Espanha

Meiúca

Três pode ser mais que quatro. Não, isso não é propaganda de um serviço bancário que multiplica tempo, dinheiro ou prazo do cliente (e multiplica ainda mais o lucro do banco, claro). Também não é uma aula de matemática avançada, em que números irreais, imaginários, complexos ou hipercomplexos bagunçam a cabeça de quem está acostumado à simplicidade dos números naturais, das frações e das casas decimais. A conta torta é proposta pelo Barcelona de Pep Guardiola, e faz todo o sentido quando se vê o time jogar.

A equipe catalã venceu o Manchester United com facilidade acima do esperado porque, antes de tudo, dominou o meio-campo. Em teoria, eram apenas três meio-campistas blaugranas – Busquets, Xavi e Iniesta – contra quatro vermelhos – Valencia, Carrick, Giggs e Park. Ainda assim, o Barça tinha superioridade numérica. Park ficou tão ocupado com Daniel Alves que não ficou em cima de nenhum meia barcelonista. Giggs e Valencia não são os melhores marcadores do planeta e não davam conta de parar a troca de passes. O equatoriano, aliás, acabou exagerando nas faltas (cometeu sete, duas a mais que todo o time do Barcelona).

Desse jeito, o meio-campo mancuniano tinha apenas Carrick para fazer combate. Não é de se estranhar que Iniesta e Xavi tenham jogado com liberdade, tocando a bola quantas vezes quisessem. Apenas o trio de meio-campo do Barça deu 296 passes certos, com aproveitamento entre 89 e 92%. O time inteiro do United deu 301, com 72% de acerto. Iniesta acionou Messi 39 vezes, uma a mais que Xavi. As duplas que mais trocaram passes entre si no Manchester United servem de monumento à falta de atividade dos meias: Ferdinand-Van der Sar (17 vezes), Vidic-Ferdinand (16) e Vidic-Van der Sar (15).

Um dos aspectos mais fascinantes do sistema de jogo do Barcelona é o modo como a compactação e a fluidez dos movimentos faz o time sempre estar em superioridade numérica. Onde quer que a bola esteja, haverá mais jogadores de azul e grená do que do adversário. É uma matemática difícil de combater.

José Mourinho teve sucesso uma vez, com a Internazionale na última Liga dos Campeões. Mas, aí, se aproveitou de uma jornada infeliz da defesa catalã para vencer em Milão por 3 a 1 e, depois, montar uma defesa com duas linhas de quatro extremamente recuadas para bloquear o gol e perder apenas por 1 a 0 no Camp Nou. Nesta temporada, teve sucesso parcial: ao escalar o Real Madrid com três volantes, não impediu o domínio na posse de bola, mas tirou boa parte do poder de criação. No entanto, seu próprio time ficou acéfalo, e pagou por isso.

Técnicos dos principais clubes da Europa terão isso em mente nesse período de férias. Fazer a matemática maluca do Barcelona voltar à realidade e fazer que um meio-campo de 4 jogadores seja mais numeroso que um de 3.

Cair e levantar

Esta coluna não foi publicada na semana passada por problemas de agenda. Mas não é por isso que vai deixar de falar do grande assunto da última rodada do Campeonato Espanhol. Não foi o recorde de gols de Cristiano Ronaldo, até porque ele soa meio forçado, com uma equipe voltada inteiramente a dar um recorde a seu principal jogador (sem tirar o mérito do português). A notícia foi o rebaixamento do Deportivo de La Coruña.

A queda do clube galego não chega a ser surpreendente. A equipe vem com problemas financeiros há anos e cai na tabela a cada campeonato. Mas a reação à queda tem sido positiva em A Coruña. A torcida preferiu demonstrar apoio ao elenco e à tentativa de reconstrução da equipe. Além disso, o presidente Augusto César Lendoiro já anunciou que pretende renovar com alguns jogadores, como o zagueiro Diego Colotto. O contrato do argentino se encerra ao final da próxima temporada. Renovar com um dos nomes mais benquistos pela torcida indica que o clube imagina estar de volta à elite em 2012/13.

Outro sinal de mobilização foi o rápido anúncio do novo técnico. José Luis Oltra é o substituto de Miguel Ángel Lotina. O currículo do novo comandante é irregular. Teve um grande momento ao levar o Tenerife de volta à primeira divisão em 2008/09, mas seus demais trabalhos tiveram resultados medianos. De qualquer maneira, o clube já inicia a preparação para a próxima temporada, sem perder tempo com lamentações.

O retorno imediato à elite é fundamental para o futuro deportivista. O clube estava em péssima situação financeira há dois anos. A diretoria cortou gastos e investimentos em todas as áreas e, só no último ano, as dívidas caíram em € 20 milhões (mas ainda é alta: € 87 milhões). Cair para a Segundona permite ao Deportivo gastar menos com jogadores, mas não é o suficiente para compensar a queda no faturamento com TV, patrocínio e, eventualmente, bilheteria.

Se os galegos conseguirem estancar a sangria financeira e a torcida seguir unida, há uma possibilidade de o clube estar de volta à primeira divisão em pouco tempo. Mas, pelo tamanho do conserto necessário, não seria de estranhar se ficasse algumas temporadas vagando na Segundona, mais ou menos como o Celta, seu grande rival, está até hoje.

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Equipe Trivela

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