Em boa parte das vezes em que ganhou as manchetes, Antero Henrique o fez pelos motivos errados. O antigo diretor esportivo do PSG deixou o clube depois de desentendimentos com a alta cúpula parisiense e mesmo com jogadores, como Thiago Silva. Leonardo chegou no início da temporada para ocupar seu lugar, e sua atuação em público não poderia ser melhor neste começo de trabalho.

Ainda é cedo para se julgar o trabalho de Leonardo em seu retorno ao PSG como diretor de futebol. Sequer uma temporada foi completa, e, mesmo ao fim da atual campanha, ainda será cedo. Os impactos técnicos de alguém que ocupa tal cargo se medem a longo prazo, observando política de contratações, relação com técnico e elenco e gestão de crises. Neste aspecto, o brasileiro tem sido exemplar.

Leonardo esteve particularmente inspirado na noite de domingo, depois da vitória por 4 a 2 do PSG sobre o Lyon. Diante dos comentaristas do programa Canal Football Club, em um link direto do Parque dos Príncipes, esbanjou bom humor, pensamento rápido, tiradas e um bom tom para fazer tudo ao mesmo tempo: exaltar Neymar e Mbappé e desarmar as pequenas crises em torno da dupla, elevar o PSG como figura e ainda tirar pressão do confronto contra o Borussia Dortmund, pela Champions League.

Questionado sobre o que fez ou disse a Neymar para que o jogador voltasse a seu melhor nível, Leonardo comentou que “Deus lhe deu talento, ele nasceu assim”. Aproveitou a ocasião, então, para colocar panos quentes na pequena polêmica sobre seu aniversário.

“As pessoas começam a falar da festa: ‘Vamos ver se essa situação será bem gerida’. Não houve nenhuma influência interna, e, depois, o jogador sabe o que o PSG pensa, e nós sabemos como o jogador é. E não há problema nenhum aqui”, afirmou.

Para Leonardo, é preciso se observar o que acontece em campo, e, nisso, não há motivos para reclamações. “Hoje, ele está muito comprometido, muito feliz, segundo ele mesmo. É um jogador fantástico e que está em boa fase. O que podemos dizer? Estamos contentes de tê-lo, é maravilhoso.”

(“Se o Leo é seu pai, você fica tranquilo na reunião de pais e mestres.”)

Já que estava no ritmo, emendou outra defesa, desta vez a Mbappé, criticado na imprensa francesa por causa da discussão com Thomas Tuchel ao ser substituído na vitória por 5 a 0 sobre o Montpellier.

“Estamos também contentes de ter o Mbappé, (alvo de outra situação) que também me incomoda. Se um jogador sai de campo nervoso e discutindo com o treinador, ok, é um erro, vamos falar disso internamente, vamos lidar com a situação. Mas, depois, dizerem que é um menino mimado, que é isso e aquilo, isso eu não vou aceitar. Porque é uma pessoa adorável, muito comprometida também.”

O diretor de futebol do clube parisiense então inverteu os papéis, perguntando aos comentaristas do Canal+ quem eram os cinco melhores jogadores do mundo. Os jornalistas listam Neymar, Mbappé, Messi, Cristiano Ronaldo e Salah, dando a Leonardo a janela para matar a conversa: “No top 4, não sei a ordem, mas, dos quatro, tem um de 32 anos, um de 35 anos, e os outros que vocês disseram são Neymar e Mbappé. Eles têm 28 e 21 anos. E nós temos isso. Só o PSG os tem”.

Leonardo fez ainda questão de contextualizar o confronto de oitavas de final da Champions League com o Borussia Dortmund, a partir do próximo dia 18. Iniciou uma narrativa até então pouco visada ao se falar de PSG na competição: não é vida ou morte. Para ele, existe muita negatividade em torno do clube.

“Acho que, todos os anos, quando nos aproximamos das oitavas de final da Champions League, começam a dizer que a equipe não está pronta, que a Ligue 1 não está no nível para preparar o Paris. Quero entender por que isso. A equipe é a primeira no campeonato. Na Liga dos Campeões, fizemos quase o máximo: cinco vitórias e um empate. Temos um elenco incrível. A fase de nosso melhor jogador (Neymar) é do mais alto nível.”

“Por que é preciso haver preocupação com as oitavas da Liga dos Campeões? Não é vida ou morte o jogo contra o Borussia Dortmund, é um jogo de futebol. Penso que a equipe está pronta. Se ganharmos, bem, se não, está tudo bem, a gente continua, o PSG irá crescer. A gente tem que sair um pouco desse discurso. Hoje foi normal, vencíamos por 3 a 0, enfrentávamos o Lyon, que teve um bom momento e marcou dois gols. O Dortmund também sofreu três ou quatro gols (derrota por 4 a 3 para o Leverkusen no sábado)”, complementou.

Como um encantador de críticos, o dirigente, com suas palavras firmes e seu bom humor, deixou os jornalistas sem reação, com alguns deles concordando que a cobertura em torno do PSG era desproporcionalmente negativa. “Será bom para a França se chegarmos à final, não só para o Paris. Não sei por que entrar em negatividade. Não é proibido estar feliz com o que temos”, reclamou.

Se ainda é cedo para julgarmos o trabalho como diretor de futebol do PSG, Leonardo já tem se saído, ao longo da temporada, como um excelente escudo ao clube, tomando os microfones em situações de críticas não só à instituição, como aos jogadores e mesmo o técnico. Em campo, a tarefa dos parisienses é aprender com os erros dos últimos anos. Fora dele, o brasileiro tem seguido a cartilha certa para aliviar a pressão do ombro de seus subordinados.