempate era o gol average (divisão entre gols marcados e sofridos) e a melhor defesa dos catalães fez a diferença: os dois times encadearam vitórias e a taça ficou no Camp Nou. A perda do título instaurou a crise na capital, com o técnico Fleitas Solich demitido e Miguel Múñoz, capitão recém-aposentado, assumindo o comando.

Quis o destino, porém, que Barcelona e Real Madrid se reencontrassem na semifinal da Copa dos Campeões. E foi a vez de os merengues se vingarem. Vitória por 3 a 1 no Bernabéu e também no Camp Nou, com Ferenc Puskas marcando três tentos e Alfredo Di Stéfano outros dois. A classificação abriu o caminho para que o Real se tornasse pentacampeão europeu. Já na Catalunha, a culpa recaiu sobre Herrera, que tinha barrado Kubala, o craque do time. Atraindo a fúria da torcida e da diretoria, o argentino acabou mandado embora.

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Talvez o trauma vivido no Barcelona tenha condicionado Herrera a criar o Catenaccio na Inter, dando a volta por cima com o bicampeonato europeu e desbancando justamente o Real Madrid em sua primeira final. Era a verdadeira desforra de Il Mago, que permaneceu por oito anos em Milão e, neste intervalo, também fez parte da comissão técnica das seleções da Espanha e da Itália.

Quando Herrera já tinha estabelecido a fama como retranqueiro e os blaugranas desenvolviam sua vocação ofensiva, após a passagem de Rinus Michels, Herrera voltou a comandar o Barça em mais duas oportunidades. Quebrou um galho ao assumir o time no meio das temporadas 1979/80 e 1980/81, faturando mais uma Copa do Rei.

Sua última passagem, esta sim, deu a deixa para Udo Lattek montasse o time mais defensivo da história culé. O alemão é dono da menor média de gols sofridos no clube, mas também da menor média de gols marcados. Enquanto isso, Helenio Herrera entrava na história pelo paradoxo. Pelo gosto de ter montado o ataque mais positivo do clube na história de La Liga, contrariando seu rótulo mais comum, mas marcado pela frustração na Copa dos Campeões.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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