Rivais por uma vaga na semifinal da Copa Libertadores da América de 2019, Flamengo e Internacional revivem um confronto acontecido há 26 anos, pela fase de grupos do torneio. Que esta tenha sido até hoje a única vez em que rubro-negros e colorados se enfrentaram na competição sul-americana, o duelo foi interessante por colocar frente a frente os detentores do título brasileiro e da Copa do Brasil, como era comum naquela etapa inicial.

O Rubro-Negro e o Colorado (este, em sua única participação no torneio naquela década) encontraram-se no Grupo 4, tendo como outros adversários a forte dupla colombiana formada por América de Cali (de Freddy Rincón, Leonel Álvarez, Harold Lozano e Anthony De Ávila) e Atlético Nacional (de René Higuita, Andrés Escobar, John Jairo Tréllez e Victor Aristizábal). Era, afinal, um momento de alta do futebol cafetero.

Comandado desde agosto de 1991 pelo prata-da-casa Carlinhos, o Flamengo teria pela frente uma verdadeira maratona naquele primeiro semestre, jogando o Estadual, a Copa do Brasil e a Libertadores de maneira simultânea entre fevereiro e maio, fazendo com que o time chegasse a entrar em campo muitas vezes em intervalos de apenas 48 horas. Para isso, teve de se reforçar para dar profundidade ao elenco.

Do time que se sagrara campeão brasileiro em julho de 1992, apenas o meia Zinho havia saído, negociado com o Palmeiras. Por outro lado, o atacante Renato Gaúcho retornava à Gávea para uma terceira passagem, vindo de ótima fase no Cruzeiro. Além dele, chegavam o zagueiro Andrei (ex-Palmeiras) e o rodado centroavante Nilson, ex-Internacional, trazido do Corinthians para se revezar com o artilheiro Gaúcho no comando do ataque.

Já o Colorado, por sua vez, teria um calendário bem mais folgado: com a dupla Gre-Nal entrando no Gauchão apenas na segunda fase, a partir de maio, o time dirigido por Antônio Lopes tinha apenas a Copa do Brasil – na qual estrearia apenas em março – e a Libertadores para se dedicar até lá. E chegara à primeira partida no torneio continental tendo apenas treinado e feito amistosos contra times do interior do estado.

A equipe mantinha a base que havia conquistado a Copa do Brasil em dezembro de 1992, reforçada com o volante Jandir, ex-Fluminense, e o ponteiro Jairo Lenzi, ex-Criciúma, ambos com passagem pelo rival Grêmio. Mas só o primeiro tinha condições de atuar na partida de estreia, como acabou acontecendo. Outro desfalque colorado era o atacante Gérson, artilheiro da Copa do Brasil, mas que era baixa por lesão desde o fim do ano anterior.

Por outro lado, o time contaria em campo com a segurança do goleiro paraguaio Gato Fernández, a solidez da dupla de zaga formada por Célio Silva e Pinga, a experiência dos meias Silas e Marquinhos, os dribles do atacante Caíco e o oportunismo do centroavante Nando. Havia ainda o ponteiro Maurício, um dos destaques da campanha da Copa do Brasil, mas que, fora de forma, ficaria no banco e só poderia atuar por 45 minutos.

No Fla, sem ter o zagueiro Wilson Gottardo, que cumpriria suspensão por ter sido expulso contra o Boca Juniors ainda na Libertadores de 1991, o técnico Carlinhos teve que desmantelar o esquema 3-5-2 que vinha ensaiando e armar de novo a defesa com dois zagueiros, Júnior Baiano e Rogério. No lugar de Gottardo entraria o meia-atacante Marcelinho, com a missão de atuar pelas pontas, mas sem se esquecer de ajudar na marcação.

Além disso, o time também contava com um goleiro experiente e seguro em Gilmar, tinha o apoio forte e os cruzamentos precisos de Piá pela lateral-esquerda, a liderança de Júnior (prestes a completar 39 anos e vivendo a última temporada como jogador), o talento de Marquinhos (então na melhor fase da carreira) e o ímpeto de Nélio no meio-campo. Tudo isso somado à força de Renato Gaúcho e à presença de área de Nílson no ataque.

O primeiro jogo aconteceu no dia 10 de fevereiro, no Beira Rio, e terminou 0 a 0. Num duelo equilibrado, o Flamengo começou melhor, mas aos poucos o Inter cresceu e teve suas chances. A maior delas, uma bomba de fora da área do zagueiro Célio Silva que Gilmar defendeu em dois tempos. Pelo Fla, a melhor ocasião veio numa falta na lateral da área cobrada pelo ponta Renato, que Nílson desviou e Fernández saiu mal, mas ninguém completou.

No segundo tempo, o Flamengo assustou num chute cruzado de Renato Gaúcho, em posição de impedimento, logo no início, e mais tarde num cruzamento de Marcelinho que a zaga colorada teve trabalho para afastar. O Inter chegou a colocar a bola na rede com o centroavante Nando, mas sua posição irregular já havia sido marcada antes da conclusão. No fim, o lateral Daniel Franco arriscou um chute forte que exigiu bela defesa de Gilmar.

Quando as equipes voltaram a campo exatamente um mês depois, agora no Maracanã, ambas estavam com a situação indefinida no torneio. O Flamengo havia perdido os dois jogos para o América de Cali (2 a 1 no Pascual Guerrero e 3 a 1 no Rio) e derrotado o Atlético Nacional em Medellín por 1 a 0, com um gol de Renato Gaúcho tomando a bola de René Higuita. Já o Inter tropeçara de novo em casa, empatando em 1 a 1 com o América.

Deste modo, as duas equipes precisavam pontuar, de preferência vencer. Em situação um pouco mais tranquila, o Inter não tinha desfalques e levaria ao Maracanã o time completo, incluindo Jairo Lenzi, que começaria no banco. Já o Flamengo, pressionado, não teria Renato Gaúcho, que se submetera a uma cirurgia no joelho direito, e estreava novo comandante: Jair Pereira assumia o posto de Carlinhos, que não resistiu ao desgaste da maratona de jogos.

Para os extenuados rubro-negros, o jogo contra o Internacional acontecia bem no meio de uma sequência de cinco partidas em dez dias, por três competições diferentes. O time havia estreado na Copa do Brasil jogando em Natal contra o América no dia 5, recebido o Entrerriense na Gávea pelo Estadual no dia 7 e, depois de encarar o Colorado no dia 10, faria a partida de volta contra o time potiguar no dia 12, fechando a série com o Fla-Flu no dia 14.

Diante disso, foram surpreendentes o domínio e a intensidade do Flamengo no primeiro tempo. Com muitas mudanças no time em relação ao jogo do Beira Rio (Charles Guerreiro na lateral no lugar de Fabinho, Wilson Gottardo de volta à zaga ao lado de Júnior Baiano, Uidemar reforçando a marcação no meio em vez de Marcelinho e Paulo Nunes substituindo Renato Gaúcho na frente), os rubro-negros foram para o intervalo com dois gols de vantagem.

O primeiro gol foi marcado logo aos três minutos: Júnior cruzou da esquerda para Marquinhos, que ajeitou com estilo e fuzilou Fernández. Aos 16, o mesmo Marquinhos receberia de Paulo Nunes e obrigaria o goleiro colorado a fazer uma grande defesa. E aos 27, Marquinhos apareceria de novo, servindo Nílson, que chutou rasteiro, mas parou no arqueiro paraguaio. O segundo gol sairia aos 36, com passe de Nílson para Paulo Nunes, que tocou com calma.

Na etapa final o Flamengo teve duas chances seguidas com menos de um minuto: Nílson recebeu lançamento sozinho no lado esquerdo da área e bateu para a defesa de Fernández. No rebote, Piá concluiu, e Célio Silva salvou na pequena área. Mas logo depois, os rubro-negros diminuíram o ritmo e o Inter, que não havia ameaçado em nenhum momento no primeiro tempo, acordou e começou a assustar, criando pelo menos duas chances claras.

O Fla respondeu com grande jogada de Nélio, carregando a bola por toda a intermediária e batendo forte para Fernández espalmar. E logo em seguida, aos 32, aumentaria a vantagem quando Gaúcho (que entrara no lugar de Nilson) passou a Marcelinho (substituto de Paulo Nunes), que, em posição legal, pegou a defesa colorada aberta, arrancou e só teve o trabalho de tirar do alcance de Fernández para marcar o terceiro gol rubro-negro.

No fim, o lateral Piá salvou em cima da linha um chute de Gérson após saída errada de Gilmar. E em outra falha do goleiro, numa reposição de bola apressada e defeituosa, a jogada chegou ao ponta Jairo Lenzi, que bateu cruzado para descontar aos 40 minutos. O Inter ainda perderia uma outra chance nos minutos finais, mas a vitória por 3 a 1 do Flamengo – merecida sobretudo pelo primeiro tempo avassalador – já estava consolidada.

O triunfo tranquilizou os rubro-negros e deixou o time quase classificado, empurrando a crise para o Inter. Em sua última partida da primeira fase, o Fla repetiria os 3 a 1 diante do Atlético Nacional, terminando como líder do grupo. Já os Colorados colecionariam tropeços: contra os Verdolagas, perderiam no Beira Rio (1 a 0) e empatariam sem gols em Medellín. E seriam batidos pelo América em Cali (4 a 2), acabando na lanterna, com apenas três pontos e nenhuma vitória. Já nos mata-matas, o Flamengo parou nas quartas de final. Atropelou os venezuelanos do Minervén na primeira etapa eliminatória, mas não resistiu ao campeão São Paulo, na caminhada dos tricolores ao segundo título consecutivo.