Por Petrick Moreno

O Campeonato Mexicano é um dos mais desafiadores em relação ao ambiente. Tem time em região seca e em região úmida, time no nível do mar e time na altitude, time no calor e time no frio. Como é encarar tudo isso?

O clima aqui é uma coisa de louco! Você joga na altitude, depois vai a uma cidade de praia que é totalmente diferente da altitude em que estava, e depois vai para outra que é muito quente, mas não tem umidade. Enfim, é uma loucura. A preparação que fazemos é viajar um dia antes dos jogos para não sermos pego de surpresa pelo clima local. No mais não tem muito segredo.

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Quais as principais diferenças entre o Campeonato Mexicano e o Brasileiro?

No Brasil, o jogo é um pouco mais cadenciado. Aqui no México é mais intenso, mais dinâmico. Os times aqui correm muito, não têm muita variação de ritmo como no Brasil. Os estádios aqui são tão bons quantos alguns que do Brasil, e acredito que agora, com o Mundial, os estádios do Brasil devem ter melhorado muito. O que é igual é a paixão dos torcedores. Os jogos têm sempre uma boa média de público e isso enriquece as partidas.

E em relação à qualidade técnica?

A diferença é que no Brasil os bons jogadores saem muito cedo para a Europa. Aqui no México os bons jogadores fazem bons contratos e ficam aqui. Por isso temos brasileiros em toda parte do mundo e não vemos isso com os mexicanos. E, se os melhores jogadores do país não saem do México, o nível e a qualidade da Liga MX aumenta. Por isso o futebol mexicano está tão vistoso. E, acima de tudo, a disciplina tática deles é impressionante. Acredito que todos puderam ver isso na Copa do Mundo.

O Queretaro passou por grandes dificuldades financeiras recentemente. Como foi estar lá dentro?

Foi uma coisa pela qual nunca imaginei passar. Mas teve o lado bom: consegui ver o profissionalismo por parte da federação mexicana. Os times aqui têm que fazer um depósito de U$ 5 milhões na federação para poder disputar o torneio, e, caso tenha algum problema, esse dinheiro serve para acertar as dívidas com os jogadores. Se o clube não honra os pagamentos e o jogador entra na Justiça, o clube tem que resolver antes do próximo torneio. Ou seja, muito diferente e melhor do que se vê no Brasil.

Você teve alguma dificuldade de adaptação no México?

A cidade de Querétaro é uma das mais seguras e organizadas do México. Aqui os costumes são muito parecido com os nossos no Brasil e a minha adaptação não foi tão complicada. Minha maior dificuldade aqui foi a questão da altitude. Em Querétaro tem bastante [NR: 1.825 metros], mas nada comparado com a Cidade do México [2.235 metros] e Toluca [2.667 metros], que são duas cidades bem difíceis de se jogar.

Você enfrentou problemas cardíacos delicados quando estava no Palmeiras. Como está sua situação agora?

Os problemas cardíacos que tive graças ao bom Deus que sirvo estão superados. Foi o momento mais difícil que passei na vida. Fiquei afastado por dois anos e meio do futebol, e nesse intervalo fiquei depressivo cheguei a perder 9 kg. Mas Deus teve misericórdia de mim e me concedeu uma nova oportunidade no meio do futebol.

Você esteve ameaçado de parar de jogar?

Eu tinha acabado de ser artilheiro da Copa São Paulo e fui chamado para o time principal. Ao fazer os exames, foi detectado um bloqueio de ramo esquerdo, seguido de arritmias e isso me impossibilitava a fazer exercícios. Então, tive que parar de jogar e essa pausa na carreira. Nesse período, passei pelos melhores cardiologistas do Brasil e o diagnóstico era sempre os mesmo: eu teria que parar porque no meu caso não teria nada o que fazer. Chegaram  até falar em aposentadoria precoce. Esse tempo foi o mais complicado para mim, porque não tinha ideia do que fazer da minha vida, porque desde criança não tinha pensado em outras coisas pra fazer na vida.

E como foi sua recuperação?

Durante esses dois anos, segui fazendo acompanhamento médicos. Não tinha nada o que fazer, porque os problemas eram dentro do coração e não tinha como abrir o coração para resolver. Tampouco remédios resolveriam. Mas, graças a Deus, depois desses dois anos e meio parado, o meu organismo começou a reagir bem e as arritmias que eu tinha sumiram. As coisas foram se encaixando e hoje posso fazer o que mais gosto. Parece loucura, mas não tomei remédios, não fiz cirurgias. A única coisa que fiz foi confiar e acreditar que Deus poderia me curar e me proporcionar uma nova oportunidade de realizar meu sonho.

Logo quando chegou no Querétaro, você foi comparado ao Chucho Benítez (ex-atacante equatoriano do América) pelo estilo de jogo, força física e até aparência. Há influência de Chucho realmente sobre seu jogo ou é apenas uma coincidência?

Conheço pouco sobre o Chucho, mas o pouco que conheço fez com eu passasse a respeitá-lo. Todos falam da qualidade que ele tinha e também da humildade dele, e essas comparações sempre são boas. Acredito que todas as pessoas que vão ser comparadas com alguém querem ser comparada com pessoas que fizeram algo de bom. Então me sinto feliz por ser comparado com alguém como Chucho. Espero ter o mesmo êxito que ele teve aqui no futebol mexicano.

Qual é o cenário dos jogadores brasileiros no futebol mexicano atualmente?

Quando se fala de brasileiro no futebol mexicano, o nome da atualidade é Sinha. Hoje tenho a oportunidade de trabalhar com ele aqui em Querétaro e conhecer mais sobre as conquistas que ele teve no México e até do Mundial que disputou pela seleção mexicana. No dia a dia podemos ver que os mexicanos gostam muito de jogador brasileiro e isso é uma grande oportunidade que temos para fazer com que esse sentimento cresça cada dia mais ao nosso favor.

Qual sua relação com os torcedores do Querétaro, especialmente com os membros da Resistência Albiazul [torcida organizada do clube]?

É muito boa, espero continuar fazendo um bom trabalho não só por mim, mas por eles também que sempre estão nos apoiando nos jogos em casa e fora.

Quais são suas expectativas para essa temporada?

São as melhores possíveis, fizemos um bom trabalho de pré-temporada, e o clube contratou muito bem. Acredito que temos chance de chegar entre os oito que vão à Liguilla [mata-mata] e depois tudo pode acontecer. Espero que esse torneio esteja pra nós.

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