Invencíveis. Este foi o apelido que o esquadrão do Arsenal recebeu pela conquista do Campeonato Inglês na temporada 2003/04, sem perder uma única partida. Dos 38 jogos da Premier League, foram 26 vitórias e 12 empates. Lehmann, Lauren, Campbell, Touré, Ashley Cole, Vieira, Gilberto Silva, Ljungberg, Pirès, Bergkamp, Henry formavam o time histórico dos Gunners. Se o Arsenal encantou pelo timaço e pelo futebol apresentado no campo e ainda entrou na história por conta da conquista da Premier League de forma invicta, faltou uma coroa para o time londrino: o título da Champions League. Para Gilberto Silva, os Invencíveis mereciam ter conquistado o principal título europeu.

“Todos do time apostavam nesta conquista [Champions]. E, como não aconteceu, ficou para nós a tristeza e frustração acima de tudo porque ficamos muito próximos e não conseguimos. Mas, ao mesmo tempo, tem que levantar a cabeça, erguer e ver que isso faz parte do futebol e que o time perdeu para uma grande equipe no final do dia”, disse Gilberto Silva em entrevista exclusiva à Trivela, durante um evento de divulgação do vinho Santa Rita em São Paulo.

Sobre os Invencíveis, Gilberto Silva elogiou o elenco e o treinador Arsène Wenger: “Tinha uma mistura muito boa no time na questão de qualidade, nas posições. Acho que acima de tudo, o trabalho do Arsène Wenger para a montagem da equipe foi fundamental, a maneira como ele conduziu todo o trabalho de gerenciar todos os atletas de muita qualidade. Colocar o trabalho dele, fazer o que ele realmente acreditava. Todos os jogadores eram muito empenhados para vencer. Claro, não imaginávamos, no início da temporada, que iríamos vencer sem perder uma partida. Isso foi uma consequência, foi de maneira natural. Na reta final, pensamos: ‘Vamos terminar agora sem perder’”.

Ainda na entrevista, o ex-volante disse que considera o Campeonato Inglês a liga mais disputada e difícil. “Nos últimos anos, a Premier League se tornou o melhor campeonato do mundo e mais competitivo. Hoje, a gente vê a quantidade de clubes grandes e em potencial para vencer o Campeonato Inglês. E a competitividade não é só entre os times grandes. Tanto que a dificuldade dos clubes de ponta quando enfrentam adversários intermediários é muito grande”, afirmou o pentacampeão.

O time do Arsenal ganhou o título da Premier League na temporada 2003/04 de forma invicta. Ao que você atribui este sucesso?

Gilberto Silva: Tinha uma mistura muito boa no time na questão de qualidade, nas posições. Acho que acima de tudo, o trabalho do Arsène Wenger para a montagem da equipe foi fundamental, a maneira como ele conduziu todo o trabalho de gerenciar todos os atletas de muita qualidade. Colocar o trabalho dele, fazer o que ele realmente acreditava. Todos os jogadores eram muito empenhados para vencer. Claro, não imaginávamos, no início da temporada, que iríamos vencer sem perder uma partida. Isso foi uma consequência, foi de maneira natural. Na reta final, pensamos: ‘Vamos terminar agora sem perder’.

Como foi o trabalho do Wenger neste campeonato invicto? O que ele fez de diferente?

Gilberto Silva: A temporada anterior tinha sido um pouco frustrante para todos nós, porque perdemos o Campeonato Inglês para o Manchester United acho que faltando oito jogos para o final [nota do editor: na verdade, foi ainda mais dramático: o Manchester United tomou a liderança do Arsenal na 36ª rodada, a duas do final]. O Manchester United passou a gente nesta reta final e não conseguimos mais jogar o futebol da maneira que estávamos jogando. Na temporada seguinte, fizemos diferente. O papel do Wenger foi fundamente por acreditar realmente no grupo. Fazer com que todos mantivessem o foco no objetivo que era vencer o campeonato. Ele sabia os jogadores que tinha e sabia que podia confiar em todos.

Qual é o legado do Wenger? Como foi ter trabalhado com ele?

Gilberto Silva: Foi fantástico trabalhar com ele. Quando o Wenger chegou no Arsenal, por todas as informações que eu tenho e por ter falado com ele várias vezes, ele mudou os hábitos que existiam nos atletas e com o tempo foi colocando a cara dele.

E acreditar em um jogo de futebol bonito, que era um pouco diferente. Quando digo bonito, me refiro ao toque de bola, que era um modelo diferente na Inglaterra. Quando eu cheguei, o Arsenal era um dos poucos times que jogavam futebol com a bola no chão, com posse de bola, de toque, com velocidade. Hoje a gente vê bem mais este tipo de jogo.

E o Wenger foi peça fundamental para que o Arsenal tivesse a ideia de fazer um novo estádio. Acho que tem uma mão especial dele neste projeto que ele trabalhou full time.

Como era o vestiário do Arsenal com craques como Thierry Henry, Dennis Bergkamp, Patrick Vieira?

Gilberto Silva: Era ótimo, fantástico. Eles eram não só grandes jogadores, mas também grandes pessoas. Quando você trabalha com craques como eles, isso facilitava muito o trabalho. Porque todo mundo estava disposto a ajudar, contribuir. Todos sabiam o seu lugar na equipe, mas, ao mesmo tempo, havia um respeito muito grande pelo colega. Os jogadores sabiam da importância e valorizavam a qualidade dos companheiros de trabalhos. Isso era fundamental no dia a dia para que a vaidade individual não prejudicasse a equipe.

O time do Arsenal encantou quando venceu o Campeonato Inglês da temporada 2003/04 invicto com um futebol bonito. Ficou aquele sentimento de que os Invencíveis mereciam ter ganhado a Champions League?

Gilberto Silva: Lógico que ficou faltando… Fica este sentimento… Você olha o elenco que tínhamos. Todos do time apostavam nesta conquista. E, como não aconteceu, ficou para nós a tristeza e frustração acima de tudo porque ficamos muito próximos e não conseguimos. Mas, ao mesmo tempo, tem que levantar a cabeça, erguer e ver que isso faz parte do futebol e que o time perdeu para uma grande equipe no final do dia.

Nota do editor: Na temporada dos Invencíveis, 2003/04, o Arsenal caiu na Champions League nas quartas de final e contra um adversário local, o Chelsea. Depois de um empate por 1 a 1 em Stamford Bridge, os Gunners perderam no Highbury por 2 a 1 e foram eliminados.

Você acha que o Campeonato Inglês é o mais difícil e disputado do mundo?

Gilberto Silva: Na minha opinião, sim. Nos últimos anos, a Premier League se tornou o melhor campeonato do mundo e mais competitivo. Hoje, a gente vê a quantidade de clubes grandes e em potencial para vencer o Campeonato Inglês. E a competitividade não é só entre os times grandes. Tanto que a dificuldade dos clubes de ponta quando enfrentam adversários intermediários é muito grande.

Qual foi o melhor jogador que você atuou junto seja de Seleção Brasileira, Arsenal ou Atlético Mineiro?

Gilberto Silva: É difícil falar porque são épocas diferentes, lugares diferentes. O que posso dizer é que tive a felicidade de jogar com grandes craques. Grandes jogadores, tanto no América [Mineiro], Atlético [Mineiro], Arsenal, Panathinaikos, Grêmio, na Seleção Brasileira. E, de cada momento, você aproveita de uma forma diferente da situação anterior e é até bom porque aprende mais coisa e leva as experiências para a próxima etapa. E, nesta experiência, talvez as pessoas te veem como referência. E você chega para contribuir. E isso é muito legal.

Dos jogadores com quem jogou, qual mais te marcou?

Gilberto Silva: Sou fã do Cafu. Ele foi o nosso capitão da Copa do Mundo de 2002. Grande exemplo. É uma pessoa de referência. Muita gente não esperava que o Brasil fosse campeão em 2002 e, no momento de pressão, ele assumiu a faixa de capitão. Ele já era um capitão sem ter a faixa. E depois só ficou mais nítida a liderança dele. Foi muito bacana os aprendizados que tive com ele durante a competição.

Você comentou que o Brasil não começou como favorito na Copa do Mundo de 2002. Como foi a trajetória para a conquista do penta?

Gilberto Silva: Muito trabalho. O Felipão acreditou totalmente no grupo. O time era muito bom, com grandes jogadores. Quando você olha aquela equipe, a qualidade que tinha… Todos do time só falavam de uma coisa: ganhar a Copa. Alguns jogadores estiveram na Copa de 1998 e não queriam ter a mesma tristeza e decepção, de repente, chegar a uma final e perder. Estes jogadores que estavam 1998 diziam: ‘Não quero mais perder. Não quero chorar novamente. Porque a dor de chegar a uma final e perder é muito grande’. O tempo todo, o que a gente falava se estava conversando no jantar, no hotel e fora dos treinos era ‘Vamos ganhar’.

Qual foi o momento mais marcante na sua carreira?

Gilberto Silva: A conquista da Copa. É incomparável.