O grande assunto dos últimos momentos de janela aberta de transferências na França não foi alguma contratação bombástica. A situação de Dimitri Payet ganhou contornos folhetinescos, semelhantes aos vividos por Stéphane Sessegnon no Paris Saint-Germain. Por falar no PSG, o clube da capital está envolvido em mais esta história, mas com um papel menor. Além do jogador, o outro protagonista deste roteiro se chama Saint-Etienne. Em comum, todos os três envolvidos saem derrotados no final.

Tudo começou quando Payet colocou na cabeça que deveria deixar o ASSE e se transferir para o Paris Saint-Germain. Nada de estranho nisso, a não ser pela forma como o jogador quis conduzir a transação. O meia-atacante simplesmente peitou o Saint-Etienne, quase como se estivesse chamando o clube para a briga. Deixou de ir aos treinos e, com isso, achava que conseguiria dobrar a diretoria e forçar a barra para sair dos Verdes da pior forma possível.

Payet já estava descontente com a diretoria após ver as negociações para a renovação de seu contrato ficarem para o próximo ano. Embora seu descontentamento seja justificado, o jogador não poderia responder com uma atitude de imaturidade – ainda mais quando ele tem sido convocado para a seleção francesa. O técnico Laurent Blanc certamente repensará a decisão de chamá-lo para futuras listas.

Desde sempre, o Saint-Etienne deixou claro que não negociaria um de seus principais jogadores, qualquer que fosse o valor oferecido a ele. O Paris Saint-Germain entra na história neste momento, ao demonstrar seu interesse no meia-atacante. Era o suficiente para atiçar a briga entre Payet e a diretoria do ASSE, com os dois lados subindo o tom das declarações. A queda de braço estava armada.

A diretoria do ASSE adotou o termo “chantagem” para se referir à atitude de Payet. Nada mais adequado, já que o jogador transformou uma questão até certo ponto simples em um monstrengo. O PSG até ofereceu € 8 milhões para contratá-lo, mas o Saint-Etienne disse ‘não’. O meia-atacante havia viajado para a capital com o intuito de fechar os detalhes de sua transferência, mas nada deu certo. Os Verdes deram a palavra final e ganharam a disputa. Ou melhor, seus problemas apenas haviam acabado de começar.

Agora, Payet volta para o Saint-Etienne, com o qual tem contrato até junho de 2013. No entanto, com qual clima ele ficará no clube que se recusou a negociá-lo e com o qual travou intensa batalha para dele se separar? O atleta já sentiu a pressão por continuar no Geoffroy-Guichard após a polêmica. Ele disse ter recebido ameaças de morte por telefone, assim como seu agente Jacques-Olivier Auguste.

A diretoria do Saint-Etienne também sentiu que não será fácil controlar um jogador descontente. Após a transferência para o PSG naufragar, Payet faltou a outro treino da equipe. Se a reação dos dirigentes, demais jogadores, treinador e da torcida dos Verdes já seria algo para se preocupar, o jogador ainda precisa conviver com a repercussão negativa que sua rebeldia pode lhe causar na seleção francesa.

Para quem prega pela limpeza da imagem dos Bleus depois da rocambolesca passagem da equipe pela África do Sul, a atitude de Payet geraria no mínimo um puxão de orelhas, mas as consequências devem ser mais graves. Há um exemplo fresco na memória. Hatem Ben Arfa ganhou sua disputa com a diretoria do Olympique de Marselha para forçar sua saída do clube e ir para o Newcastle. Ele, que também havia faltado a um treino do OM, ficou fora das convocações de Blanc para os jogos contra Bielorrússia e Bósnia. Depois, o jogador sofreu uma grave lesão.

Payet forçou a barra para deixar o Saint-Etienne e não conseguiu. Agora, precisa arcar com as consequências de sua atitude exagerada. Ficará em um time no qual não sente mais desejo de atuar, além de ter criado uma imagem de antipatia para os torcedores verdes. Em tempos de renovação da seleção, ele perde uma chance impressionante de conquistar seu espaço nos Bleus por conta de uma irresponsabilidade. O ASSE, por sua vez, ganha respeito por peitar o “rebelde”, mas também terá um peso-morto em seu elenco. Se não enquadrar Payet logo, os Verdes correm risco de sofrer uma derrota ainda mais dura neste episódio.

Disparada

Contra times na zona de rebaixamento, Lille e Paris Saint-Germain cumpriram sua parte. As vitórias sobre Lens e Arles-Avignon eram uma obrigação, mas os triunfos dos dois primeiros colocados tiveram sabor mais adocicado. Seus concorrentes mais próximos patinaram na 21ª rodada da Ligue 1 e, com isso, LOSC e PSG abriram uma vantagem confortável para eles.

No dérbi do norte francês, o Lille demonstrou que um time vencedor se faz também com um bom banco de reservas. Em um jogo de raras chances (apenas dois chutes na direção do gol), o LOSC precisou de seus suplentes para sair de campo com um magro, porém essencial, 1 a 0 sobre o Lens.

Desta vez, os heróis dos líderes foram Ludovic Obraniak e Túlio de Melo. Em cerca de dez minutos, eles passaram da condição de reservas a protagonistas da partida. O primeiro cruzou para o brasileiro completar para as redes. Pela sétima vez nesta temporada, o Lille teve um gol marcado por um jogador que não fazia parte do onze inicial.

O triunfo sobre os Sang et Or teve mais sabores especiais para o Lille. Além de bater um rival regional, os Dogues completaram uma série de onze partidas sem derrotas, a melhor da equipe desde 2001. Na tabel, são quatro pontos de vantagem para o PSG, segundo colocado, e sete para Lyon e Rennes, derrotados por Valenciennes e Sochaux, respectivamente.

Qualquer jogo contra o Arles-Avignon seria uma baba, mas o Paris Saint-Germain não contava com um adversário traiçoeiro: a chuva. O PSG se adaptou com maior rapidez à piscina na qual se transformou o gramado e abriu a vantagem de dois gols com Mevlut Erding. Mesmo jogando fora de casa, o time da capital soube controlar muito bem o adversário com perigosos contra-ataques, principalmente ao explorar seu lado direito com os avanços de Ludovic Giuly.

Antoine Kombouaré quase colocou tudo a perder. O treinador quis mexer em seu sistema defensivo e o desestabilizou completamente. Por sorte, o PSG enfrentava o lanterna e saco de pancadas Arles-Avignon, não uma equipe de maior qualidade. A saída de Makélélé foi o estopim para o caos da zaga. Câmara não entrou bem e Armand, deslocado para a função de volante, não conseguiu exercer sua nova tarefa com a mesma desenvoltura.

Enquanto Lille e PSG venciam, Lyon e Rennes sofreram duros golpes. O OL visitou o Valenciennes e viu sua invencibilidade de 13 jogos cair por terra. Mais grave do que acompanhar a disparada do LOSC na ponta foi assistir a outra atuação medíocre de Yoann Gourcuff. O meia errou tudo aquilo que tentou e, mais uma vez, justificou sua atual condição de maior decepção da temporada.

Em 20 rodadas, o Rennes havia sofrido apenas 12 gols. Em 90 minutos contra o Sochaux, tomou cinco. A goleada serviu como lição para os bretões, que entraram em campo com certo ar de superioridade após as vitórias sobre Cannes (7 a 0), Vaux-en-Velin (2 a 0) e Arles-Avignon (4 a 0). Talvez tenha sido melhor cair logo do alto, já que o time precisa ter os pés no chão para enfrentar um poderoso adversário: o PSG.