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E se Pelé tivesse sido vendido para o Real Madrid?

Esse texto foi enviado na newsletter da Trivela na última sexta-feira, que você pode assinar aqui. Com ele, começamos uma nova série imaginando contratações especuladas que nunca foram concretizadas. Ela substitui a série Entidades Místicas, que já cumpriu o seu papel e pode ser lida aqui.

Santiago Bernabéu estava sentado em sua cadeira de espaldar alto, com um charuto entre os lábios e um problema na cabeça. Estava contente e inquieto ao mesmo tempo. Não sabia explicar. O Real Madrid havia conquistado quatro copas europeias seguidas sob o seu comando, com jogadores espetaculares e goleadas avassaladoras, mas não conseguia ficar satisfeito. Precisava da quinta. Se conquistasse a quinta, ninguém discutiria que se trata do maior clube do mundo. Gostava de números múltiplos de cinco.

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O time está bem, não são necessários muitos ajustes. Ganhou do Stade Reims sem problemas na final de Stuttgart, alguns meses atrás, junho de 1959, mas o clube francês saiu com um bom negócio, pois Raymond Kopa decidiu retornar para o seu clube de origem. Precisa repor o craque e tem que ser uma grande estrela, como Puskás, como Di Stéfano. Ainda mais porque o Barcelona é o atual campeão espanhol e isso não tem cabimento. Todos sabem que o melhor time da Espanha é o Real Madrid.

A Copa do Mundo do ano passado deixou uma boa impressão e mostrou alguns talentos, principalmente o Brasil, campeão pela primeira vez. Bernabéu gostou especialmente de três jogadores: o ponta direita que dribla qualquer coisa pela frente, quase um ilusionista, mas não parece ter muita seriedade e tem pernas tortas, não deve durar muitos anos; o meia foi o melhor jogador do torneio, e o presidente admirou muito sua classe, liderança e passes preciso, mas já tem 30 anos e deve começar a decair; por outro lado, o camisa 10 ainda é muito jovem e muito abusado. Deu um chapéu dentro da área justo na decisão! É desse tipo de atitude que o Real Madrid precisa.

Bernabéu ligou para seus contatos no Brasil e começou a fazer perguntas. Quanto ele custa? Tudo isso? Faz um desconto. Pago US$ 80 mil. Tá bom, US$ 85 mil. US$ 90 mil é a proposta final. Maravilhoso. Ele está machucado? Ótimo. Fez quantos gols este ano? Mas isso é impossível, ainda estamos em agosto! Quantos chapéus ele deu? Quatro? Inclusive no goleiro? E contra a Juventus de Turim?? Ah, não, Juventus do Brasil mesmo. Jesus Cristo… coloque-me em contato com ele imediatamente. Preciso desse jogador.

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Pelé chegou assustado à Espanha. Morar em outro país aos 19 anos com tanta responsabilidade nas costas representa um desafio muito grande. Pelo menos, a língua é parecida. Dá para enrolar na hora de se comunicar, entiende? Dona Celeste acompanhou o filho e trouxe um carregamento substancial de arroz e feijão porque sabe que isso é quase impossível de encontrar na Europa. Dividiu entre outros parceiros de Pelé, que vão ajudá-lo a se adaptar no começo, para o seu planejamento alimentar não virar o jantar de agentes da imigração espanhola.

O primeiro contato com os companheiros de equipe foi bom, nada demais. O espanhol lá, ou argentino, Pelé não entendeu isso direito, o tal de Di Stéfano, parece um pouco metido, mas é bom de bola. Puskas mais ainda. São quase tão bons quanto o Coutinho e o Pepe. Deve dar um bom time. E deu mesmo. Com esse trio em grande fase, o Real Madrid atropelou todo mundo na Taça dos Campeões, com direito a duas vitórias por 3 a 1 sobre o Barcelona na semifinal e um goleada por 7 a 3 sobre o Eintracht Frankfurt, na decisão.

O título nacional foi retomado com mais dificuldade. Os dois clubes dividiram a ponta com o mesmo número de pontos nas últimas quatro rodadas. Revezavam-se na primeira posição no saldo de gols. A 30ª rodada definiria o caneco, e a vantagem era do Real Madrid, por dois gols. O Barcelona aplicou 5 a 0 no Zaragoza, e o Real ganhava do Las Palmas por apenas 2 a 0 até os 35 minutos do segundo tempo, quando Pelé colocou a bola debaixo do braço – ou dos pés, no caso – driblou três marcadores e acertou um belo chute no ângulo. Pouco depois, subiu ao terceiro andar e emendou um cruzamento com a cabeça. 4 a 0 para o Real, e a vitória em La Liga veio com 56 gols de saldo contra 55 do Barça.

Pelé fez 37 partidas pelo Real Madrid naquela temporada e foi às redes 35 vezes, mais que Di Stéfano e menos que Puskas, que marcou incríveis 48 gols. Uma excelente temporada de estreia. Voltou ao Brasil para merecidas férias em Santos, com direito a algumas peladas no Gonzaga, e se preparou para os próximos jogos. No começo de novembro de 1960, já teria pela frente o Barcelona pelas oitavas de final da Copa dos Campeões.

A primeira partida, em Madrid, viu um show de Luis Suárez. Enrique Mateos abriu o placar aos 3 minutos, e o espanhol empatou. Pouco depois, Gento fez 2 a 1, Suárez empatou novamente, no fim do jogo, cobrando pênalti. Foi difícil para Pelé, muito bem marcado, mas, pelo jeito, ele estava guardando o ouro para o Camp Nou. O Real Madrid precisava vencer fora de casa para passar de fase. O que ficou mais difícil quando Vergés fez 1 a 0, no primeiro tempo. Pelé entrou na área após duas tabelas rápidas com Puskas e empatou pouco antes do intervalo. Evaristo de Macedo voltou a colocar o Barça na frente, a nove minutos do fim do jogo, mas Canário empatou, aos 42. A partida caminhava para a prorrogação, quando Pelé, outra vez, decidiu. Matou no peito e emendou o petardo cruzado.

O caminho para a final de mais uma Copa dos Campeões foi aberto. O Real Madrid passou pelo Hradec, da República Tcheca, com tranquilidade, e mais dois gols de Pelé, e despachou também o Hamburgo. A decisão seria contra o Benfica de Béla Guttmann. Em Berna, terra de Puskás, o Real Madrid sucumbiu ao time de Coluna, que fez o gol do título, no começo do segundo tempo, para anular os dois que o húngaro havia marcado. Pelé sofreu uma lesão na coxa bem no começo do jogo e mal conseguiu se segurar em campo. Apesar da decepção, foi artilheiro do Campeonato Espanhol, conquistado mais uma vez pelo Real, com 31 gols, e terminou a temporada com 45 em 36 jogos.

As férias e a pré-temporada foram dedicadas a curar a lesão que havia contraído na decisão da Copa dos Campeões, e a obstinação servia para voltar na ponta dos cascos para apagar a desilusão de ter deixado o sexto título europeu seguido do Real Madrid escapar pelos dedos. Consolidou ainda mais o potencial do assustador ataque com Canário, Pelé, Di Stéfano, Puskás e Gento. Ainda havia Del Sol para completar o poder ofensivo. Todos foram atropelados no Campeonato Espanhol, e Pelé, atuando em todas as 30 rodadas, fez 41 gols e bateu o recorde de tentos em uma única edição do torneio, que era de Telmo Zarra, do Athletic Bilbao (38).

Mas o que Pelé queria mesmo era se redimir na Copa dos Campeões. O Real Madrid foi batendo em todo mundo, até na Juventus, pelas quartas de final, com um 3 a 0 em Turim, gols de Di Stéfano e dois do brasileiro. O Standard Liège também foi presa fácil, e quis o destino que o adversário da decisão fosse mais uma vez o grande Benfica, que agora tinha um novo astro.

Muito se falou do duelo entre Pelé e Eusébio antes da decisão no Estádio Olímpico de Amsterdã. O moçambicano estava na sua primeira temporada na Europa e basicamente comia a bola. O Benfica havia sido campeão com anos de antecedência em Portugal, e ele havia sido essencial para golear o Nuremberg por 6 a 0, depois da derrota por 3 a 1 na Alemanha. Os dois eram jogadores parecidos: rápidos, fortes, habilidosos e com um faro de gol apuradíssimo. Pelé já era considerado um dos melhores do mundo. Eusébio seria o próximo.

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O jogo foi muito movimentado. Puskás estava em estado de graça e fez três gols no primeiro tempo. Mas Águas e Cavém diminuíram o prejuízo do Benfica. Na etapa final, Coluna não demorou muito para empatar, e o placar estava empatado por 3 a 3. Foi quando começou o duelo pessoal entre Eusébio e Pelé.

Eusébio marcou aos 20, de pênalti, para fazer 4 a 3. Na saída de bola, Pelé arrancou em direção à área e foi derrubado. Puskás pegou a bola para bater, mas o brasileiro deu um chega para lá nele e se encarregou da cobrança. 4 a 4. Aos 23, Coluna rolou uma falta para Eusébio bater de primeira e fazer 5 a 4, mas pouco depois, Pelé cobrou diretamente da meia esquerda, no ângulo, e voltou a empatar. 5 a 5. O grande lance da partida aconteceu aos 34. Pelé dominou no peito um cruzamento de Canário, e não deixou a bola cair. Nunca mais. Emendou dois chapéus, um para a direita e outro para a esquerda, e fuzilou as redes.

A vitória do Real Madrid por 6 a 5 contra o Benfica, com três gols de Pelé, três de Puskás e dois de Eusébio ainda é considerada a maior partida de todos os tempos, pelas reviravoltas, os golaços e o tamanho dos jogadores que estavam em campo. Também ficou marcada como a última do brasileiro na Europa. Algumas semanas depois, viajou para o Chile e deu sequência à boa forma com o bicampeonato mundial pela seleção brasileira. Jogou todas as partidas, fez cinco gols, e foi o artilheiro da Copa do Mundo. Ainda no gramado do Nacional de Santiago, contou aos repórteres sobre a sua vontade de voltar ao Brasil – e ao Santos. Estava com saudade da praia, dos quiosques, de tabelar com Coutinho e encher o saco de Pepe. Ah, e o feijão com arroz que a Dona Celeste havia levado para a Espanha também já tinha terminado há muito tempo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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