La Liga

Quique Setién, a mente privilegiada que se transformou em tormento aos grandes da Espanha

Se você for torcedor do Real Madrid, pode culpar a trave, a falta de organização do time, a noite ansiosa de Cristiano Ronaldo. Se for torcedor do Betis, pode agradecer a atuação magnífica de Antonio Adán, a estrela de Antonio Sanabria, a entrega de seus jogadores além dos 90 minutos. Mas ninguém pode negar que o resultado ocorrido nesta quarta, no Estádio Santiago Bernabéu, esteve sob a responsabilidade de um homem: Quique Setién. O treinador deu uma aula tática aos pequenos que pretendem encarar os bicampeões europeus como iguais. Por mais que tenha sido bombardeado, seu time não precisou se acovardar para peitar os merengues. E, felizmente, acabaram premiados pela partidaça que fizeram com um gol no último minuto, superando os próprios madridistas na tabela do Espanhol.

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Ao longo dos últimos anos, Setién se colocou entre os melhores treinadores de La Liga. Ex-meio-campista de relativo sucesso, com passagens por Racing de Santander, Logroñés e Atlético de Madrid, chegou até mesmo a disputar três partidas pela seleção espanhola nos anos 1980. Pendurou as chuteiras em meados da década seguinte e iniciou sua carreira à beira do gramado nas divisões inferiores, a partir de 2001. O trabalho de afirmação como técnico aconteceu no Lugo, de 2009 a 2015. Neste seis anos à frente dos albivermellos, levou o clube da terceira à segunda divisão, onde permaneceu sempre em posições intermediárias. O suficiente para o Las Palmas apostar em sua contratação a partir de outubro de 2015.

Em sua primeira oportunidade na primeira divisão, Quique Setién deixou sua marca. Apesar de uma efêmera liderança em 2016, o Las Palmas não se alçou às cabeças de La Liga, mas a mera permanência na elite com segurança já significava bastante aos canários. Além disso, a equipe passou a apresentar um jogo bastante fluido, capaz de incomodar os grandes em diversos momentos. A maneira como desafiou Barcelona e Real Madrid, aliás, valorizava ainda mais o que o treinador fazia com os Amarillos. Tinha até esboçado uma goleada na última visita ao Bernabéu, com uma série de chances desperdiçadas, em noite que terminou com os merengues arrancando o cardíaco empate no fim. Já estava claro que, pelo sucesso, sua passagem pelo clube não seria tão longa, e as propostas surgiram ainda durante a temporada. Setién teve seu nome gritado pelas arquibancadas diversas vezes. Contudo, manteve o seu compromisso e permaneceu até o último mês de maio nas Ilhas Canárias.

Alternativa quente no mercado, Setién ganhou uma oportunidade no Betis. Podia não ser o salto representativo que muitos imaginavam, mas chegou a um clube bem estruturado, com ambições de se recolocar na parte de cima da tabela. Uma mensagem clara sobre isso veio na própria janela de transferências, quando os verdiblancos fizeram uma série de boas contratações – a exemplo de Andrés Guardado, Ryad Boudebouz, Javi García, Víctor Camarasa, Cristian Tello, Jordi Amat, Sergio Barragán e Joel Campbell. Com as novas peças, Setién dá sua cara ao time. E precisou de pouco tempo para colher os resultados, apostando em suas ideias de um jogo de posse de bola, mas com ações rápidas.

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Um aviso surgiu logo na primeira rodada, visitando o Barcelona no Camp Nou. Os blaugranas ganharam por 2 a 0, mas tiveram que suar um bocado para alcançar o resultado. Na sequência, o Betis bateu Celta e Deportivo no Benito Villamarín, além de perder para o Villarreal na visita ao antigo El Madrigal – justamente quando uma saída de bola errada de Adán, tentando tocar a bola, possibilitou o revés. Nada que abalasse a ideologia do técnico, apesar das críticas da imprensa local. Por fim, nesta quarta, veio o encontro no Bernabéu. E a maneira como os beticos se portaram é digna de aplausos. Sem a bola, não entrincheiraram sua marcação, pressionando a saída merengue durante a maior parte do tempo e forçando os erros do talentoso setor central de Zinedine Zidane. E, com a bola, combinaram bem a qualidade nos passes e o ritmo veloz, aproveitando os espaços deixados pela defesa. O cruzamento preciso de Barragán para Sanabria emendar às redes nos últimos suspiros foi a cereja do bolo.

“Nestes dias, quando as pessoas dizem que você precisa correr, trabalhar, lutar ou competir, eu peço aos meus jogadores para pensar. Não se afobem, sigam calmos, especialmente com a bola. Tenham fé no que fazem. Vamos escolher as melhores ações”, declarou Setién, após a partida. “Ganhar três pontos aqui te dá prestígio, o gosto é diferente. Você precisa saber sofrer no Bernabéu e seu goleiro precisa ir bem, vencer aqui sem sofrimento é utopia. Mas você também sabe que eles têm um time com fraquezas que podem ser exploradas. Quanto mais tempo eles tiverem a bola, mais chances criarão. Se você tomar a posse, fará eles correrem e poderá causar danos. Nós estudamos como o Real Madrid pressiona a bola, com quantos jogadores, trabalhei duro nisso. Nós estávamos aptos a recuperar a bola”.

“Essa vitória dá um respaldo enorme ao nosso trabalho. Vai permitir aos jogadores adquirir muita confiança no que fazemos. Vimos como, na base do toque de bola, pudemos criar problemas a esta equipe. Este é o caminho que escolhemos e que espero que, pouco a pouco, traga bons resultados. Essa vitória nos dá um impulso de encarar um futuro enorme, de somar três pontos e de dar uma alegria à nossa torcida. Não deixam de ser três pontos, teremos que seguir trabalhando, mas ficará de recordação”, complementou.

Às vésperas de completar 59 anos, Setién não é um técnico promissor, apesar da ascensão tardia à primeira divisão. De qualquer maneira, não deixa de ser uma mente arejada, convicta em suas ideias e disposta a estudar os adversários. Que contribui ao futebol bem jogado. O treinador já declarou algumas vezes seu apreço pelo xadrez, dizendo que o jogo de tabuleiros o ajuda a entender melhor o que acontece nos gramados. Nesta quarta, conseguiu dar o xeque-mate no Real Madrid.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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