La Liga

A dez segundos do fim, Messi foi apoteótico, em clássico que ficará impregnado na memória

O clássico de Lionel Messi.

O camisa 10 possui um histórico riquíssimo nos confrontos diante do Real Madrid. É o maior artilheiro da história no duelo, superando Alfredo Di Stéfano. Carregou o time nos 6 a 2 de 2009, decidiu a semifinal da Champions em 2011, fuzilou no insano 4 a 3 de 2014. Ainda assim, fica difícil de encontrar um clássico no qual o craque tenha sido tão apoteótico. No qual carregou o time, decidiu e fuzilou com uma precisão milimétrica, sob a pressão do Estádio Santiago Bernabéu, a 10 segundos do apito final. Em uma partida tão boa, são muitos os personagens. Mas não há como fugir do “fator Messi”. Impecável, mesmo perdendo gol feito, o craque anotou dois tentos e garantiu a vitória por 3 a 2 na casa dos rivais, que mantém sua equipe viva em La Liga. Teve uma noite para ser colocada entre os maiores momentos de sua carreira, entre tantos grandes.

Foi um jogo que começou nas mãos do Real Madrid. Os merengues tinham a iniciativa desde os primeiros minutos, antecipando a marcação e criando as primeiras oportunidades de gol. Rondavam a área blaugrana, tentando atacar com velocidade. Só demorou um pouco para que o time de Zinedine Zidane arrematasse com um pouco mais de perigo. Marc-André ter Stegen já havia trabalhado antes, mas precisou fazer sua primeira grande defesa aos 20 minutos, em chute cruzado de Cristiano Ronaldo. Apenas um aviso do que viria aos 28, com o primeiro gol dos anfitriões. Após bola alçada na área, Sergio Ramos desviou para o pé na trave. O rebote sobrou livre para Casemiro completar às redes vazias.

O Barcelona acordou logo em seguida. Ou melhor, Messi resolveu pegar a bola e resolver. O camisa 10 jogava com uma gaze na boca, para conter um sangramento, após cotovelada (aparentemente, sem qualquer intenção) de Marcelo em disputa pelo alto. E quando parecia sumido, foi genial. O argentino passou a encontrar espaços nas costas de Casemiro, que forçava os desarmes ao antecipar o combate, mas também cometia muitas faltas. Partindo para cima do brasileiro é que o craque igualou o placar, aos 32 minutos. Deixou o volante para trás e Dani Carvajal ficar no vácuo, antes de bater no contrapé de Keylor Navas. Para quem vinha de uma atuação nula contra a Juventus, Messi parecia disposto a dar seu máximo. Começou a criar as melhores chances de sua equipe.

Luka Modric deu a resposta do outro lado em bomba que Stegen voou para espalmar. Além disso, os merengues também lamentaram a perda de Gareth Bale, lesionado, substituído pelo excelente Marco Asensio. Mas o fim do primeiro tempo era mesmo de Messi. Chutou tirando tinta da trave e sofreu falta em um contra-ataque, que poderia ter rendido o segundo amarelo a Casemiro. Até chance de gol clara o camisa 10 perdeu, no último lance antes do intervalo, com o gol aberto após Navas falhar em cobrança de escanteio. O melhor ficaria para os acréscimos da segunda etapa.

Se o jogo era muito bom no primeiro tempo, se tornou completamente espetacular e imprevisível no segundo. O Real Madrid voltou melhor. Atacava com intensidade. E via Ter Stegen se agigantar. Voou para salvar um chute de Toni Kroos, antes de executar uma defesa de handebol, com os pés, em arremate à queima-roupa de Karim Benzema. Hora de Keylor Navas também mostrar o goleiraço que é do outro lado. O madridista pegou duas bolas difíceis, em finalização de Alcácer (o substituto de Neymar, suspenso) e em cabeçada de Piqué. O ritmo não parava, de nenhum dos lados. Enquanto Cristiano Ronaldo, arrematava para fora, Navas era soberano para bloquear o chute de Luis Suárez, após belíssimo passe de Andrés Iniesta. O português, aliás, também aparecia bastante, mas pecava na conclusão.

Aos 25 minutos, duas alterações. Zidane preferiu tirar Casemiro, ineficiente no segundo tempo e pendurado, para a entrada de Mateo Kovacic. Já Luis Enrique liberava um pouco mais os seus atacantes, trocando Paco Alcácer por André Gomes. Naquele momento, de qualquer forma, os homens de frente precisariam ser perfeitos se quisessem passar pelos goleiros. O que fez Ivan Rakitic, aos 27. O croata deu um corte seco em Kroos, antes de soltar o balaço cruzado, no canto de Navas.

Um momento-chave aconteceria logo na sequência, com a expulsão de Sergio Ramos, por entrada dura sobre Messi. Os merengues reclamaram do rigor do árbitro, mas a imprudência do zagueiro foi inegável. Saiu de campo ainda provocando Gerard Piqué. Sem zagueiros no banco, Zidane recuou Kovacic para a zaga. Surpreendeu ao apostar em James Rodríguez na vaga de Benzema, quando contava com jogadores mais ofensivos ou em melhor fase como opções. A aposta do francês se pagou em pouco tempo. Tentando se fechar na defesa diante da posse de bola do Barça, os madridistas tinham a chance de contra-atacar. Sua maior arma, se repetindo. Sofreram um bocado, é verdade, com Navas operando mais duas ótimas intervenções. Mas, aos 40, saiu o gol de empate dos anfitriões, justamente com James. Marcelo cruzou e, em seu sexto toque na bola, o camisa 10 estufou o barbante.

O cenário parecia claro no Bernabéu. O Real Madrid empatava e tinha a taça nas mãos. O resultado era favorabilíssimo diante das circunstâncias na tabela. Entretanto, nem com um a menos os merengues abdicaram do desejo de vencer. Continuaram em cima, buscando nova virada no placar. O seu pecado, justamente quando há Lionel Messi do outro lado. Sergi Roberto puxou o contra-ataque, passando por Marcelo e deixando os blaugranas em vantagem numérica. Cinco contra três. André Gomes recebeu. Passou para Jordi Alba. O lateral olhou para a entrada da área e ajeitou. Messi, em uma estacada só, feriu o coração de milhões de merengues. De primeira, o chute no cantinho foi indefensável. O relógio já beirava os acréscimos apontados pelo árbitro. Restava apenas o apito final e a celebração. A exaltação ao craque.

O Barcelona assume a liderança, mas ainda não depende apenas de si para ser campeão. A taça segue mais perto do Real Madrid. Os blaugranas possuem a mesma pontuação, com vantagem no confronto direto, mas uma partida a mais. Caberá aos merengues escreverem uma história diferente nos seis jogos restantes, sobretudo no atrasado diante do Celta. O time de Zidane talvez tenha excedido por sua sede de vitória, mas não pode ser tão reprimido por isso. Foi uma noite de dois grandes times. De um jogaço. De um craque que desequilibrou. Daquele futebol pelo qual somos todos apaixonados.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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