BrasilEspanhaLa Liga

As reminiscências de Ronaldinho sobre seus tempos mágicos no Barcelona

Em longa entrevista à Four Four Two, o craque falou de diferentes momentos da carreira, mas especialmente sobre a passagem pelo Barcelona

Um sorriso. Um sorriso conseguia abrir mundos. Um sorriso provocou milhões de outros sorrisos ao redor do mundo. Ronaldinho Gaúcho viveu anos espetaculares no Barcelona. Ergueu taças, protagonizou vitórias históricas, marcou golaços, enfileirou marcadores com seus dribles deslumbrantes. Mas não há símbolo maior deste período do que o riso largo no rosto do camisa 10, dentro e fora de campo. Era sempre o primeiro gesto para fazer tanto, para conquistar tanta gente.

VEJA TAMBÉM: A emocionante carta que Ronaldinho escreveu para o Ronaldinho de oito anos de idade

Aos 37 anos, Ronaldinho olha para trás com orgulho. Com outro enorme sorriso. Na edição de março da revista Four Four Two, o Bruxo deu uma longa entrevista ao repórter Chris Flanagan. Falou principalmente sobre a sua passagem pelo Barcelona, relembrando os detalhes da jornada fantástica pelo Camp Nou. Tempos bons de se assistir e tempos bons de se ouvir, por toda a magia que exala de suas palavras.

O início do sonho

Ronaldinho – Os melhores momentos do gênio haviam se completado quando ele chegou aos 27. Aquela foi sua última grande temporada pelo Barcelona, quando já possuía dois prêmios de melhor do mundo e um título da Champions. Eram 21 tentos por torneios continentais e 32 pela Seleção, com a qual havia vencido a Copa de 2002 e decepcionado em 2006.

Ao relembrar seus primórdios na Catalunha, Ronaldinho parece não ter dúvidas de que aquele era o seu destino: “Sim, eu poderia ter ido a outro clube, mas eu fui ao Barcelona por minha amizade com Sandro Rosell. Eu poderia ter jogado pelo Manchester United. Meu irmão estava estudando o que eu poderia fazer depois do PSG. Eu tinha vencido a Copa do Mundo e muitas portas se abriram. Mas quando Sandro entrou para a diretoria, tive a chance de conhecer o clube e a cidade. A escolha se tornou fácil”.

VEJA TAMBÉM: Como a final de 2006 consagrou o Barça de Ronaldinho e moldou o destino do Arsenal

Há uma própria questão de sonho na referência do Gaúcho aos blaugranas. Romário, Ronaldo e Rivaldo sempre ocuparam o seu imaginário, mesmo que tempos depois tenham se tornado seus parceiros em campo. De certa maneira, ir à Catalunha era manter um legado. “Fazer parte daquele time era um grande prazer, do início ao fim. Todos tinham a mesma mentalidade. Nós sentimos que o projeto estava indo na direção certa. Nenhum jogador no time tinha dúvidas – nem sentíamos pressão. De verdade, nem um pouco. Eu estava muito feliz jogando pelo mesmo clube pelo qual os meus heróis jogaram antes”, apontou.

O camisa 10, inclusive, não esconde a satisfação que sempre foi jogar com seus ídolos na Seleção, de seguir os seus passos: “Eu joguei pelo Brasil em uma época fantástica. Estava sempre atuando ao lado dos meus heróis. Em pouco tempo, meus heróis se tornaram meus companheiros, meus amigos. A cada vez que era chamado para jogar com eles, era outro sonho que se tornava realidade. Ainda hoje eu fico deslumbrado. A cada vez que cumprimento o Ronaldo, que abraço o Romário, que vejo o Rivaldo, que estou no mesmo lugar com Roberto Carlos ou o Cafu, é sempre emocionante pra mim. Eles serão sempre meus heróis”.

O impacto imediato

Para Ronaldinho, seu jogo mais memorável pelo Barcelona foi logo a estreia no Camp Nou, diante do Sevilla. Em uma noite atípica, o meia já deixou uma excelente impressão sobre os blaugranas. A vitória não veio, com o empate por 1 a 1. Mesmo assim, o brasileiro anotou um golaço. Arrancou de trás do meio de campo, fintou dois marcadores e soltou a bomba do meio da rua, no ângulo.

“Aquela partida começou à meia-noite e um. Havia uma briga com a federação e tivemos que jogar no Camp Nou lotado nessa hora, no meio da semana. Foi primeira e única vez em que joguei num horário desses. Mas não teve problema – é minha hora favorita do dia… Marquei um golaço e o estádio foi à loucura”, relembra. Por falar em insanidade, aliás, um assunto recorrente é a sequência humilhante para cima de Carlos Gurpegui: “Teve esse cara do Athletic Bilbao, ele estava me chutando a partida inteira. Então, eu levantei a bola e dei três chapéus nele!”.

O repertório era vastíssimo. E apesar da fama de seus lençóis, Ronaldinho demonstra um carinho especial por outro truque que o consagrou: o elástico. “De longe, é o meu drible preferido. Eu sempre sabia como fazê-lo funcionar. Não é apenas um belo movimento, mas uma jogada que abre espaços. Logicamente, você pode usar outros dribles para ganhar, para esfriar um jogo, para enganar facilmente um defensor. Mas o elástico é o melhor, o mais artístico e o mais produtivo. Quando eu acertava, o adversário cairia”, aponta.

As façanhas

Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona (Foto: AP)

Os primeiros meses de Ronaldinho no Barcelona, em 2003/04, não foram tão bons em termos de resultado. A equipe demorou a engrenar. Terminou o primeiro turno do Campeonato Espanhol no 12° lugar, com apenas sete vitórias em 19 rodadas. O camisa 10 sofrera uma lesão no tendão de Aquiles, ficando de fora em uma sequência de quatro jogos em jejum, incluindo aí uma goleada do Málaga por 5 a 1. Ainda assim, o grupo não perdeu a confiança e protagonizou uma reviravolta na metade final da competição. Arrancou ao quarto lugar, garantindo a vaga na Champions. E o craque demonstra toda a sua gratidão com Frank Rijkaard, responsável pela equipe.

VEJA TAMBÉM: Relembre o quase-gol mais antológico de Ronaldinho

“Foi maravilhoso trabalhar com Rijkaard. Ele é o técnico com quem atuei por mais tempo, o melhor técnico que eu tive. Eu poderia passar um dia inteiro dizendo coisas boas sobre ele. Não apenas por ter sido um grande jogador, mas ele também entendia o que é importante ao elenco. Ele tornou um prazer para nós jogar em seu time. Nós queríamos treinar por ele, jogar por ele, sermos os seus companheiros de time. Ele fez tudo ser especial”, apontou.

Já a partir da temporada seguinte, os sucessos se tornaram inescapáveis. O Barça faturou La Liga em 2004/05 e repetiu a dose com o bicampeonato em 2005/06. O ápice daquela geração: “Nós não conseguíamos parar de ganhar naquela temporada, era viciante. A cada ano depois que eu cheguei ao clube, nós compramos bons jogadores. Com o Barcelona se tornando mais forte financeiramente, o time fluiu melhor. Todo mundo estava em um grande momento ao mesmo tempo, era muito fácil. Deco só me dava bons passes, Eto’o sabia sempre o que fazer. Ninguém queria soluções difíceis. Nós pensávamos que poderíamos bater qualquer um”.

E então, veio a conquista que terminou de consagrar aquele Barcelona: a Liga dos Campeões de 2006. Os blaugranas encararam uma final duríssima diante do Arsenal, que saiu em vantagem no Parc des Princes, mesmo depois da expulsão de Jens Lehmann. Apesar do susto, Ronaldinho demonstra uma confiança inabalável para falar sobre o ambiente de sua equipe naquela partida.

“Nunca duvidamos que ganharíamos aquela decisão. Mesmo quando eles saíram em vantagem, nós sabíamos que tinham um homem a menos e isso custaria um preço. Apenas percebemos que não precisávamos ter pressa, mas sim jogar o nosso futebol. Poderia ter sido mais do que 2 a 1 – nós mantivemos o placar para o Belletti poder dizer que marcou o gol decisivo!”, relata, brincando com o lateral.

Os clássicos

Outras memórias especiais para R10 se concentram em seus duelos com o Real Madrid. O primeiro deles, inclusive, conta com uma vitória emblemática no Estádio Santiago Bernabéu, que impulsionou os culés na recuperação em 2003/04, durante o segundo turno. O brasileiro não balançou as redes, mas fez melhor, com um passe magistral para Xavi anotar o gol decisivo aos 41 do segundo tempo.

VEJA TAMBÉM: Clássico em que o Bernabéu se rendeu e aplaudiu Ronaldinho completa 10 anos

“Apenas aconteceu, foi tudo muito rápido. Foi um ataque atípico, porque Xavi estava na área. Nós esperamos o bandeira, porque não sabíamos se estava impedido ou não. Mas houve uma grande mudança a partir deste jogo. Quando voltamos para Barcelona e desembarcamos no aeroporto, poderiam pensar que a gente tinha conquistado um título – muita gente nos esperava. Foi um resultado surpreendente”, analisa.

Depois, teria mais. Em particular, outro dérbi na casa dos rivais, em novembro de 2005. Autor de dois gols, o gaúcho só não fez chover. Foi ovacionado pelos torcedores merengues: “Eu valorizo os aplausos no Bernabéu muito mais agora do que antes. Na época, eu não dei tanta importância, porque eu precisava pensar no que viria depois da partida. Mas agora… Pouquíssimos jogadores tiveram essa honra lá. Hoje em dia, eu sou três vezes mais feliz quando me lembro disso. Muitos dos meus amigos me mandam os vídeos desses gols. Eles sabem que eu não assisto aos meus gols online – eu só vejo os vídeos das canetas que eu dei”.

Além disso, Ronaldinho comentou sobre o clima que ajudava a criar dentro do próprio vestiário antes dos clássicos. Algo, na sua visão, importante para que o time pisasse no gramado mais leve e fizesse o seu trabalho melhor: “Eu frequentemente fazia coisas para motivar meus companheiros nos vestiários, especialmente contra o Real Madrid. Eu tinha que fazer isso, porque esse é um clássico que coloca em campo os melhores jogadores do planeta e muitos dos melhores da história. Eu me lembro de um gol que marquei cobrando falta – na barreira, estavam Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham… Para jogar o clássico, você precisa se aliviar do estresse”.

O final

ronaldinho14

Além de gênio em campo, Ronaldinho também foi inteligentíssimo ao antever o futuro do Barcelona em Lionel Messi. Adotou a jovem promessa como um irmão mais novo e foi importante em seu desenvolvimento. Parceria que durou por alguns meses, mas repercute no Camp Nou ainda hoje.

“Todo mundo viu que ele era fantástico desde o primeiro dia. Eu queria fazer com ele o que outros fizeram por mim: ajudá-lo a se firmar no time, porque o talento dele era bem óbvio. Quando eu comecei no Grêmio, alguns jogadores experientes me ajudaram, meus amigos Beto e Guilherme. Eu queria devolver o que recebia”, fala, sobre o sucessor.

Já sobre a sua saída do Camp Nou, o meia não demonstra qualquer mágoa. Fala como se a transferência para o Milan fosse um processo natural. E reafirma que Pep Guardiola queria contar com ele, embora a vontade do camisa 10 fosse seguir em frente para um novo clube: “Eu queria realmente algo diferente, foi por isso que eu decidi deixar o Barcelona. Continuo com muitos amigos no clube e eles sempre foram muito generosos comigo. Antes de deixar o Barcelona, conversei com Pep. Ele queria que eu ficasse, mas eu desejava tentar algo novo, e foi isso. Nós temos uma boa amizade. Não só com ele, mas também com seu irmão, desde os tempos em que eles estavam no time B. Nós sempre fomos amigos. Se eu jogasse com Guardiola, não seria diferente. Eu escolhi sair naquele momento. Rijkaard e eu chegamos juntos, e saímos juntos. Quando eu vejo o Barcelona hoje, vejo muito do time que criamos”.

Por fim, sem modéstia, Ronaldinho avalia o que representou ao Barça: “Aqueles anos foram um momento definitivo para a minha carreira e para o clube. Desde então, o futebol tem melhorado e nós merecemos algum crédito por isso. Eu estava muito feliz no Barcelona, assim como estava feliz em conquistar a Copa do Mundo de 2002 – e ainda acho que há mais felicidade por vir”. E então, o sorriso inconfundível volta à face.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo