Espanha

Foi baixo e vergonhoso o tratamento que a emissora estatal espanhola deu ao Kosovo

Com medo de encorajar movimentos separatistas internos, como o da Catalunha e do País Basco, a Espanha não reconhece a independência do Kosovo, Essa decisão controversa gerou uma postura muito baixa da emissora estatal espanhola TVE, dona dos direitos de transmissão das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo, nesta quarta-feira, quando a campeã mundial de 2010 venceu a seleção kosovar por 3 a 1 pela terceira rodada do Grupo B.

A independência do Kosovo, 13 anos depois, ainda é apenas parcialmente reconhecida pela comunidade mundial. O Brasil, por exemplo, ainda o considera parte da Sérvia. Dos 193 membros da ONU, 113 o reconhecem como um Estado soberano, mas ele não integra a entidade porque dois que não o fazem – China, com suas próprias questões em relação a movimentos separatistas locais, e Rússia, aliada histórica da Sérvia – têm assentos permanentes no Conselho de Segurança e o poder de vetar novos membros.

A questão é mais pacificada dentro da União Europeia, da qual apenas cinco dos 28 membros não reconhecem a independência do Kosovo: Espanha, Chipre, Grécia, Eslováquia e Romênia. A seleção kosovar foi acolhida pela Fifa em 2015 e pela Uefa no ano seguinte.

Era esperado que houvesse problemas diplomáticos quando o sorteio colocou o Kosovo dentro do grupo da Espanha e eles não demoraram para aparecer. No começo de março, a seleção kosovar ameaçou boicotar a partida após um tuíte da Federação Espanhola, em que a convocação para esta Data Fifa foi anunciada para as partidas contra “Grécia, Georgia e território do Kosovo”.

A federação confirmou o jogo apenas quando recebeu garantias da Federação Espanhola de que poderia usar os seus símbolos nacionais, como hino e bandeira. Não que houvesse muita alternativa porque os protocolos da Uefa e da Fifa determinam que assim seja.

Mas as tentativas de diminuir Kosovo a algo diferente de um país de verdade continuaram – e foram ficando cada vez mais patéticas. A promoção do jogo na TVE se referiu ao confronto como “Espanha x Federação de Futebol do Kosovo”, como se a Espanha estivesse enfrentando o time da federação e não do país. Segundo o Marca, a equipe de transmissão foi proibida de se referir ao adversário como “Kosovo”.

Isso também reverberou às mídias oficiais da seleção espanhola. O torcedor que acompanhou o jogo pelo Twitter teve muita dificuldade para descobrir quem a Espanha estava enfrentando. A última citação direta ao Kosovo foi em um tuíte às 6h30 (horário de Brasília) desta quarta-feira. Com a primeira letra maiúscula e o resto em caixa baixa, mas havia feito o mesmo com Grécia e Georgia.

A diferença esteve no restante da cobertura na rede social. Nas publicações de aquecimento, parecia que a Espanha jogaria sozinha e, com a bola rolando, houve uma clara tentativa de evitar mencionar o Kosovo. Ele aparecia apenas na atualização dos placares: #ESP x #Kos. As hashtags de Grécia e Georgia seguiram a mesma linha (#Gre e #Geo), mas os dois times foram várias vezes citados pelo nome e tiveram até suas substituições informadas ao público. O relato da partida no site da seleção espanhola refere-se a “seleção kosovar” em contraste com “Espanha” – e Georgia e Grécia nos duelos anteriores.

O foco dado à grafologia se explica pelo que fez a televisão estatal na transmissão do jogo pela televisão – que atingiu muito mais pessoas do que o Twitter da seleção espanhola. Eles colocaram “kosovo”, inteiro em caixa baixa na apresentação das escalações, e modificaram o modelo do placar que receberam da Uefa. A Espanha era ESP. Kosovo era kos. Na transmissão brasileira, pelo TNT Sports, as duas siglas estavam em caixa alta.

A TVE não se pronunciou oficialmente sobre a questão. Se o fizer, atualizaremos esta nota. Talvez eles digam que acham que é isso que vai impedir a Catalunha de declarar independência.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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