Quando você cumprimenta alguém e diz “tudo bem?”, na maioria dos casos, espera-se que o outro responda no afirmativo ou devolva a mesma pergunta. “Bem eu não estou. Estamos tristes. Não merecíamos isso [eliminação da Liga dos Campeões]. A gente jogou muito bem [contra o Atlético de Madrid] e fizemos uma grande temporada. Merecíamos o título da Champions”, disse o lateral Rafinha, do Bayern de Munique, ao abrir a porta de sua casa e receber a Trivela um dia após o jogo de volta contra o Atlético de Madrid, pela Liga dos Campeões. “Tudo o que fizemos, o que jogamos… E ficamos fora da final [da Champions]. Tudo isso só o futebol pode responder. Não tem como entender. O futebol pode ser muito injusto às vezes”, lamentou.

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Na entrevista, Rafinha também falou sobre as críticas que recebeu após ter pedido dispensa da Seleção para os jogos contra a Venezuela e o Chile, no ano passado, pelas Eliminatórias da Copa de 2018. Após ter conquistado a tríplice coroa, a Supercopa da Europa e o Mundial de Clubes de 2013, o lateral afirmou que estava vivendo a melhor fase de sua carreira e, por isso, tinha esperança de ter ido para Copa do Mundo de 2014. Pela Seleção, Rafinha foi convocado por Dunga para os jogos contra Bolívia e Chile, em 2008, pelas Eliminatórias da Copa de 2010 e para um amistoso contra Suécia em 2008. Na era Felipão, foi chamado para a partida com a África do Sul, em 2014, meses antes do Mundial no Brasil. Nas categorias de base, participou do Sul-Americano Sub-20 e do Mundial Sub-20 em 2005, além das Olimpíadas de 2008.

Para disputar os Jogos de Pequim, o lateral desafiou o Schalke 04, clube que defendia na época, após os Azuis Reais não concordarem em liberá-lo para a competição. Pelo sonho do ouro olímpico, Rafinha disputou os Jogos de Pequim mesmo com o veto do clube alemão. Ganhou a medalha de bronze. A briga para defender o Brasil quase custou €700 mil ao jogador. Uma multa que o Schalke 04 desistiu de cobrar. Confira a entrevista:

A briga pela titularidade seria boa com Rafinha, que ganhou muito mais espaço no Bayern de Munique com Guardiola e não decepcionou (Foto: AP)

O que você sentiu de diferente do trabalho do Pep Guardiola em relação ao Jupp Heynckes?

Rafinha: Totalmente diferente. O Pep é um treinador mais moderno. Ele revolucionou o futebol com o método de trabalho dele. Acrescentou muito na forma de jogar de todos nós. Tivemos um grande aprendizado com ele. O Jupp é um treinador de muita qualidade e de sucesso, que é mais do futebol antigo da Alemanha.

Como foi trabalhar com Guardiola?

Rafinha: Foi fantástico, um tempo de muitas vitórias e conquistas. É uma pena que não conseguimos conquistar junto com o Pep o título que a gente queria que era a Liga dos Campeões.

Por ser a última temporada do Guardiola, tinha uma pressão maior para vocês conquistarem a tríplice coroa?

Rafinha: O Bayern, em 100 anos de história, ganhou uma vez a tríplice. Não tem pressão. É uma coisa muito difícil de acontecer. A pressão é que o torcedor quer que a gente chegue na final da Liga dos Campeões todos os anos. A pressão existe para estar entre os quatro da Champions. Pressão para ganhar não é a palavra correta. Quando você joga em um clube como Bayern, tem a obrigação de ficar entre os quatro da Liga dos Campeões.

Como você vê as críticas em relação ao Guardiola por ele não ter ganhado uma Champions com o Bayern?

Rafinha: O Pep não precisa provar nada. Ele já ganhou muitos campeonatos. Conquistou duas Champions [2008/09 e 2010/11, com o Barcelona] como treinador e uma [na temporada 1991/92, também com o Barcelona] como jogador. Sabemos da qualidade dele. A gente só fica triste porque queríamos conquistar esse título juntos. Seria a forma perfeita para coroar estes três anos.

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O volante Lahm comemora seu gol com o lateral Rafinha (AP Photo/Matthias Schrader)

Você está há dez anos jogando na Bundesliga. Como é jogar no Campeonato Alemão?

Rafinha: Quando cheguei [2005, no Schalke 04], era muito complicado jogar aqui. Havia poucos brasileiros: Marcelinho Paraíba, Ailton, Bordon, Lincoln, Kurányi, que é naturalizado alemão, e o Dedê. Na temporada 2001/02 tinha o Evanílson, Amoroso e Ewerthon e o Alex Alves, do Hertha Berlin. Era difícil ter brasileiro até 2005. O Élber, Paulo Sergio e Jorginho jogaram no Bayern. O Emerson, o Roque Junior e o Juan, no Leverkusen.

Hoje tem mais brasileiros, mas eles não ficam a mesma quantidade de tempo aqui nos clubes. É muito difícil jogar na Alemanha. Porque os alemães revolucionaram o futebol. Mudaram a escola. Tive a honra de poder acompanhar essa mudança. A Alemanha ficou em terceiro lugar na Copa do Mundo de 2006 e, em 2010, também. Em 2014, eles foram campeões. O Campeonato Alemão, de 0 a 10, melhorou 8. A qualidade da competição melhorou muito. Antes até tinha uma disputa, mas todo mundo sabia que o Bayern seria campeão. Hoje em dia tem o Borussia Dortmund, o Bayer Leverkusen, o Schalke 04, que sempre estão brigando na parte de cima da tabela. Teve uma evolução no campeonato e no país. Tanto que a Alemanha, nos últimos anos, está disputando o título da Eurocopa e da Copa.

O Bayern sempre estava na Liga dos Campeões. Antes, o Schalke 04 nunca tinha passado da primeira fase. Depois, conseguimos classificação para as quartas. O Bayer Leverkusen foi finalista em 2002. Os alemães foram avançando de fase. O difícil era chegar à final da Champions. Em 2009, o Bayern perdeu a final para a Inter de Milão. Em 2012, chegamos na decisão, mas perdemos em casa para o Chelsea. No ano seguinte, em 2013, teve a final alemã, Bayern e Borussia Dortmund. Os times alemães foram chegando às fases finais. Jogadores de nome passaram a ser contratados para jogar na Bundesliga e isso motivou outros a virem aqui. Antes não tinha muitas estrelas no Campeonato Alemão.

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Rafinha: Quando eu vim para o Bayern de Munique, sabia que viveria um grande momento. Mas o ano de 2013 ficou marcado. Todos os títulos que disputamos nós ganhamos: a Liga dos Campeões, a Bundesliga, a Copa da Alemanha, a Supercopa da Europa e o Mundial.

O que o time de 2013 tinha de especial?

Rafinha: Quando é para ganhar, tudo dá certo. Às vezes, você chuta errado a bola e ela vai certo. No ano anterior, a gente perdeu uma final em casa. Foram 12 escanteios no primeiro tempo e oito no segundo. Posse de bola de 80% no jogo inteiro. O Chelsea teve um escanteio e eles empataram a partida. Fomos para a prorrogação e erramos um pênalti. Perdemos um título em casa nos pênaltis. Então, quando é para ganhar, acontece. Em 2013, a equipe era a mesma de 2012 e fomos campeões. O exemplo está aí contra o Atlético de Madrid. Tudo o que fizemos, o que jogamos… E ficamos fora da final. Tudo isso só o futebol pode responder. Não tem como entender. O futebol pode ser muito injusto às vezes.

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Jogadores do Bayern de Munique comemoram o gol de Robben (AP Photo/Matthias Schrader)

As críticas que você recebeu após pedir dispensa da Seleção Brasileira te chatearam?

Rafinha: Não. Sabia que todo mundo falaria de mim. Mas a minha cabeça estava em outra faz tempo. Em 2014, fui para a convocação na África do Sul, em março. O Felipão me ligou e disse que eu poderia ser chamado para a Copa do Mundo, que ele me deixaria entre os 30. E falou que queria me ver no amistoso. E eu fui. Realmente ele me convocou entre os 30 da Copa do Mundo. Não fiquei entre os 23. Depois da Copa, ninguém me convocou.

Todo mundo falou que eu virei as costas para o Brasil. Mas antes de ser chamado, ninguém me pediu na Seleção. Não vi um jornalista brasileiro dizendo ‘o Rafinha está merecendo uma chance’. Quando pedi dispensa, falaram: ‘virou as costas’. Então antes eu não servia. E, depois que fui convocado, servia. Quem tem boca, fala o que quer. Tinha que pensar na minha carreira. Na época, o Bayern de Munique estava me dando toda a atenção que eu precisava e decidi concentrar todo o meu trabalho aqui. Sabia que não teria uma sequência na Seleção. Quando você é a terceira opção, ainda tem esperança. Agora, quarta opção não é concorrência, você é um quebra galho, só jogará se os outros três se machucarem. Pelo momento que eu vivia no Bayern, disputando as decisões, acho que merecia mais atenção por parte da seleção. Mas nunca pedi. Nunca cobrei ninguém por isso.

Ficou magoado pelo fato de não ter sido convocado para a Copa?

Rafinha: Claro que doeu [não ter sido convocado]. Quem não quer participar de uma Copa do Mundo? Era o meu sonho. Eu estava em um dos melhores momentos da minha vida. Tinha acabado de conquistar todos os títulos pelo Bayern. O Guardiola me deu uma sequência de jogos que foi fantástica. E você nem é convocado para estar de novo no ambiente da Seleção. Porque eu vivi dentro da Seleção. Participei do sub-17, sub-19, sub-20, sub-23 nas Olimpíadas. Então sei como é o ambiente. Se tivesse tido mais oportunidades, mais chances. Se eu tivesse algumas convocações e depois não fosse chamado, entenderia que talvez não tivesse ido bem ou que o treinador optou por outro. Só que eu não tive chance de ter uma sequência.

Especulou-se que você queria jogar pela Alemanha.

Rafinha: Quando pedi dispensa da Seleção, não tinha o passaporte alemão. Hoje eu tenho. Se ainda puder jogar pela seleção alemã, quem sabe futuramente. Mas não é algo que passa na minha cabeça no momento. Agora estou pensando no Bayern, no meu dia a dia aqui, que é maravilhoso. Um clube grande, que me paga todo mês e me dá a chance de fazer o que mais gosto. Tenho que pensar nisso e não em algo que não me tem como prioridade.