La Liga

15 grandes histórias sobre Kubala, o craque com uma trajetória de vida singular

Se você quer apresentar László Kubala a qualquer pessoa que não o conheça, há um fato básico e primordial em sua biografia. Em 1999, quando o Barcelona completou 100 anos de fundação, ele foi o escolhido em uma votação popular como maior jogador do clube até então. Uma decisão completamente compreensível, por tudo que o atacante ofereceu aos blaugranas entre 1950 e 1961. Trouxe uma nova mentalidade ao clube. Um novo patamar de qualidade técnica. E fez as arquibancadas lotarem como nunca antes, tanto pelos títulos quanto pelos espetáculos dados pelo craque.

No último final de semana, Kubala completaria 90 anos de vida, se ainda estivesse vivo. E é bom relembrar que sua trajetória vai muito além dos jogos ou gols pelos catalães. Há diversos meandros que fogem das quatro linhas e que enfatizam o húngaro como um grande personagem do futebol. Como um gênio, que já recebe as devidas ovações no Camp Nou, onde está eternizado com uma estátua, mas merece mais.

kubala

O garoto precoce

Filho de uma operária e de um pedreiro, Kubala se envolveu com o esporte desde cedo. Quando tinha 11 anos, chegou a mentir a idade para jogar futebol com garotos até quatro anos mais velhos, na equipe de uma fábrica. Tão precoce que seu pai suspeitou que ele tinha roubado o dinheiro que levou para casa de seu primeiro salário como jogador. Ao mesmo tempo, o adolescente também praticava boxe, o que acabou influenciando seu tipo físico, dono de enorme força. De qualquer maneira, seu futuro estava no futebol. Aos 18 anos, defendia o poderoso Ferencváros, clube mais popular de Budapeste. Por lá, conheceu Sándor Kocsis, lenda dos Mágicos Magiares que se tornaria seu parceiro tempos depois, no Barcelona.

kubala

Relutante e refugiado

A primeira transferência notável de Kubala aconteceu ainda em 1946, aos 19 anos. Para evitar o serviço militar na Hungria, assinou com o Slovan Bratislava. Também não ficou por muito tempo na Tchecoslováquia, outra vez se recusando a se juntar ao exército. Voltou a Budapeste e passou mais alguns meses no Vasas, até decidir abandonar seu país, diante da consolidação do regime comunista. Vestindo uma farda soviética e portando documentos falsos, atravessou o país na caçamba de um caminhão. Depois, ainda caminhou quilômetros no rigoroso inverno, em meio à pesada neve, rumo à Áustria. Acabou detido na cidade de Innsbruck, mas a fama precoce no futebol valeu o reconhecimento dos guardas, que facilitaram a sua liberação.

kubala

Sobrevivente de Superga pelo acaso

Após deixar a Áustria, Kubala tentou seguir nova vida na Itália. Disputou algumas partidas pelo Pro Patria, até receber o convite de se juntar ao Grande Torino de Valentino Mazzola. O atacante reforçaria os grenás em uma viagem a Portugal, onde disputariam um amistoso contra o Benfica. Chance enorme para o jovem, justamente na maior potência do Calcio. Convite irrecusável que, no entanto, precisou recusar. Na mesma época, a esposa do craque chegara à Itália, após fugir da Tchecoslováquia. Ela atravessou um Danubio a nado em um trecho próximo a Bratislava, na fronteira com a Áustria, carregando o filho do casal em um pneu. O bebê acabou doente e Kubala preferiu desistir da excursão para cuidar da família. Na volta de Lisboa, aconteceu o trágico acidente de Superga, matando todo o elenco do Torino.

kubala

O craque em torno da causa

Sem clube e impedido de atuar pela Fifa, diante das pressões políticas, Kubala passou a liderar uma equipe para conscientizar sobre a situação dos refugiados do Leste Europeu. Era o craque do Hungária, que reunia também jogadores tchecos, russos, croatas e de outras nacionalidades. O time era treinado por Ferdinand Daucik, vice-campeão do mundo com a seleção tchecoslovaca em 1934, ex-técnico da equipe nacional e cunhado de Kubala. O esquadrão fez uma turnê pela Espanha, marcada pelas grandes atuações do atacante. Logo ele tornou-se objeto de cobiça dos grandes clubes do país.

o_sd_compostela_kubala_y_di_stefano-42316

O Di Stéfano antes de Di Stéfano

A transferência de Alfredo Di Stéfano tornou-se célebre pela briga envolvendo Real Madrid e Barcelona. Nada mais que um troco dos merengues por terem perdido Kubala. Há algumas lendas ao redor da assinatura do húngaro com os blaugranas, até afirmando que ele foi ludibriado enquanto estava bêbado. Fato é que o acerto com o presidente Santiago Bernabéu estava bem mais próximo quando o Barça atravessou o negócio. Uma das principais condições do atacante, aliás, acabou atendida pelos catalães, o que não era tão provável com os madrilenos: contratar também Ferdinand Daucik para ser o técnico da equipe. Em Les Corts, antiga casa dos culés, a idolatria não demorou a vir. E, curiosamente, Kubala foi um dos motivos para o Barcelona desistir de Di Stéfano, na queda de braço com o Real Madrid. O retorno mais rápido que o esperado do ídolo após uma tuberculose teria feito os blaugranas cederem. O húngaro e o argentino chegaram a disputar juntos alguns amistosos, nutriram a amizade e se cruzaram do mesmo lado em outros momentos da carreira – seja em jogos festivos, na seleção ou no Espanyol.

kubala

Franco a favor do Barcelona?

Outra controvérsia ao redor da contratação de Kubala pelo Barcelona se concentra sobre a liberação para que jogasse. Afinal, o atacante seguia barrado pela Fifa e, no princípio, pôde atuar apenas em amistosos. Então, o que diversas fontes apontam é a intermediação do regime franquista para revogar o banimento. Um personagem-chave neste processo é Josep Samitier, um dos maiores jogadores espanhóis da primeira metade do século, que trabalhava como dirigente dos blaugranas. A relação do veterano junto a pessoas ligadas à ditadura teria sido decisiva. Inclusive, a fuga de Kubala tornou-se uma ferramenta à propaganda de Franco. O húngaro fez seu próprio papel no filme ‘Los ases buscan la paz’, que tentava transmitir uma imagem amena e receptiva da Espanha em contraposição aos países da Cortina de Ferro.

kubala

A primeira supertemporada do Barça

Quando o Barcelona enfileirou seis taças conquistadas em 2008/09, superava um recorde interno alcançado na primeira temporada completa de Kubala. Em 1951/52, os blaugranas faturaram cinco títulos – ainda que alguns em torneios amistosos importantes da época. La Liga voltou ao clube após um intervalo de três anos, enquanto também aconteceu o bicampeonato da Copa do Rei (então chamada de Copa do Generalíssimo), derrotando o Valencia na final. Além disso, os catalães expandiram suas fronteiras na Copa Latina, um dos torneios que precederam a Champions, reunindo os campeões nacionais de Espanha, Portugal, França e Itália.

kubala

O homem que elevou o Barcelona de patamar

A estátua de Kubala em frente ao Camp Nou é bastante representativa. E não está lá à toa. De certa maneira, o craque impulsionou os blaugranas a sua nova casa. O terreno já estava comprado e a mudança do clube era planejada quando o húngaro foi contratado. De qualquer maneira, as multidões que lotavam Les Corts e até pernoitavam nos portões do antigo estádio para ver o artilheiro jogar motivaram a mudança para um estádio maior. Um estádio que realmente remetesse à grandeza pretendida pelos catalães e comportasse aqueles que quisessem assistir a seu ídolo maior. Em 1957, após três anos de construção, o Camp Nou foi inaugurado. Inicialmente, contava com cerca de 30 mil lugares a mais que Les Corts.

kubala

O jogador do futuro no passado

Kubala tinha diversas virtudes em campo. Era um atacante habilidoso, de velocidade e dribles em progressão. Chutava com enorme precisão, inclusive nas bolas paradas. Ocupava diferentes partes do campo. Valorizava o jogo coletivo criando também jogadas para os seus companheiros. Mas o seu grande diferencial estava na força física. Em tempos nos quais a preparação era precária, o húngaro sobrava em campo por unir potência e qualidade, algo que se tornaria praxe nos anos seguintes. Naquela época, entretanto, era uma raridade. Os marcadores sofriam na tentativa de parar o craque, quando nem os agarrões adiantavam muito. Rasgavam a camisa do adversário, mas não continham as suas arrancadas. Além disso, a saúde se transformou em fator vital em outros sentidos. Quando sofreu com a tuberculose em 1952/53, teve uma recuperação surpreendente, arrebentando para levar o Barça ao tri da Copa do Rei e do Campeonato Espanhol. E, como um boêmio inveterado, as noites de bebedeira não atrapalhavam o seu nível. Não dava sinais de ressaca, voltando e resolvendo mesmo depois de varar a madrugada. Continuou praticando exercícios físicos até os últimos dias de vida, falecido em 2002, aos 74 anos.

kubala

Craque em meio a outros craques

Enquanto o Real Madrid dos anos 1950 costuma ser enormemente exaltado, e não sem motivo, por suas cinco conquistas na Copa dos Campeões, o Barcelona não pode ser menosprezado. Os blaugranas não chegaram a tanto no terreno internacional, mas faturaram quatro taças do Espanhol e cinco da Copa do Rei no período. E, se era a estrela da companhia, Kubala não deixava de engrandecer o restante dos companheiros. A própria postura de se entregar em campo e participar bastante da construção de jogo elevavam o moral ao seu redor. Assim, ganhou a parceria de outros tantos nomes eternos: Antoni Ramallets, Juan Segarra, César Rodríguez, Estanislao Basora, Emilio Aldecoa. Menção especial para o setor ofensivo que se formou a partir da metade final da década de 1950, rendendo o bicampeonato espanhol em 1958/59 e 1959/60. Sándor Kocsis, Zoltan Czibor, Eulogio Martínez, Justo Tejada, Evaristo de Macedo e Luis Suárez ofereciam vastas opções a Helenio Herrera.

kubala

O homem que ajudou a encerrar a dinastia europeia do Madrid

O motivo principal para Helenio Herrera ter encerrado sua passagem vitoriosa pelo Barcelona, mesmo bicampeão espanhol, foi a eliminação nas semifinais da Copa dos Campeões de 1959/60. E, dentro deste contexto, a relutância em escalar Kubala. O treinador argentino, disciplinador, chegou a acumular alguns conflitos com a sua estrela, especialmente sobre a sua vida noturna. Barrou o craque nos dois jogos das semifinais contra o Real Madrid, tomando um baile de Di Stéfano e Puskás, com dois triunfos merengues por 3 a 1. Já comandado por Ljubisa Brocic, o Barça teve a chance da revanche nas oitavas de final em 1960/61. Eliminou os madridistas com a participação do húngaro no triunfo por 2 a 1 no jogo de volta, com gol célebre de Evaristo. Contudo, a equipe acabaria sucumbindo na decisão para o Benfica.

kuba

As outras copas de Kubala

Se faltou sorte a Kubala na Copa dos Campeões, o craque ao menos levou a segunda taça continental mais importante da época: a Taça das Cidades com Feiras, precursora da Copa da Uefa, atual Liga Europa. Na primeira edição, disputada entre 1955 e 1958, os blaugranas superaram um combinado formado por jogadores de vários clubes londrinos na final. Já em 1959/60, apesar dos conflitos com Helenio Herrera, o atacante voltou a tempo de disputar o segundo jogo decisivo contra o Birmingham, que rendeu a taça mais uma vez aos catalães.

Alfredo di Stefano e Laszlo Kubala

O homem de várias seleções

A vida cigana de Kubala, em tempos nos quais não existiam tantos empecilhos para defender as seleções nacionais, permitiram que ele vestisse as camisas de três países diferentes. Atuou por Tchecoslováquia e Hungria enquanto estava no Leste Europeu, mas longe de fazer parte dos Mágicos Magiares. Refugiado na Espanha, também naturalizou-se e integrou a Fúria. Disputou 19 jogos e anotou 11 gols entre 1953 e 1961. Esteve nas quedas do país nas Eliminatórias das Copas de 1954 e 1958, enquanto não pôde disputar 1962 por lesão. Além disso, participou de uma partida na campanha da Euro de 1960, na qual os espanhóis se recusaram a enfrentar a União Soviética na última fase qualificatória. Sem se atrelar tanto a nacionalidades, Kubala se definia como um ‘cosmopolita’. Assim, fez também partidas por um combinado da Europa e pela Catalunha.

kubala-puskas-di-stefano-a-spanyol-valogatottban

O momento em que El Clasico se tornou sublime

Outra passagem marcante da carreira de Kubala aconteceu já no fim de sua carreira, em dezembro de 1961. Apesar da imagem intrinsecamente atrelada ao Barcelona, o húngaro não deixou de colecionar amigos no Real Madrid. Vestiu a camisa merengue na despedida de Luis Molowny, assim com fez Di Stéfano e Puskás jogarem de blaugrana em seu próprio adeus do clube, em 1961. E com a ajuda dos dirigentes “rivais”, o veterano pôde ver sua mãe depois de 13 anos, desde sua fuga da Hungria. O presidente Santiago Bernabéu e seu principal aliado na diretoria madridista, Raimundo Saporta, negociaram um visto especial à idosa, em tempos de relações rompidas entre a Espanha franquista e a Hungria comunista. Anna Stecz pôde não somente reencontrar o filho, como também conheceu o neto e passou o Natal de 1961 com a família.

kubala

O técnico também marcante

Apesar da carreira fantástica como jogador, Kubala construiu sua reputação como treinador. Um tempo depois que deixou o Barcelona, voltou para comandar e também disputar alguns jogos pelo Espanyol. Dirigiu ainda Zurique, Toronto Falcons e Córdoba até o seu trabalho mais duradouro, na seleção espanhola. Foram 11 anos à frente da Fúria, levando o time à Copa de 1978 e à Euro de 1980. Depois, ainda rodaria por equipes menores do país e assumiria o Paraguai, presente na Copa América de 1995.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo