EspanhaLa Liga

Bascos e catalães celebraram os 100 anos da luta pela própria identidade através do futebol

O futebol espanhol optou por encurtar sua pausa de fim de ano nesta temporada. Antes da virada, La Liga ainda conta com uma rodada cheia no meio da semana. Entretanto, o país não deixou de aproveitar os dias posteriores ao Natal para manter uma de suas maiores tradições. Se os clubes costumam parar, os torcedores ainda vão as arquibancadas. E não apenas para apoiar seu time, mas para exibir o orgulho regional. Neste sábado, a data reservada pela Fifa às seleções das comunidades autônomas contou com um verdadeiro clássico. Catalunha e País Basco se enfrentaram no Camp Nou, em evento também para exibir o orgulho regional – sobretudo aos catalães, mais empenhados nos últimos tempos em busca da independência.

O futebol serviu de prerrogativa para reafirmar a identidade de ambas as nacionalidades. Em 2014, o duelo havia acontecido pela primeira vez no novo Estádio de San Mamés, diante de 40 mil torcedores. Já o tira-teima, após empate por 1 a 1, acabou marcado para o principal palco do catalanismo – de corriqueiras manifestações nas arquibancadas em jogos do Barcelona, de mosaicos a aplausos. O Camp Nou não estava apenas parcialmente cheio, mas não dá para reclamar dos 51 mil espectadores nas arquibancadas imensas. Além disso, o estádio estava devidamente decorado com bandeiras e símbolos para exaltar as duas culturas.

Em campo, o País Basco contava praticamente com um combinado de seus três principais clubes: Athletic Bilbao, Real Sociedad e Eibar. Desta vez, nenhum basco que atua fora da Espanha foi chamado – o que significa deixar de fora nomes como Xabi Alonso, Javi Martínez, Ander Herrera e César Azpilicueta. Já os catalães extrapolaram a base formada por Barcelona e Espanyol, embora os nomes de maior destaque fossem mesmo os blaugranas, como Sergio Busquets e Gerard Piqué. E o duelo entre as seleções acabou tendo rumo parecido com o último grande embate de seus clubes mais representativos: a Supercopa da Espanha, quando a decisão entre Athletic Bilbao e Barcelona também serviu para manifestar o nacionalismo.

pique

Conteúdos relacionados

Carrasco do Barcelona naquela ocasião, Aritz Aduriz mais uma vez teve papel decisivo. Aos 40 minutos do primeiro tempo, o centroavante recebeu cruzamento dentro da área e fuzilou, anotando o tento da vitória por 1 a 0. Nos últimos quatro duelos entre bascos e catalães, o veterano balançou as redes quatro vezes, uma por jogo. Mas, apesar da derrota, os anfitriões trataram de exaltar o evento, especialmente diante da oportunidade de reforçar seu orgulho nacional. Em setembro, durante as eleições parlamentares da comunidade autônoma, os catalães também votaram sobre os anseios de independência. Já em novembro, o Parlamento da Catalunha aprovou uma declaração de independência, pressionando o governo sobre o separatismo – já que o poder federal mantém firme sua decisão de não autorizar aos catalães nem mesmo um referendo, nos moldes que foi realizado na Escócia.

Além do mais, o jogo deste sábado teve um caráter especial. Serviu para comemorar os 100 anos do primeiro duelo entre País Basco e Catalunha, que aconteceu em 1915. Em tempos nos quais a Copa do Rei envolvia os campeões das comunidades autônomas, a federação espanhola decidiu realizar amistosos entre as seleções de quatro grandes regiões do país. Naquela oportunidade, o País Basco goleou a Catalunha por 6 a 1 no antigo San Mamés. Desde então, as duas equipes se enfrentaram 14 vezes, com oito vitórias dos bascos e apenas uma dos catalães.

catalunha

E, acima do significado para os anseios que possuem hoje, as seleções também representam parte importante da história da Espanha. Durante a Guerra Civil, a equipe basca realizou uma excursão por diversos países, visando arrecadar fundos e divulgar a sua luta pela república, assim como para financiar os hospitais no exterior que recebiam refugiados e para ajudar as crianças bascas a serem retiradas do país em segurança. O primeiro jogo da equipe aconteceu justamente em 26 de abril de 1937, data em que a força aérea espanhola bombardeou a histórica cidade basca de Guernica, símbolo regional. Ao longo de dois anos, a seleção basca disputou amistosos em nove países diferentes, apesar das tentativas da Fifa em proibi-la. Já em 1939, com a instauração da ditadura de Francisco Franco, o time acabou dissolvido e boa parte dos melhores jogadores bascos se exilou.

Ao longo do franquismo, as equipes das comunidades autônomas permaneceram vetadas, com raríssimos amistosos disputados. No entanto, em fevereiro de 1971, dois anos antes do fim da ditadura, País Basco e Catalunha se enfrentaram em San Mamés. O duelo tinha como pretexto a homenagem ao ex-árbitro Juan Gardeazábal, mas seu valor ia além, indicando a abertura pela qual o país passaria ao longo das décadas seguintes. Desde os anos 1990 os amistosos realizados pelas seleções passaram a ser frequentes. Acima da oportunidade de se clamar a independência, todavia, se coloca a história de lutas por liberdade à própria identidade, que se empreendeu através do futebol.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo