A temporada do Manchester United foi desastrosa e, no início dela, o técnico era José Mourinho. O treinador acabou demitido no meio da campanha, mas continua com a língua afiada. Em entrevista ao francês L’Equipe, ele comentou sobre o clube e negou que o problema que o tirou de Old Trafford tenha sido Paul Pogba. Ele apontou para a estrutura do clube, algo que tem sido apontado por muitos como um ponto crucial para o futuro da equipe.

“Eu conheço o Manchester United, eu sei que é um clube com uma história incrível. Com ambições que estão alinhados com seu passado, mas não com o potencial de hoje. Eu disse nove, dez meses atrás que depois de ganhar oito campeonatos nacionais, terminar em segundo com o Manchester United foi talvez a minha maior conquista. Agora as pessoas entendem”, afirmou Mourinho.

O português foi perguntado se ele usava os mesmos métodos no Manchester United que ele usava no Porto, no início da sua carreira. “Não. Não há exercícios que eu use hoje que eu usava na época do Porto. Mas no Porto, havia uma empatia na estrutura. Se você ficar apenas no relacionamento jogador-técnico, técnico-jogador, isso não funciona. Todo mundo tem que sentir da mesma forma”, explicou ainda o treinador.

Perguntado diretamente sobre Pogba, se ele tinha sido a razão da sua saída do Manchester United, Mourinho foi bastante direto. “Não, não. Os problemas estão lá, você pode imaginar que os problemas são os jogadores, a organização e a ambição”, disse o português. “Eu irei dizer apenas que eu não posso dizer ‘sim’ quando você pergunta se Paul era o único responsável”.

Mourinho foi demitido em dezembro de 2018 pelo baixo rendimento da equipe e a má campanha, especialmente na Premier League. Ole Gunnar Solskjaer foi escolhido como substituto interino, venceu 14 das 19 primeiras partidas que fez, e acabou ganhando um contrato de dois anos – ainda no rescaldo de uma classificação heroica na Champions League diante do PSG.

Só que o que parecia uma recuperação milagrosa, entrando novamente na briga por uma das quatro primeiras posições e, consequentemente, uma classificação à Champions League, o Manchester United degringolou. Nos últimos 10 jogos na Premier League, cinco derrotas, dois empates e apenas três vitórias. Nos últimos cinco jogos, perdeu três e empatou dois, sendo que os dois últimos jogos foram contra o Huddersfield e o Cardiff, ambos rebaixados.

“Sobre o Manchester United, eu apenas quero dizer duas coisas. Uma é que o tempo falou. Dois, há problemas que ainda estão lá”, disse, Mourinho, de forma sucinta. O treinador entrou em rota de colisão com o executivo do United, Ed Woodward, sobre diferenças de pensamento no mercado de transferências.

Antes do começo da temporada, o treinador pediu a contratação de um zagueiro, do perfil de Diego Godín, Jérôme Boateng e Toby Alderweireld. O executivo considerou que os jogadores não tinham o perfil do clube e se recusou a contratar. Em parte, assumiu culpa das janelas anteriores, com jogadores como Eric Bailly e Victor Lindelof, que embora com potenciais, não conseguiram dar consistência à defesa. E nem Chris Smalling ou Phil Jones.

O treinador comentou sobre a queda de rendimento e falou sobre as cobranças sobre os jogadores. “Geralmente, os jogadores podem sentir uma certa erosão, especialmente quando você pede muito deles. Quando eu disse que a segunda temporada foi fantástica, eu digo isso porque o potencial e os objetivos foram atingidos”, afirmou o treinador.

“Eu realmente os apertei, como uma laranja, para tirar o melhor deles. Quando você tem um grupo muito profissional de jogadores, que são ambiciosos, trabalham duro e talentosos, em um clube estruturado, você não tem essa erosão”, disse.

“Quando você está quase sozinho, nisso você não tem o apoio do clube perto de você, enquanto certos jogadores vão, de alguma forma, contra o técnico, que é um cara legal”, continuou o técnico. “Eu não quero ser o cara legal, porque o cara legal, depois de três meses, é um fantoche e isso não acaba bem”.

Gestão de grupo

“Além da tecnologia, o mundo mudou do ponto de vista humano. Para um jogador, é mais difícil ficar focado no trabalho e ter em mente a ideia que o futebol é a coisa mais importante na sua vida. Os jogadores hoje possuem muitos direitos. Mas nós, técnicos, temos que fazê-los entender que eles também têm lição de casa a fazer”.

“E o dever número um é com os torcedores. E talvez ainda mais com os jovens que querem ser jogadores e não têm o talento. Quando você tem o talento para isso, quando você é um jogador importante para o clube, tem que fazer isso com paixão. O garoto de 13, 14 anos, que está na base, ele é apaixonado, se não, não estaria ali. O mundo exterior não pode te transformar ao ponto de perder a paixão aos 23 ou 24 anos”.

“Cabe ao clube, ao técnico, criar uma proteção, não conflito. Eu tive situações de conflito, mas a coisa mais importante é que os jogadores sigam esta linha: eu sou um profissional do futebol, e essa é a coisa mais importante da minha vida”.

Mbappé e Neymar

“Ele jogou quase todas as partidas, foi decisivo para o seu time. Mas falar sobre o Mbappé e Neymar é falar dos melhores jogadores do mundo. Se não fosse pela suspensão de três jogos, ele teria terminado como o artilheiro da Europa, eu acho. Neymar, com sua lesão, só fez meia temporada. Mas eles são jogadores de outra dimensão. Luis (Campos), quando ele me fala sobre Kylian, seus olhos estão brilhando. Não é um diamante que você diga ‘Ele pode fazer isso ou aquilo’. Não, ele já fez! A questão é o quão longe ele pode ir, porque ele é muito jovem e há muito espaço para melhorar”, afirmou Mourinho.

“Eu não o conheço. Mas no jogo, você pode ver a sua ambição. Ele tem o que eu chamo de arrogância positiva: ‘Eu estou aqui, eu quero fazer, eu quero vencer’. Isso inclui alguns momentos desagradáveis como sua expulsão na final da Copa da França. É um cartão vermelho de frustração, não o cartão vermelho de um jogador que enlouquece. É o de um jogador que quer ganhar, que entende que ele não pode ganhar o jogo. Mostra o personagem, a personalidade do jogador”, disse.

PSG

“É um clube com dimensão global, com jogadores que estão nesse nível global. Ainda não ganhou em nível europeu, e isso é muito importante. É o mesmo que eu digo dos técnicos: você pode ter todas as grandes qualidades, mas se no fim da sua carreira, você não tiver vencido em nível europeu, algo ficou faltando. Agora o PSG está nesta fase: eles ganham o tempo todo na França, como Juventus ou Bayern. É o líder do futebol francês, mas está atrás dos maiores clubes europeus”, analisou Mourinho.