La Liga

O penta do drama: cinco anos seguidos em que o título espanhol foi decidido na última rodada

Os anos 1980 tiveram cinco anos consecutivos de decisões dramáticas na última rodada no Campeonato Espanhol. Lembre como foram

* Texto publicado originalmente em 21 de maio de 2017 e atualizado

Neste sábado, Atlético de Madrid e Real Madrid entram em campo pela última rodada do Campeonato Espanhol com chances de levantar o título. Se não chega a ser tão rara, a decisão nos derradeiros 90 minutos da temporada também não é tão rotineira no país em comparação com algumas outras grandes ligas europeias. Mas houve um período na história em que o equilíbrio extremo foi a tônica em La Liga.

No início dos anos 80, mais precisamente entre 1980 e 1984, por cinco temporadas consecutivas o campeão só foi apontado na última partida, com muito drama e reviravoltas sensacionais. Outro ponto interessante deste período foi a presença de outros clubes, além de merengues e culés, na briga pelo título – e até ficando com a taça, como aconteceu com Real Sociedad e Athletic Bilbao. Relembramos abaixo estas cinco rodadas decisivas eletrizantes.

1979/80

Quem comemorou: Real Madrid

Quem lamentou: Real Sociedad

Os torcedores espanhóis já vinham se acostumando a comemorações antecipadas. Desde a temporada 1973/74, os campeões espanhóis vinham sendo conhecidos pelo menos uma rodada antes do fim do calendário. Naquela ocasião, o Barcelona de Cruyff confirmou a conquista da liga ainda com cinco jogos por fazer. A taça veio com a mesma antecedência na temporada seguinte para o Real Madrid de Paul Breitner. Até que a disputa voltou a se acirrar na reta final da edição de 1979/80.

A Real Sociedad chegou à penúltima rodada invicta em seus 32 jogos e com um ponto de vantagem sobre o Real Madrid na liderança. Tinha ainda a vantagem no confronto direto, primeiro critério de desempate, por ter goleado os merengues por 4 a 0 em San Sebastián e empatado em 2 a 2 no Santiago Bernabéu. Naquele 11 de maio de 1980, as duas equipes jogavam fora de casa: os madridistas visitavam o Las Palmas, enquanto os bascos pegariam o Sevilla. E a vitória ou mesmo um empate dos comandados de Alberto Ormaetxea no Sánchez Pizjuán, aliado a um mau resultado do vice-líder nas Ilhas Canárias poderia até decidir o título em favor da Real Sociedad.

Só que deu tudo errado para os bascos: os txuriurdines saíram atrás contra o Sevilla e, depois de empatarem em gol de Zamora que provocou muitas reclamações de impedimento dos donos da casa – que já tinham dois jogadores a menos em campo –, resolveram que o resultado era satisfatório, passando a apenas tocar a bola em seu próprio campo. Só que, perto do fim do jogo, o argentino Bertoni interceptou um desses passes e disparou um petardo, dando a vitória ao Sevilla e encerrando a série invicta do adversário. Nas Ilhas Canárias, o Real Madrid sofreu um gol do Las Palmas logo no primeiro minuto, mas virou e venceu por 2 a 1, assumindo a liderança por um ponto.

Na última rodada, a Real Sociedad se recuperou e bateu o Atlético de Madrid por 2 a 0 no estádio de Atotxa. Mas o milagre que esperava dos pés dos vizinhos bascos do Athletic Bilbao, que enfrentariam o Real Madrid no Santiago Bernabéu, acabou não vindo. Sem maiores problemas, os merengues venceram por 3 a 1 e confirmaram o título por um ponto.

1980/81

Quem comemorou: Real Sociedad

Quem lamentou: Real Madrid

O gol de Zamora, que deu o título espanhol de 1980/81 à Real Sociedad
Zamora, autor do gol do título espanhol de 1980/81 da Real Sociedad

A vingança dos txuriurdines não tardaria: viria já no ano seguinte. Numa temporada que teve o Atlético de Madrid como líder até a 31ª das 34 rodadas, antes de desabar fragorosamente (somou apenas três pontos e nenhuma vitória nos últimos sete jogos), a Real Sociedad assumiu a liderança, com o Real Madrid também ultrapassando os rivais colchoneros.

Na última rodada, em 26 de abril de 1981, os bascos, um ponto à frente dos merengues, visitariam o Sporting de Gijón, enquanto os rivais pelo título jogariam também fora de casa contra o Valladolid. A Real Sociedad sairia na frente, mas na metade da etapa final já estava em desvantagem por 2 a 1 diante da forte equipe asturiana. Enquanto isso, no José Zorrilla, os madridistas chegaram a sofrer o empate dos donos da casa, mas reagiam e venceram por 3 a 1.

No momento do apito final em Valladolid, a bola ainda rolava em Gijón. E quando os madridistas já vibravam com a combinação de resultados que lhes daria o título, o meia Jesús Zamora arrancaria um gol de empate dramático para os donostiarras a 30 segundos do fim do jogo, mudando a taça de mãos.

As duas equipes terminariam a competição com os mesmos 45 pontos. E, embora o time da capital espanhola somasse mais vitórias e melhor saldo de gols, a Real Sociedad levantaria o título inédito graças ao único critério de desempate levado em conta pelo regulamento: o confronto direto. Haviam perdido no Bernabéu por 1 a 0 no primeiro turno, mas vencido os merengues por 3 a 1 em San Sebastián, com o terceiro gol também saído dos pés de Zamora.

1981/82

Quem comemorou: Real Sociedad

Quem lamentou: Barcelona e Real Madrid

A disputa pelo título na reta final da temporada 1981/82 voltou a colocar frente a frente Real Sociedad e Real Madrid, mas agora incluía um terceiro pretendente: o Barcelona. Na verdade, os azulgranas lideraram a maior parte da competição, em alguns momentos até com certa folga: na 28ª rodada somavam 43 pontos, cinco a mais que os donostiarras e seis a mais que os merengues. Pareciam não sentir nem mesmo a ausência de seu grande cérebro do meio-campo, o alemão Bernd Schuster, afastado desde dezembro, após ter a perna fraturada em entrada do zagueiro Andoni Goikoetxea, do Athletic Bilbao.

No entanto, na reta final, os catalães começaram a fraquejar, permitindo a aproximação dos dois principais perseguidores. E na penúltima rodada, em 18 de abril, seriam desalojados da liderança ao caírem diante do Real Madrid por 3 a 1 no superclássico disputado no Santiago Bernabéu. A Real Sociedad assumiria a ponta da tabela ao empatar sem gols em Pamplona diante do Osasuna.

No domingo final, antes de a bola rolar, o equilíbrio era incrível: os bascos tinham 45 pontos, apenas um a mais que azulgranas e madridistas, mas perdiam em um eventual desempate pelo confronto direto com os catalães. Entre Real Madrid e Barcelona, só mesmo o segundo critério – a divisão dos gols marcados pelos sofridos em todo o campeonato – dava ligeira vantagem aos culés.

Em campo, no entanto, nem houve necessidade de se fazer contas. Além de derrotar o Athletic Bilbao por 2 a 1 no clássico basco em Atotxa, a Real Sociedad contou com os tropeços dos Barça (empate em 2 a 2 com o Betis em pleno Camp Nou) e do Real Madrid (derrota por 3 a 2 para o Racing em Santander) para levantar o bicampeonato.

1982/83

Quem comemorou: Athletic Bilbao

Quem lamentou: Real Madrid

Tendillo marcou um gol decisivo em 1983
Tendillo marcou um gol decisivo em 1983

Com a Real Sociedad fazendo campanha apenas mediana e longe do sonho do tricampeonato, o Athletic Bilbao se apresentava agora como o candidato basco ao título da liga. Com uma defesa que marcava duro e os gols da dupla Dani-Sarabia, o time do técnico Javier Clemente (mais jovem treinador da elite) chegava à última rodada um ponto atrás do Real Madrid, dirigido pelo velho ídolo Alfredo Di Stéfano.

Além da pontuação, os merengues também tinham a vantagem no confronto direto, já que haviam aplicado 4 a 2 diante dos leones em pleno San Mamés no primeiro turno e vencido também o jogo do returno por 2 a 0 no Santiago Bernabéu. Assim, jogariam por um empate na rodada final.

Enquanto isso, na parte de baixo da tabela, a briga também era quente: cinco clubes lutavam para escapar das três últimas posições que definiriam os rebaixados. E a diferença entre o Las Palmas, 14º colocado, e o Valencia, lanterna desesperado, era de apenas dois pontos. Por uma incrível coincidência da tabela, Valencia e Las Palmas receberiam Real Madrid e Athletic Bilbao, respectivamente, na última rodada.

No domingo, 1º de maio de 1983, os ameaçados começaram surpreendendo: o Las Palmas abriu o placar contra o Athletic logo de início, mas sofreu o empate ainda na metade do primeiro tempo. Aos 38 minutos, era a vez de o Valencia surpreender o Real com um gol do zagueiro Tendillo. Quase simultaneamente, a maré começou a virar a favor do Athletic, que virou o jogo nas Ilhas Canárias com gol de Dani.

Na etapa final, enquanto os bilbaínos seguiam em frente rumo a uma tranquila goleada por 5 a 1, o Real vivia seu drama no Mestalla (então chamado Luís Casanova): acertaria duas vezes a trave de Bermell e reclamaria muito de um pênalti não marcado em Juanito. Mas não conseguiria o gol de empate que teria lhe dado o troféu.

A derrota merengue encerrou a fila de 27 anos do Athletic na liga e causou ainda uma revolução na parte de baixo da tabela: da lanterna, o Valencia pulou para fora da zona de rebaixamento, empurrando justamente o Las Palmas, que cairia junto com Celta e Racing de Santander (ambos derrotados na última rodada). Enquanto os Ches escapariam de seu primeiro rebaixamento, juntamente com o Osasuna – que curiosamente se salvou da degola ao vencer o Barcelona, com Maradona e tudo, por 1 a 0 em Pamplona.

1983/84

Quem comemorou: Athletic Bilbao

Quem lamentou: Real Madrid e Barcelona

Clássico entre Athletic Bilbao e Real Sociedad em 1984
Clássico entre Athletic Bilbao e Real Sociedad em 1984

A reta final foi de tirar o fôlego. Faltando três rodadas, Athletic Bilbao, Real Madrid e Barcelona somavam, respectivamente, 43, 43 e 42 pontos, tendo ainda no retrovisor o Atlético de Madrid, quarto colocado com 40 pontos, mas que logo sairia da briga. Nos confrontos diretos, cada um tinha vantagem em um duelo: o Barcelona havia derrotado duas vezes o Athletic (4 a 0 no Camp Nou e 2 a 1 no San Mamés). O Real Madrid, por sua vez, vencera os dois superclássicos diante dos azulgranas por 2 a 1, no Camp Nou e no Santiago Bernabéu. Ao Athletic, cabia a vantagem contra os merengues, obtida com um empate sem gols na capital espanhola e uma vitória por 2 a 1 no País Basco, obtida já naquela fase decisiva, na 30ª rodada.

Para acirrar a briga, ninguém parecia disposto a perder pontos: na 32ª rodada, o Athletic venceu em casa o Málaga (2 a 1), os catalães bateram o Salamanca no Camp Nou (2 a 0) e o Real obteve vitória dificílima sobre o Sporting Gijón nas Astúrias (2 a 1), com gol do alemão Stielike no último minuto. Em seguida, merengues e leones venceram apertado o Valladolid em casa e o Valencia fora, respectivamente, ambos por 2 a 1, ao passo em que o Barça triturava o Espanyol no clássico da Catalunha por 5 a 2.

Na rodada decisiva, em 29 de abril, o Athletic tinha em relação aos adversários a vantagem de jogar em casa. Mas a partida era nada menos que o clássico basco, diante da Real Sociedad, que lutava por uma vaga na Copa da Uefa. Não que Barça e Real tivessem confrontos mais fáceis como visitantes: os catalães encaravam o Atlético de Madrid (agora já sem chance de título) no Vicente Calderón e os madridistas visitariam o mordido Espanyol no Sarriá.

No intervalo, o Athletic vencia a Real Sociedad por 1 a 0, gol do zagueiro Liceranzu, e estava com a mão a taça. No Vicente Calderón, o Barcelona, após sair na frente logo nos primeiros minutos e quase em seguida sofrer o empate do Atlético, já se colocava novamente em vantagem, com gol de Carrasco. E no Sarriá, o Real Madrid parava num empate sem gols com o Espanyol.

Na volta para o segundo tempo, a situação começou a mudar quando aos 10 minutos Orejuela abriu o placar para o Espanyol e aos 23 Uralde empatou para a Real Sociedad no San Mamés, resultados que davam o título ao Barcelona. Mas dois minutos depois, a jovem revelação merengue Emilio Butragueño igualaria o marcador na Catalunha cobrando pênalti. O tríplice empate (todos somando 48 pontos) beneficiava o Real Madrid.

Mas uma nova reviravolta aconteceria aos 34 minutos, quando Liceranzu colocaria outra vez o Athletic em vantagem no clássico basco, encaminhando o bicampeonato para os leones. Era também o gol de número 3.000 do clube em sua história na liga. Quatro minutos depois, o Real Madrid chegaria à virada no Sarriá em mais um gol de Butragueño cobrando pênalti e passaria a torcer por uma nova reação da Real Sociedad, estendendo a tensão até o último minuto. Mas suas esperanças acabaram com o apito final no San Mamés. O Athletic confirmava seu bicampeonato da liga e o oitavo título espanhol de sua história.

A volta dos campeões “com folga”

Nas duas temporadas seguintes, os desfechos dramáticos da última rodada foram substituídos por títulos categóricos, de amplo domínio, levantados pelo Barcelona de Terry Venables em 1985 e pelo Real Madrid da Quinta del Buitre em 1986, ambos decididos ainda com quatro rodadas a serem disputadas. Nos 30 anos seguintes, o título voltaria a ser decidido na última rodada em outras dez ocasiões (1992, 1993, 1994, 1996, 2000, 2003, 2007, 2014, 2016 e 2017), além da atual temporada.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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