Dizer que a Espanha é um time defensivo é uma afirmação controversa. A discussão sobre o estilo de jogo dos espanhóis vem de longe, especialmente desde a conquista da Copa de 2010 e da Eurocopa de 2012, com os dois títulos recebendo elogios e críticas. O rótulo de tiki-taka está colocado no time, mas outros adjetivos foram colados no time: alguns chamam de chato, outros de encantador. Vicente Del Bosque já deu entrevistas algumas vezes dizendo que não gosta do rótulo de tiki-taka dado à Espanha. Desta vez, foi além: disse que a seleção espanhola é defensiva. A entrevista para o jornal Guardian traz vários pontos interessantes sobre essa discussão, que ficou forte até no Brasil quando se falava em tiki-taka e em Espanha, além das inevitáveis comparações com o Barcelona.

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Desde que ganhou a Eurocopa de 2008, a Espanha tem sido rotulada como o time do tiki-taka. O técnico Luis Aragonés implantou o estilo de jogo no time já desde antes disso, nas Eliminatórias para aquele campeonato europeu, após a Copa do Mundo de 2006. A posse de bola era a principal característica, uma arma para dominar as partidas e tirar completamente o adversário do jogo. Por isso, alguns passaram a ver o estilo como sim, defensivo. Uma crítica que, por vezes, era também questionada, já que permitia ao Barcelona ser uma máquina ofensiva, marcar muitos gols e dominar adversários dos mais complicados. Mas o Barcelona era uma história diferente. Pep Guardiola aprimorou aquele tipo de jogo no Barcelona, tendo mais talento e mais agressividade – e ganhando também mais fama. Tinha Messi, algo que fazia diferença demais. O time tinha definidores – de Eto’ e Ibrahimovic no início até Messi, atuando no que se tornou conhecido como falso nove.

O técnico Vicente Del Bosque é um dos mais bem sucedidos da história do futebol espanhol. Se tornou técnico no Real Madrid, onde conquistou duas vezes o Campeonato Espanhol, duas vezes a Champions League e o Mundial de Clubes. Tudo isso quase que por acaso. O técnico contou em entrevista ao Guardian que pretendia só trabalhar em categorias de base, mas foi chamado para ser o técnico principal do Real Madrid, em 1999 e acabou ganhando diversos títulos. Foi assim que assumiu a seleção espanhola – e entrou para a história do futebol do país.

Vicente Del Bosque assumiu a Espanha partir da conquista de 2008 e tinha uma missão difícil ao substituir o técnico que finalmente levou a Roja a um título. Mesmo assim, levou a Espanha à conquista da Copa do Mundo de 2010 e à Eurocopa de 2012. Em 2014, o time acabou atropelado e foi eliminado na primeira fase. Ele rejeita o rótulo de tiki-taka e explicou por que considera o time defensivo, além do senso comum que a expressão traz, de posse de bola e jogo ofensivo.

“[Tiki-taka] É uma simplificação. Se você colocar um rótulo na Espanha, você não nos chamadia de defensivo, você diria tiki-taka, que implica em ter a bola, jogar futebol ofensivo, mas nós temos sido muito defensivos também. Nós fomos campeões marcando poucos gols e sofrendo muito poucos também e nós continuamos nessa dinâmica. As pessoas não nos chamam de defensivos, mas ainda assim…”, afirmou o treinador.

A afirmação faz sentido. Em 2010, a Espanha fez sete jogos na Copa e marcou oito gols e sofreu dois. No mata-mata, não tomou um gol sequer. O time foi seguro defensivamente e isso foi fundamental, já que o ataque não marcava tantos gols. Em 2012, a história foi parecida. O time marcou muito mais gols, 12 em seis jogos, mas oito deles foram em duas partidas. Na primeira fase, o time fez 4 a 0 na Irlanda. Na final, venceu a Itália por 4 a 0. A defesa sofreu só um gol durante todo o torneio. O time raramente era batido na defesa. Por isso, realmente a afirmação que a Espanha é um time defensivo faz sentido.

Seleções cada vez mais iguais
Jogadores espanhóis comemoram gol da vitória (AP Photo/Diario AS, Juan Flor)
Jogadores espanhóis comemoram gol da vitória (AP Photo/Diario AS, Juan Flor)

O treinador da seleção espanhola acha que o estilo de jogo de cada seleção, ao menos das europeias, se perdeu, pela mistura de influências de jogadores de diversas nacionalidades nas grandes ligas. “A pureza de cada estilo se perdeu. Eu não acho que há muita diferença entre qualquer dos países. Talvez eu esteja perdendo alguma, mas mesmo na seleção nacional, a Inglaterra passou a parecer como outras seleções do continente”, declarou o treinador. Como mostramos neste post, a maioria dos jogadores na Inglaterra e na Itália são estrangeiros. Na Espanha, o número é de quase metade dos jogadores.

Apesar dessa perda de estilo nacional com o intercâmbio dos jogadores, Del Bosque não acredita que os times perderam a sua identidade por não ter jogadores locais. Há uma preocupação por ter estrangeiros demais nos grandes clubes europeus, mas o técnico espanhol não acha que este seja o problema.

“Kubala não nasceu em Las Ramblas, Gento nasceu em Guarnizo, não em Madri, Puskas marcou a história do Real Madrid e os definiu e era húngaro. Eu não acho que os jogadores têm que ter nascido na cidade. Mas é verdade que clubes como o Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Villarreal e Sevilla trabalham tão bem nas suas categorias de base e têm tanto talento que eles podem e devem usar isso. Não estou dizendo que deveriam ser titulares, mas parte do elenco. Se você tem alguém que vai começar cinco ou 10 jogos por ano, por que não ser alguém da base? Isso faz sentido; é obrigatório. Os clubes decidem, não eu, mas é claro que torna o trabalho mais difícil para nós [quando há menos espanhóis]”, disse.

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A base do sucesso da Espanha

“Eu gosto de lembrar as pessoas que nós temos as nossas próprias características, mas nós não somos realmente diferente da França ou da Alemanha ou de outros países ao nosso redor. Mas no passado, nós sempre tivemos esse complexo e agora ele não existe. A prova é que os jogadores foram para o exterior e provaram ser tão bom quanto qualquer outro. Além disso, nós fizemos as coisas do jeito certo: há uma estrutura, um aumento nas estruturas de elite, uma configuração muito boa para treinadores, até mesmo a cultura do público em geral melhorou”, analisou.

“Nós trabalhamos no lado técnico do nosso jogo; isso se tornou a nossa fundação. Costumava ser a moda concentrar no lado físico do jogo: físico, físico. Mas tudo está mais integrado agora. Assista qualquer treino em qualquer time e você não verá mais trabalho físico, mas sim técnico e tático. Está tudo ligado agora. Há também uma espécie de febre tática, como se tática fosse tudo. Felizmente, eu acho que encontramos um equilíbrio agora. Nós também tivemos muita sorte ao longo do caminho, não podemos ignorar isso. Eu acho que nós estávamos predestinados a sermos campeões do mundo”, continuou.

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Diego Costa: problema?
Diego Costa lamenta (AP Photo/Petr David Josek)
Diego Costa lamenta (AP Photo/Petr David Josek)

A Espanha parece sofrer com Diego Costa, que tem um estilo de jogo muito físico, ao contrário do estilo de muita paciência e de ataque pouco agressivo da seleção. Mas para Del Bosque, o atacante não é um problema. Ao contrário, ele acredita que o jogador é o futuro.

“Nosso meio-campo é bom com a bola, com jogadores que tem um bom toque de bola, então precisamos de atacantes que criam espaço, que se movimentam, que incomodam os defensores, os ocupam, e Diego Costa faz isso. Como Diego Costa pode ser prejudicial para nós? Nós o temos, então ele pode entrar atrás dos defensores, correr por corredores, cair pelas pontas. Nós não tivemos muita sorte com ele, mas não há nada que vá contra o nosso estilo. Agora estamos escolhendo entre ele, Morata e Paco Alcácer; em princípio, esses três são o futuro.

A Espanha chega para a Eurocopa tentando retomar o posto de favorito que tinha até a Copa do Mundo. Agora, precisa mostrar isso no campo. E aparentemente, Del Bosque continuará apostando em Diego Costa.