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Chineses estão comprando clubes espanhóis com um objetivo: formar jogadores para o país natal

Dinheiro atrai dinheiro, diz o ditado. A China se tornou um dos mercados mais falados do futebol nos últimos anos. Nós, brasileiros, já estamos sofrendo com o apetite do dinheiro chinês há alguns anos, mas os europeus já começaram a sentir também. E a Espanha se tornou um grande alvo para os empresários chineses. Tudo com um objetivo: aprender em termos de gestão de futebol e, principalmente, desenvolver jogadores chineses e vendê-los aos ricos clubes da China.

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A ideia é bastante simples: usar os clubes espanhóis de divisões inferiores para valorizar os jogadores chineses. Contratam jogadores chineses a baixo custo e revendem aos endinheirados chineses pro uma boa quantia. Para isso, os empresários chineses miram nos clubes da Segunda B, equivalente à terceira divisão espanhola. O Hoya De Lorca foi o primeiro clube que recebeu dinheiro chinês. Depois, veio o Jumilla. Outros clubes como Palencia, Ponferradina, Balompédica e Linense estão na mira. E é fácil entender a razão.

Lian Xiang e Hui Tang são os donos do Jumilla. O diretor esportivo do clube, Francisco Serrano, mostra como funciona para os donos o negócio. “Aqui, Lian Xiang e Hui Tang querem trazer jovens chineses para formar e fazer seus negócios e operações com clubes chineses. Aqui na Segunda B se contrata um jogador por € 200 mil como muito dinheiro. Este mesmo jogador na China vale € 2 milhões”, explicou.

Todos os envolvidos sabem como funciona: usar a Segunda B como uma forma de valorizar os jogadores chineses. Isso porque mesmo com muito dinheiro nos clubes chineses, ainda há um limite de estrangeiros. Há uma demanda enorme por bons jogadores chineses e ainda há uma formação muito fraca no país. Na Espanha, porém, há uma cultura de futebol estabelecida que, na visão destes empresários que buscam os clubes menores da terceira divisão, pode acelerar a formação e desenvolvimento destes jogadores jovens – e, por consequência, gerar muito dinheiro em suas transferências.

“Nos interessa investir em clubes espanhóis porque na China estamos em um processo inicial da indústria do esporte”, afirmou Fuxiu An, diretor executivo da Beijing Sportsbank Investment & Management, principal consultoria de esportes do país, em um congresso em Madri. “Na Espanha o processo de administração dos clubes está muito maduro”,explicou ainda o empresário. “Quando você compra um clube, também faz um modelo de gestão. Assim, podemos oferecer oportunidades aos garotos chineses para treinar e competir, e logo transferir o modelo espanhol aos clubes chineses para que se desenvolvam mais rápido”, explicou.

A ideia é os clubes menores, de cidades pequenas e em comunidades que não se interessam tanto pelos clubes de futebol, porque criam menos resistência. Mas mesmo em clubes maiores, como o Espanyol, os chineses querem absorver o que puderem. O clube foi comprado pelo Rastar Group , que já investiu € 130 milhões desde que assumiram. “A eles interessa o know how”, diz Ramón Estella, diretor executivo do Espanyol. “Na Europa, quem não jogou futebol na escola ou na rua? Você sente e vive desde pequeno. Na China não. Os empresários chineses querem formar seus próprios jogadores para criar sua própria Super Liga e sua própria seleção nacional”.

“Você pode trazer jovens jogadores chineses à Espanha para que se desenvolvam em clube como o Lorca ou o Jumilla”, afirma Eric Geng, diretor de negócio internacional da China Media Capital, empresa que financia meios de comunicação especializados em esporte. “Esta pode ser a lógica. A Espanha tem a melhor escola d efutebol do mundo e para um jovem chinês, participar de alguma maneira disto pode ser magnífico para aprender”.

O diretor esportivo do La Hoya, Hoaquín Romeu, também falou sobre como os empresários trabalham. “Wu Lei é o chinês que mais fez gols na Super Liga da China”, afirma. “Mas não teria nível para jogar em um clube do meia da tabela da primeira divisão espanhola. O negócio destes empresários está em trazer jogadores chineses para a Espanha a custo zero, inscrevê-los em uma competição, fazê-los jogar um ano e valorizá-los para logo colocá-los em clubes da China”.

É só ver o que investidores chineses já conseguiram fazer em clubes maiores , como o Atlético de Madrid. Wang Jianlin investiu € 50 milhões para ser dono de 20% das ações do clube. Por exigência sua, viu Xiu Xu entrar em campo em amistosos de verão, em 2015, sob o comando de Diego Simeone. Suficiente para valorizá-lo e vendê-lo para o Guangzhou Evergrande por € 4 milhões.

Outros dois clubes da primeira divisão espanhola recebem dinheiro chinês. O Granada tem o conglomerado Wuhan Double como investidor e já desembolsou € 35 milhões no clube. O Celta tem o Citic Group entre seus investidores, com investimentos entre 100 e 150 milhões de euros.

Os chineses sabem que precisam se desenvolver. Investem em infraestrutura, em jogadores, técnicos e até em profissionais de gestão. Mas para desenvolver em um nível satisfatório, os chineses parecem dispostos a muito mais. E isso só fez com que empresários percebessem a oportunidade de, ao saldar a dívida de alguns clubes menores da terceira divisão, terem a seu dispor uma incubadora de talentos. Levam jogadores chineses para aprenderem em uma das nações que tem melhor formado seus jogadores, na esperança que eles se desenvolvam e, no caso dos empresários, que se valorizem. Ao que parece, o negócio tem valido muito a pena.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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