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Os 60 anos de Antonio Maceda, a lenda do Sporting de Gijón que virou herói da Espanha

Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Orgulho nas Astúrias, campeão em Madri, herói na Espanha, o ex-zagueiro Antonio Maceda completa 60 anos nesta terça-feira. Defensor firme, bom na saída de bola e excelente no jogo aéreo tanto na defesa quanto no ataque, além de autor de inúmeros gols importantes, marcou época em um dos melhores períodos da história do Sporting de Gijón, levantou títulos nacionais e continentais no Real Madrid e levou a seleção espanhola a resultados improváveis, num tempo em que a Roja não era tão badalada. Ainda que a carreira tenha sido encerrada precocemente por lesões, foi reconhecido em seu auge como um dos líberos mais conceituados do futebol europeu.

De Sagunto a Gijón

Em meados dos anos 70, o Sporting já era um clube conhecido no futebol espanhol por apostar em promessas reveladas por suas próprias categorias de base (como Enrique Castro, o “Quini”, atacante da seleção espanhola) ou então jovens trazidos de clubes pequenos de outras partes do país para serem lapidados em Gijón. Foi com esse objetivo que, no começo de 1975, um olheiro do clube asturiano se deslocou até Puerto de Sagunto, na província de Valencia, para observar um garoto loirinho de 1,89 metro que vinha jogando na zaga do pequeno clube local Deportivo Acero, da terceira divisão. Impressionado, o olheiro convenceu o clube a pagar 1,5 milhão de pesetas no jovem Antonio Maceda, nascido em 16 de maio de 1957 ali mesmo em Sagunto.

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Após um período de estágio no Club Deportivo Gijón (filial rojiblanca, atual Sporting B), o jovem zagueiro estreou oficialmente na equipe principal na temporada 1976-77, na partida em que o Sporting de Gijón bateu o Barcelona Atlètic (filial azulgrana) por 2 a 0 na Catalunha. Rebaixado na campanha anterior, o Sporting de Gijón não teve maiores problemas para retornar à elite, sagrando-se campeão da segunda divisão.

Jogando desde o início em 27 das 34 partidas do clube na liga, Maceda conquistou a titularidade na temporada 1977-78, quando o Sporting obteve um bom quinto lugar, atrás apenas de Real Madrid, Barcelona, Athletic Bilbao e Valencia. Na seguinte, no entanto, quando o time asturiano alcançou um histórico vice-campeonato da liga (só atrás do Real Madrid), sua melhor colocação em todos os tempos, o zagueiro perdeu a maior parte da campanha por uma lesão sofrida no final de novembro de 1978.

gijón 1981-82

Os problemas físicos e a concorrência pelas posições no setor defensivo também o deixaram à margem também em 1979-80, quando o Sporting voltou a fazer grande campanha, ficando em terceiro lugar, atrás de Real Madrid e Real Sociedad. Mas em 1980-81, já era de novo titular indiscutível na equipe, começando a formar a dupla de miolo de zaga com Manuel Jiménez que perduraria por toda a primeira metade dos anos 80. Se naquela temporada e na seguinte o Sporting não faria campanhas tão brilhantes na liga, pelo menos chegou por duas vezes consecutivas à final da Copa do Rei.

Na primeira despachou, entre outros, o Levante, o Real Madrid e o Sevilla, antes de perder a decisão para o Barcelona no Vicente Calderón por 3 a 1. Maceda marcou o gol do Gijón, que decretou o empate momentâneo em um gol, aos cinco minutos do segundo tempo. Mas do lado catalão, quem desequilibrou foi Quini, antigo ídolo dos rojiblancos, autor de dois gols. E na segunda, em 1982, o time goleou o Valencia por 6 a 1 e tirou Deportivo La Coruña e Rayo Vallecano (ambos na segunda divisão na época), mas perdeu de novo o caneco, batido desta vez pelo Real Madrid por 2 a 1, no Estádio José Zorrilla, em Valladolid.

Chegando à seleção

O bom momento individual de Maceda também motivou sua primeira convocação para a seleção, dirigida então pelo uruguaio José Santamaría, durante a fase de preparação para a Copa do Mundo de 1982, na própria Espanha. E o zagueiro ajudou a Roja a fazer história em sua estreia, participando como titular da vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra em Wembley, no primeiro (e ainda hoje único) triunfo dos espanhóis no estádio lendário, em 25 de março de 1981.

maceda 1981

Mesmo assim, Maceda foi um dos três jogadores rojiblancos convocados por Santamaria para a Espanha que disputaria o Mundial em casa. Junto com ele, também foram chamados seu parceiro de zaga Jiménez e o meia-armador Joaquín (o único que chegou a ter oportunidade como titular). Maceda só entraria em campo no último jogo, um empate sem gols com a Inglaterra no Santiago Bernabéu, substituindo Tendillo na metade do segundo tempo.

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Talvez exatamente por ter participado pouco, Maceda passou ileso pela desastrosa campanha dos espanhóis na Copa de 1982. Com o novo técnico Miguel Muñoz, que substituiu Santamaria, o zagueiro conquistou a titularidade absoluta, exibindo com a camisa da seleção suas qualidades já destacadas no clube: a liderança, a boa cobertura defensiva, a capacidade de distribuir o jogo a partir da defesa, as eficientes projeções ao ataque e especialmente o domínio no jogo aéreo, tanto ofensivo quanto defensivo.

Na Eliminatórias para a Eurocopa de 1984, os espanhóis tinham como grande adversária a Holanda, com a Irlanda correndo por fora podendo atrapalhar as favoritas, enquanto Islândia e Malta fariam figuração. Maceda foi titular em todos os jogos exceto o da estreia, contra os nórdicos em Málaga, e marcou quatro gols: um contra a Irlanda em Dublin, num eletrizante empate em 3 a 3, o da vitória por 1 a 0 sobre os islandeses em Reykjavik e dois (o sexto e o sétimo) na incrível goleada de 12 a 1 sobre Malta que carimbou o passaporte da Roja, superando os holandeses no saldo de gols.

A memorável Eurocopa de 1984

Na fase final do torneio, disputada na França, Maceda viveria momentos heroicos. A Espanha era cotada à segunda vaga no Grupo 2, atrás da favorita Alemanha Ocidental e com ligeiro favoritismo em relação a Portugal e Romênia. Mas o grupo se mostraria bem mais equilibrado: Na abertura, alemães e portugueses empataram sem gols, enquanto a Roja também ficou na igualdade com a Romênia, mas em 1 a 1. Na segunda rodada, enquanto os germânicos derrotavam os romenos por 2 a 1, a Espanha parava em outro empate, agora contra Portugal, também por 1 a 1.

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Com a situação do grupo em aberto, quem tinha em tese a tarefa mais complicada era a Espanha, que precisava vencer os alemães no Parque dos Príncipes e ficar de olho no confronto entre romenos e portugueses. E nessas condições, Maceda se agigantou. Agora definitivamente convertido em líbero numa Espanha que metamorfoseava seu 4-4-2 em um 3-5-2, foi fundamental para conter as ofensivas de Rummenigge, Völler, Matthäus, Allofs e Littbarski durante boa parte do jogo.

Mas houve drama: primeiro Francisco “Lobo” Carrasco desperdiçou uma chance de ouro de colocar a Roja em vantagem no último minuto do primeiro tempo ao ver Schumacher defender sua cobrança de um pênalti sofrido por Salva. Enquanto isso, no outro jogo, a nove minutos do fim, Nenê marcaria para Portugal contra a Romênia – resultado que, combinado com o empate em Paris, eliminaria os espanhóis. Quando o ponteiro chegou a sua volta derradeira, lá se foi Maceda para o ataque, num último recurso.

Quando, por volta dos 44 minutos e 20 segundos, o meia-direita Señor alçou mais uma vez a bola à área, o gigante de Sagunto se intrometeu decidido em meio à zaga alemã e testou vencendo Schumacher para marcar o gol de mais uma quase improvável classificação espanhola.

Nas semifinais, a Espanha enfrentaria a Dinamarca, sensação do torneio, que abriria o placar logo aos sete minutos, quando Sören Lerby aproveitou o rebote de uma cabeçada de Elkjaer que acertou o travessão. Mas Maceda novamente seria o herói da tarde para a Roja, na metade do segundo tempo: Gordillo fez jogada de linha de fundo na ponta esquerda e passou a Carrasco, que foi travado pelo zagueiro Busk. A bola então sobrou nos pés do líbero espanhol, que concluiu da entrada da área, empatando o jogo. Nos pênaltis, deu Espanha por 5 a 4.

Lamentavelmente, porém, o cartão amarelo recebido por Maceda durante aquela partida (seu único na fase final) o deixou de fora da decisão, por ter sido somado à advertência recebida ainda nas Eliminatórias, no jogo da classificação contra Malta. Sem ele, o técnico Miguel Muñoz teve que recuar o meia-armador Gallego para a função de líbero. No confronto de uma Espanha mutilada (além de Maceda, também foram desfalques o ala-esquerda Gordillo e o zagueiro Goikoetxea) contra uma França dona da casa que vinha embalada por um Platini irresistível, os Bleus levaram a melhor e ficaram com o título.

Do Molinón para o Bernabéu

Mesmo sem a taça, Maceda continuou em grande forma técnica após a Eurocopa, sendo fundamental em outra grande campanha do Gijón, quarto colocado atrás de Barcelona, Atlético de Madrid e Athletic Bilbao (que só o superou ao vencer o confronto direto da última rodada), e ainda cinco pontos à frente do Real Madrid, o quinto. De quebra, o time asturiano ainda teve a melhor defesa do campeonato: apenas 23 gols sofridos em 34 partidas, passando sem ser vazado em 19 delas. Eficiente atrás, Maceda continuou indo à frente e, vez por outra, marcando seus gols (foram quatro ao todo naquela temporada).

hugo sanchez gordillo maceda

Vivendo o auge da carreira, era natural que atraísse clubes maiores. E não deu outra: em junho de 1985, assinaria com o Real Madrid como uma das grandes contratações feitas pelo presidente recém-eleito Ramón Mendoza – ao lado do atacante mexicano Hugo Sánchez, tirado do rival Atlético de Madrid, e do ala esquerda Rafael Gordillo, vindo do Bétis – para tirar os merengues da fila de cinco anos sem o título da liga. E o fim do jejum não só veio, numa das conquistas mais antecipadas da história do Campeonato Espanhol, como também viria o bicampeonato da Copa da Uefa, na final contra o Colônia. Na campanha da liga, balançou as redes cinco vezes, incluindo na vitória sobre o Barcelona por 3 a 1 no Superclássico do returno no Santiago Bernabéu.

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Enquanto isso, seguia como titular inquestionável da seleção na campanha das Eliminatórias (quando a Espanha se classificou de maneira apertada num grupo contra as boas seleções de Escócia e País de Gales e novamente a Islândia) e um dos principais nomes da equipe para a Copa do Mundo do México. O que não se imaginava era que Maceda, 29 anos completados duas semanas antes do início do Mundial, vivia ali os últimos momentos de sua carreira.

Pouco mais de dois meses antes do início do Mundial, em 11 de março de 1986, sofrendo com dores no joelho direito, Maceda passaria por uma cirurgia de extração parcial dos meniscos, retornando semanas depois, a tempo de disputar a reta final da Copa da Uefa, após o título da liga já ter sido assegurado. Mais tarde, o jogador admitiria que sua volta aos gramados foi precipitada, prejudicando a recuperação. Mas só no México, já com a seleção, é que pôde chegar a essa conclusão: um choque com o meia Calderé no quinto dia de treinamentos trouxe de volta as dores no local.

O fim de carreira precoce

Na estreia da Espanha na Copa, contra o Brasil, uma nova pancada intensificou as dores e evidenciou que o problema não havia sido resolvido. No dia seguinte, Maceda era cortado do Mundial e, chorando muito, embarcaria de volta a Madri, onde passaria por nova artroscopia. Ainda naquele ano, seria submetido a uma terceira cirurgia. Ficaria de fora de toda a temporada 1986-87, recebendo alta médica apenas em fevereiro de 1988.

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A volta, no entanto, foi curta. Em abril daquele ano, disputou os 15 minutos finais de um jogo contra o Celta em Balaídos. No mês seguinte, entraria no intervalo da partida diante do Murcia no Santiago Bernabéu. Foram suas duas únicas aparições após o corte da Copa do México. Sofrendo com uma condropatia (desgaste na cartilagem do joelho direito) que o impedia de atuar normalmente e, segundo os médicos, poderia obriga-lo a amputar a perna caso continuasse a jogar, o zagueiro anunciava sua retirada dos gramados em 10 de abril de 1989.

Durante a carreira, somou 212 partidas e 21 gols pelo Sporting, 41 jogos e cinco gols pelo Real Madrid e ainda 36 partidas e oito gols pela seleção, firmando seu nome entre os melhores zagueiros do futebol espanhol e europeu naqueles meados dos anos 80. Depois de pendurar as chuteiras, teria rápidas passagens como treinador no Badajoz e Compostela, além do próprio Gijón. Atualmente, participa como comentarista de programas esportivos.

maceda cromos-horz

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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