Wagner Miranda é ex-goleiro e foi campeão paulista pelo Bragantino, em 1990. Jogou futebol até 1999, no América-RJ, quando pendurou as luvas. Decidiu seguir no futebol, como preparador de goleiros. Começou no Botafogo, no próprio ano de 1999. Passou por diversos clubes, como Bangu, Olaria e chegou ao Flamengo em 2005. Ficou no clube por 11 anos, até 2015, e seguiu com Vanderlei Luxemburgo para o Tianjin Quanjian, na China. Neste ano, 2018, trabalhou na Chapecoense junto com o treinador Gilson Kleina, até a saída do técnico do cargo. Atualmente, está sem clube. Conversamos com ele sobre o momento dos goleiros brasileiros, formação, base e a importância desse tipo de profissional de preparação de goleiros para que o Brasil esteja em um grande momento dos arqueiros. Confira a entrevista abaixo.

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Trivela: Como foi a transição de jogador para preparador de goleiro?

Wagner Miranda: Desde que eu estava pensando no encerramento da carreira, comecei a me preparar e estudar para continuar no futebol. Comecei a fazer cursos, me preparar cientificamente. Assim que parei de jogar, comecei a trabalhar. Me preparei durante uns quatro anos.

Na carreira como jogador, que técnico mais te marcou?

Tive grandes técnicos, como o Vanderlei Luxemburgo e o Parreira. O Luxemburgo foi o treinador que mais me marcou, pelo comando, a postura, o conhecimento, a liderança dele. Eu era um jogador que observava muito o Vanderlei. Por isso, eu trouxe muita coisa que eu aprendi com Luxemburgo. Aprendi muito naquele período. Eu conversei muito com ele naquele período.

O que faz os goleiros brasileiros se destacarem tanto?

O goleiro brasileiro tem se destacado muito no âmbito mundial pela técnica do goleiro. O goleiro brasileiro tem muita técnica. Os fundamentos são muito trabalhados. Tecnicamente, temos os melhores goleiros do mundo. Os goleiros estão sendo observados e contratados. Vão para a Europa, para a Ásia. Hoje o Brasil tem um leque de goleiros muito capacitados. Em uma avaliação rápida, eu atribuiria aos profissionais que estão trabalhando.

Você trabalhou com categorias de base. Como formar um goleiro bem na base?

A responsabilidade dos profissionais que formam os goleiros é muito grande. Os preparadores de goleiros não podem ser para tapar buracos, é importante ter alguém capacitado. É ali que se formam as valências técnicas e físicas. Eu falei muito isso quando coordenei a base do Flamengo. As fases de mirim, pré-mirim, são fundamentais para o goleiro. Quando chega no juvenil, o goleiro já está mais encorpado. O juvenil e juniores são fases fundamentais da afirmação de um goleiro.

Todos os profissionais são importantes, a parte física também é importante, mas a primeira fase, pré-mirim, mirim, infantil, é fundamental ter um profissional capacitado para identificar e trabalhar com esse profissional. Em time grande, é ainda mais difícil. Às vezes o goleiro sobe para o profissional, mas não tem espaço, são muitos goleiros. Algumas vezes, mesmo tendo bons goleiros, é preciso emprestar para outros times.

Quando o clube é de maior investimento, a estrutura de trabalho é maior, a pressão é maior mesmo. A tolerância é muito pouca. Ele já tem que estar psicologicamente preparado para dar resultado para o clube. Se espera muito do jogador que está subindo na base em times como Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Internacional… Não há tempo para adaptar o jogador para daqui três, quatro, cinco rodadas manter o jogador. É preciso entrar, dar um resultado positivo muito rapidamente.

Pensando nisso, existe preparação psicológica adequada?

Fiquei 11 anos no Flamengo e sempre houve o cuidado de trabalhar o lado psicológico. Tem assistente social para lidar com ele, há todo um trabalho para acompanhar, com profissionais que se preocupam em ajudar nessa transição e na formação. Isso é muito importante para o atleta, saber a oportunidade que ele está tendo, o que ele precisa para ser bem-sucedido.

Quais os principais desafios de trabalhar na China?

Primeiro que lá você não contrata o goleiro. O goleiro é chinês. Tecnicamente, os chineses são muito fracos. A primeira dificuldade foi evoluir os goleiros tecnicamente com a minha metodologia de trabalho. O nosso goleiro foi eleito o melhor da Primeira Liga (segunda divisão chinesa). Foi muito trabalho para isso.

Eu fiquei muito impressionado com a vontade dos chineses em aprender, a disciplina. Eles estavam sempre muito atentos. Eles estudam muito. É muito desgastante.

Como foi a adaptação na China?

Foi tranquilo. Só mesmo o idioma foi difícil. Fizemos muitas aulas. Algumas coisas a gente conseguia falar, mas era muito difícil entender. As cidades são ótimas, seguras. Bem tranquilos.

Como o calendário brasileiro, com um alto número de jogos, afeta o goleiro?

Devido ao calendário, temos uma pré-temporada muito reduzida. Ao longo das competições, fazemos os treinamentos de manutenção e temos que estudar muito o trabalho. Para o goleiro que está jogando, acaba sendo bom, mesmo com o número de jogos. Acho que quem sofre mais é quem não está jogando. Pelo pouco número de treinamentos, você reduz demais a carga de trabalho, quem sofre mais é o segundo, o terceiro goleiro. É preciso adaptar os treinamentos para esses jogadores. São trabalhos diferentes para quem está jogando e para quem não está jogando. É preciso cuidar muito e fazer um planejamento para que as coisas funcionem bem até o término na temporada.

Como motivar quem não está jogando?

Todo goleiro que está treinando está querendo uma oportunidade de jogar. Cada goleiro faz o seu trabalho e sabe qual é a sua posição. É preciso dar a entender que aquela oportunidade vai surgir. E quando surge, é normalmente por lesão, ou por expulsão… Então quando o goleiro se recupera da lesão ou cumpre a suspensão, ele normalmente vai voltar. Então, para quem entra, é importante entrar muito bem e saber a responsabilidade.

É importante manter um trabalho evolutivo e motivado e isso depende muito do ambiente de trabalho. É importante porque se passa muito tempo juntos, os goleiros ficam muito juntos. É preciso ter cuidado para não haver lesão nem para quem tá jogando, e nem para quem não tá jogando em forçar demais no treinamento. É preciso dar as mesmas condições.

Quem são os melhores goleiros no Brasil atualmente?

No Campeonato Brasileiro, temos muitos goleiros, como o Cássio, mantendo regularidade absurda, Marcelo Lomba mantendo boa regularidade. Marcelo Grohe foi muito bem, mas com o Paulo Victor jogando bastante também. Tem o Diego Alves, o Vanderlei, o Weverton no Palmeiras, o Jandrei.

O que mudou dos tempos de jogador como goleiro para os goleiros de hoje?

Na minha época, não tinha treinador de goleiros específicos, era mais raro. O treinador de goleiro normalmente era improvisado, um preparador físico que trabalhava especificamente com o goleiro. A nossa dificuldade naquela época era não ter profissionais formados especificamente para isso. Hoje você tem um leque de preparação, de cursos, algo para formar e desenvolver metodologia de trabalho O preparador de goleiros está muito bem informado para trabalhar.