Espanha

Di Stéfano já foi sequestrado por guerrilheiros, e o mentor do plano faleceu neste domingo

A história é pouco conhecida, mas há mais de 50 anos Alfredo Di Stéfano foi sequestrado por guerrilheiros em Caracas, na Venezuela, como parte de um plano para colocar em evidência o grupo armado que lutava pela inserção dos partidos comunistas na recém-estabelecida democracia representativa no país sul-americano. Neste domingo, Paúl Del Río, principal mentor daquele sequestro, faleceu, aos 72 anos, em Caracas. A imprensa espanhola destacou Máximo Canales, nome pelo qual Del Río era conhecido à época, relembrando sua trajetória política e retirando trechos do relato da Flecha Loira sobre as 70 horas em que ficou nas mãos do grupo, publicado no livro “Gracias, Vieja”.

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Era agosto de 1963. O Real Madrid havia viajado para a capital da Venezuela para um jogo amistoso. Antes da partida, Di Stéfano estava no hotel em que estava hospedado o elenco madridista, e, em uma manhã, o telefone de seu quarto tocou. Do outro lado, diziam que havia dois policiais querendo vê-lo e lhe pediram que descesse até o saguão. O Flecha Loira pensou se tratar de uma piada de um de seus companheiros de time, disse que não desceria, e então os policiais, na verdade dois guerrilheiros, um deles Del Río, subiram, o renderam e o levaram em uma caminhonete para um local que Di Stéfano julgava ser no centro de Caracas.

“Em uma noite, chegou um, parecia o chefe, e se chamava Canales. Explicou-me tudo: ‘Nada vai te acontecer, fique tranquilo, queremos que o mundo nos reconheça, que saiba quem somos. Nosso país, a Venezuela, é explorado pelas grandes potências no negócio do Petróleo’. Eu não fiquei tranquilo. Pelo contrário, não conseguia dormir nem nada. Estava sempre sentado no sofá e passava as horas olhando os sapatos brancos que levava comigo. Passou um dia, e eu pensava que me liquidariam, que me matariam”, relata Di Stéfano, em “Gracias, Vieja”, sua biografia, escrita por Alfredo Relaño e Enrique Ortego e lançada em 2000.

“No total, o sequestro durou três dias, quase setenta horas, que pareciam eternas. Eles se portaram bem comigo, jogavam damas, xadrez, diziam que eram estudantes. Colocavam-me para ouvir rádio, me traziam jornais. Perguntavam-me o que eu queria comer, mas o medo havia acabado com o meu apetite”, revelou o argentino.

“Contaram-me um dia que queria ter sequestrado o compositor russo Igor Stravinski, que havia viajado à Venezuela. Mas, como era um homem de pouca saúde, não quiseram arriscar que ele morresse, não queriam assassinatos”, relembrou, em outro trecho.

Eventualmente, Di Stéfano foi solto. A ideia dos sequestradores era levar o jogador próximo ao hotel onde estava o Real Madrid, mas o próprio atleta interveio afirmando que haveria muita gente da imprensa e da polícia nos arredores. Então o soltaram na Avenida Libertadores, e o Flecha Loira recorda, no livro, seu caminho até a embaixada espanhola.

“Cruzo a rua a cem por hora, driblando os carros, e paro um táxi. Atirei-me em cima dele. O taxista não sabia onde ficava a embaixada. Menos mal que eu sabia o caminho. Mantive o chapéu (que os sequestradores pediram que usasse) e ninguém me reconheceu. Chego à porta da embaixada e vejo um cartaz que dizia: ‘Aberto das 10h às 14h’. Olhei para o relógio, e eram 14h04. Meti o dedo na campainha, e quase tomei um choque. Apareceu um casal jovem. ‘Abre, abre rápido’, gritei. O rapaz me reconheceu. Não paravam de chorar, os dois’.”

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Del Río era filho de espanhóis exilados. Nasceu em 1943, em Cuba, e chegou à Venezuela com os pais em 1945. Na adolescência, juntou-se a movimentos que, na década de 1960, fundaram o Partido Comunista Venezuelano (PCV) e o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Líder de um grupo ligado ao MIR, guiou ações de enorme repercussão à epoca, como a tomada do cargueiro venezuelano Anzoátegui, que vinham ao Brasil, em 1963, e o sequestro de Michael Smolen, agregado militar na embaixada norte-americana, em 1964.

Preso por três anos no início da década de 1970, foi solto apenas quando o país declarou anistia geral em troca do fim da luta armada. Del Río então retomou sua carreira como artista e, a partir de 1998, com a eleição de Hugo Chávez, virou o artista queridinho do presidente. O episódio envolvendo Di Stéfano foi sempre lembrado pelo antigo guerrilheiro, que inclusive esteve no evento de lançamento do documentário Real: O Filme, em 2005. Um fim um tanto quanto amigável para uma história que começou com um sequestro.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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