Espanha

Como seria o futebol da Catalunha independente?

Um país independente, com seleção própria e liga de futebol ainda vinculada a outra nação. Dependeria de negociações políticas, e da boa vontade do outro lado. No caso político, a boa vontade não existe e a Espanha não deixará a Catalunha se separar facilmente. Mas, no futebolístico, a chance de sucesso seria maior.

Se a independência política vier, a RFEF (federação espanhola) não teria muitos argumentos para impedir os catalães a terem uma equipe nacional. E, como ter o Barcelona dentro de La Liga é comercialmente importante, e a LFP (Liga de Fútbol Profesional) certamente deixaria os clubes da Catalunha a continuarem disputando seus campeonatos.

Menos mal para os catalães. Se o rompimento fosse total, e o Campeonato Catalão fosse criado, o Barcelona se apequenaria rapidamente. Por mais que mantivesse seu trabalho, seria inviável manter o nível atual de gastos para ter por trás uma liga nacional que seria fraquíssima. Com tanto interesse que o clube blaugrana atrai, os demais clubes da Catalunha não conseguiram se desenvolver, e são pequenos mesmo em comparação com os times de interior de outras regiões da Espanha.

Para ilustrar essa realidade, veja a tabela abaixo. Ela elenca os 16 clubes mais fortes de Catalunha na temporada 2012/13 e as divisões em que eles estão hoje. Não há nenhuma possibilidade de competir com o resto do Campeonato Espanhol. Mas essa liga catalã seria mediana mesmo se cada região espanhola fosse desmembrada. Para comparação, também separei 16 principais equipes de Madri/Castela-La Mancha/Castela-León (centro da Espanha), País Basco e Andaluzia. Em teoria, os torneios castelhano, basco e andaluz seriam muito mais atrativos (sobretudo o andaluz, que não teria nenhuma potência, mas contaria com quatro ou cinco times para se revezar na ponta).

  Catalunha País Basco Madri/Castela Andaluzia
Barcelona
Espanyol
Athletic Bilbao
Osasuna
Real Sociedad
Atlético de Madrid
Getafe
Rayo Vallecano
Real Madrid
Betis
Granada
Málaga
Sevilla
Girona
Sabadell
Alcorcón
Guadalajara
Numancia
Mirandés
Ponferradina
Almería
Córdoba
Recreativo Huelva
Xerez
2ªB Badalona
L’Hospitalet
Llagostera
Lleida
Gimnàstic
Prat
Reus Deportiu
Sant Andreu
Alavés
Amorebieta
Barakaldo
Eibar
Logroñés
Real Unión
Sestao
Albacete
Guijuelo
La Roda
Leganés
Salamanca
San Sebastián de los Reyes
Zamora
Cádiz
Écija
Jaén
Linense
Loja
Lucena
Sanluqueño
San Roque de Lepe
Manlleu
Pobla Mafumet
Cornellà
Santboià
Laudio
Peña
Portugalete
Izarra
Beasain
Tudelano

 

Uma eventual Liga Catalã seria mais danosa ao Barcelona do que é o Campeonato Escocês para Celtic e Rangers. Na Escócia, Hibernian, Hearts e Aberdeen têm um mínimo de força em suas cidades, e conseguem criar algum apelo para servirem de coadjuvantes. Na Catalunha, o Barcelona seria o único grande, com Espanyol aparecendo como time médio de algum apelo. Todo o resto é nanico.

O apelo para o público seria mínimo, e o próprio Barcelona teria de incentivar o crescimento de forças secundárias para tornar a competição mais interessante (como, talvez, teria de fazer o Real Madrid com Atlético, Athletic e Valencia se os culés partissem). Além disso, seu papel como “o representante da causa catalã em campo” perderia força. Afinal, a Catalunha já seria independente, e o Barça teria esse papel simbólico apenas nas rodadas de Liga dos Campeões. E, mesmo assim, parte desse simbolismo ficaria a cargo da seleção catalã em Eurocopas e Copas do Mundo.

Uma seleção que realmente teria força para exercer essa função. O Barcelona forma muitos jogadores em suas categorias de base, o que cria a sensação de que boa parte da seleção espanhola é catalã. Não é bem verdade. Alguns jogadores culés nasceram em outras regiões, e continuariam defendendo a Espanha. Exemplos? Iniesta é de Albacete (La Mancha) e Pedro é de Santa Cruz de Tenerife (Ilhas Canárias). Thiago Alcântara nasceu na Itália e passou a infância na Galícia. Só foi morar na Catalunha já adolescente e provavelmente não teria passaporte catalão.

Ainda assim, uma seleção 100% catalã teria bom nível (de longe, melhor do que a de qualquer região espanhola isolada), sobretudo do meio para trás (veja ilustração abaixo). É um grupo capaz de passar pelas Eliminatórias e chegar a Copas e Eurocopas. Poderia, ainda, fazer um papel digno na fase de grupos e passar para o mata-mata em algumas oportunidades. No futuro, com o surgimento de mais jogadores, teria margem para crescer. Mas, em um primeiro momento, ainda seria mais fraca que o resto da Espanha.

A Furia não contaria com as revelações de Barcelona e Espanyol, mas se beneficiaria do bom trabalho de base de vários clubes (Real Madrid, Atlético de Madrid, Athletic Bilbao, Valencia e Sevilla). Não seria tão forte quanto a seleção bicampeã europeia e campeã mundial, mas poderia encarar potências como Alemanha, Argentina, Itália e Brasil sem problemas.

No geral, uma Catalunha independente seria uma nação de nível médio da Europa. Teria um clube que faria bom papel na Liga dos Campeões, mas com potencial econômico menor que o atual, e uma seleção que encararia nações médias da Europa. Em relação ao futebol de clubes, o resto da Espanha sentiria muito a saída do Barcelona, e toda a mídia nacional e internacional que a presença blaugrana representa. Mas, em relação a seleções, os espanhóis continuariam bem servidos.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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