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O dia em que o Real Madrid ajudou o maior ídolo do Barça a reencontrar sua mãe

Ladislao Kubala defendeu três seleções nacionais diferentes, além de outras duas equipes regionais. Nunca ter ido a uma Copa do Mundo, no entanto, minou um pouco do reconhecimento do craque. Assim como Di Stéfano, ao menos, o veterano soube se eternizar com a camisa de um clube. Grande rival da Flecha Loira na década de 1950, Kubala foi eleito pelos próprios torcedores como o maior ídolo do Barcelona no Século XX. Não conquistou cinco Copa dos Campeões, como o merengue, mas também encheu o museu blaugrana de troféus: quatro Campeonatos Espanhóis, cinco Copas do Generalíssimo, duas Copas de Feiras e uma Copa Latina. Títulos importantes, que recontam uma história vitoriosa.

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Nascido na Hungria, Kubala nunca gostou de se submeter ao poder. Após estourar no Ferencváros, se transferiu ao Slovan Bratislava para fugir do serviço militar. Acabou voltando ao país, mas logo deixou o país, se refugiando na Áustria e na Itália. Em 1949, o atacante passava por testes no Torino, quando escapou por sorte do Desastre de Superga. Antes de seguir à Espanha, compondo um time de outros expatriados húngaros. Na Península Ibérica, tornou-se o desejo de Real Madrid e Barcelona. Acabou vestindo blaugrana, ainda que tenha passado pelos blancos ao final de sua carreira.

Talvez os 29 jogos com a camisa do Real, após dez anos de Barcelona, tenha sido um sinal de gratidão. Afinal, os merengues é que possibilitaram o reencontro de Kubala com sua mãe, após 13 anos sem vê-la. Uma história muito acima da rivalidade, e que merece ser recontada, no dia em que o velho craque completaria 88 anos se ainda estivesse vivo. Abaixo, o texto publicado em março de 2014:

O dia em que Real Madrid e Barcelona foram muito mais do que rivais

A história de Real Madrid e Barcelona é marcada, tanto quanto por grandes jogos, também por momentos de rivalidade exagerada. E não são poucos os exemplos disso. As acusações de intimidação contra o franquismo, a cabeça de porco jogada para Figo no Camp Nou, os bate-bocas públicos nos últimos anos. Em um dérbi carregado de enredos extracampo, envolvendo também política e orgulho nacional, esses extremos são até compreensíveis. Entretanto, não significam que nunca houve histórias de generosidades entre os arqui-inimigos. A mais bonita delas, justamente no período áureo do clássico, entre as décadas de 1950 e 1960.

Ladislao Kubala foi o primeiro grande jogador disputado ferrenhamente por Real e Barça. Com raízes polonesas e eslovacas, o húngaro representou a resistência ao regime comunista de seu país. O atacante que estourou no Ferencváros, clube mais popular da Hungria, preferiu se juntar aos italianos do Pro Patria em 1949 a cumprir o serviço militar obrigatório – que poderia levá-lo ao poderoso Honvéd. Perseguido pela federação húngara e pela Fifa, que resolveu suspendê-lo por um ano, Kubala organizou o Hungaria. Um time de refugiados para lutar por sua causa, que disputou amistosos na Espanha. Lá, o craque atraiu o interesse dos rivais.

Contudo, as negociações com o Real foram por água abaixo. Para assinar, Kubala também queria levar o treinador Fernando Daucik, seu cunhado. E a imposição que os merengues não aceitaram foi acatada pelo Barcelona. Ali, os blaugranas ganharam aquele que eles mesmos apontaram como o melhor jogador de sua história. Após o regime acelerar sua naturalização como espanhol, Kubala se tornou o líder dos catalães em quatro títulos da Liga, quatro Copas, duas Copas de Feiras e uma Copa Latina. E, de certa forma, também acabou sendo útil aos madridistas. Afinal, foi depois que o húngaro passou a enfrentar sérios problemas pulmonares que o Barça cresceu os olhos em Alfredo Di Stefano, então no Millonarios. E, após uma longa queda de braço com o Real, o retorno de Kubala a seu ápice foi um dos motivos que fez com que os blaugranas desistissem da Flecha Loira – um acordo assinado na Fifa determinava que Di Stéfano ficasse as temporadas de 1953/54 e 1955/56 em Madri e as de 1954/55 e 1956/57 em Barcelona.

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Apesar da rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, que contavam com esquadrões e se digladiavam na Liga e na recém-criada Copa dos Campeões, Kubala não deixou de colecionar amigos do outro lado. Em sua partida de despedida do Barcelona, em 1961, fez com que os ídolos merengues Di Stéfano e Ferenc Puskás vestissem o azul e o grená por uma noite – e antes, o próprio Kubala tinha usado o branco, na aposentadoria do meio-campista Luis Molowny. Já o maior gesto de solidariedade foi encabeçada por Raimundo Saporta, braço direito do mítico Santiago Bernabéu na presidência do Real e principal articulador da contratação de Di Stéfano.

Quando Kubala já havia pendurado as chuteiras, mas seguia como técnico do Barcelona, Saporta o ajudou a reencontrar sua família. O craque não via seus parentes desde 1949, quando deixou a Hungria. Desde então, o país comunista havia passado por momentos tensos, em especial na Revolução de 1956, quando foi invadido por forças militares soviéticas e cerca de 200 mil húngaros fugiram de lá. Mas foi somente cinco anos depois, em dezembro de 1961, que o veterano pôde rever sua mãe.

“Vive na Espanha um homem que vocês conhecem bem. Se chama Ladislao Kubala. Vão quase 13 anos que ele deseja abraçar sua mãe idosa, que segue vivendo na Hungria. Vocês sabem, tanto quanto eu, que diversos problemas de ordem política impedem que estes dois possam se ver. Eu quero que em esses instantes vocês me ofereçam a possibilidade de brindar Kubala, que não joga em meu clube, com o abraço de sua mãe”, disse Santiago Bernabéu em um jantar do qual participou em Budapeste, durante visita para tratar de assuntos do Real Madrid.

As relações tensas entre os comunistas húngaros e os franquistas impedia o trânsito entre pessoas dos dois países. No entanto, dias após as palavras de Bernabéu, Saporta conseguiu um visto especial mediou a ida da mãe de Kubala à Espanha. Naquele ano, a mãe da lenda do Barcelona passou o Natal com seu filho e seus netos, graças aos dirigentes madridistas. Algo maior do que qualquer resquício de rivalidade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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