Hoje, o homem que encantava multidões já não joga mais futebol. As inúmeras lesões no joelho cobram o seu preço e mal deixam o veterano de 48 anos correr. No máximo, participa de um jogo de exibição, sabendo que precisará se entupir de analgésicos nos dias seguintes. A mente do velho fantasista, no entanto, permanece intacta. E o inesquecível Roberto Baggio permanece pensando como um camisa 10. Não exatamente para criar as situações fascinantes dentro do campo, mas na leitura do jogo que o colocou na história.

Nesta semana, a revista francesa So Foot publicou uma entrevista com o craque italiano. Baggio falou sobre diversos assuntos, especialmente pensando a sua trajetória e o papel do camisa 10 dentro do futebol. Uma verdadeira aula com um daqueles que mais honraram o número. Que mais ajudaram a 10 a ter essa aura tão especial.

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“Quando eu era pequeno, eu sonhava em me tornar um jogador profissional. E meu único objetivo era divertir as pessoas. O número 10 é aquele que diverte mais gente. Isso não significa que outras posições não são importantes, pelo contrário. Mas quando você tem o 10 sob as costas, sabe que os torcedores vão esperar mais de você. É normal. Caso contrário, você usaria outro número. Para entreter as pessoas, era simples: eu tentava fazer o que os outros não faziam. Não era necessariamente complicado. E o 10 tem essa característica, ver uma situação antes dos outros. Ou seja, fazer um passe quando, normalmente, se fariam três para chegar ao mesmo ponto. É justamente o que entusiasma as pessoas, que as torna felizes. É uma qualidade que nem todos tem, mas um componente do camisa 10”, afirmou o craque.

E, justamente, o velho ídolo tem consciência que cumpriu o seu objetivo, ao comentar a relação que tinha com os torcedores: “Eu sabia que havia pessoas esperando para me ver, esperando que eu fizesse coisas importantes. Isso era lindo. Raramente os torcedores adversários me vaiavam. E, se eles me vaiavam, era porque tinham medo do que eu poderia fazer. Eu nunca tive problemas. As pessoas me respeitavam por quem eu era”.

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Entretanto, Baggio não crê que a visão de jogo do camisa 10 é algo inato. O italiano afirma que sua evolução veio jogando muitas vezes, desde criança: “É algo que se consegue a partir da sua formação. Quando eu era pequeno, jogava bola todos os dias, de manhã à noite. Você treina, joga, treina. Assim, quando acontece uma situação, já viveu mil vezes antes. Há algo que consiste em entender a tendência de uma ação. Mas há também trabalho, esforço, treino. Quando eu me aproximava do gol, tinha a impressão que o tempo desacelerava. Porque eu tinha certeza do que deveria fazer. Era muito lúcido. Bom, nem sempre, é óbvio. Porque também existem adversários, obstáculos. Mas eu, ia com a ideia muito clara do que fazer”.

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Além disso, o futebol brasileiro ajudou a moldar a mentalidade do camisa 10. Se hoje as crianças no país se acostumaram a se inspirar no que acontece pela Europa, o processo contrário também já ocorreu, e influenciando um dos maiores da história: “Eu adorava o Zico, era meu grande exemplo quando eu era garoto. Sempre assistia aos jogos do Flamengo na televisão. E não era como hoje, quando todos os jogos passam na TV. Não. Na época, era um evento quando uma partida era transmitida. Eu sempre via quando tinha um jogo do futebol brasileiro. Assim que me apaixonei por Zico. Ele fazia mágica sobre o gramado. Ele cobrava muito bem as faltas, marcava gols de tudo quanto é jeito. Era magnífico vê-lo jogar”.

Atualmente, no entanto, Baggio vê uma mudança de atribuição do camisa 10. A evolução do futebol transformou as tarefas que o fantasista precisa realizar em campo. Algo que, na sua época, não era tão intenso. “Na minha época, eu tinha tarefas muito específicas. A nossa mentalidade era um pouco diferente, precisávamos ser lúcidos, ver claramente. Não podia correr 60 metros para recuperar uma bola, porque era lúcido do meu papel. A menos que eu fosse um maratonista, eu não faria isso. Quando você está descansado, consegue pensar as coisas com calma. Algo que não consegue quando falta fôlego. Se eu corresse tanto, não tinha forças para fazer um lançamento decisivo. É uma mudança da mentalidade, do futebol”.

Baggio no Guarani: Os bugrinos fechariam um excelente acordo com os italianos da Turbo System SLR, que trariam os veteraníssimos Roberto Baggio e Pagliuca, além de Del Piero. Tudo não passava de um golpe de um charlatão brasileiro.

“O camisa 10 tem sido o ponto de referência para cada equipe. Mas havia coisas que o 10 não fazia, como pressionar o adversário ou participar da fase defensiva. Isso não está nas atribuições de um fantasista. Na Itália, houve um tempo que foi realmente difícil ter um 10, não se encaixava. Mas eu me encontrei bem no papel, em uma época na qual isso era difícil. Não nos esqueçamos de que Zola foi para a Inglaterra porque não encontrou o seu lugar na Itália. O que é um pouco absurdo, não? Isso dá uma ideia da época, muito particular”, analisa. “Felizmente, o camisa 10 voltou, é o jogador que pode trazer algo extra. Você sabe, o futebol muda e nós nos adaptamos. Agora, o jogador faz naturalmente coisas que não se mandava antes. Ele treina de tudo. A cultura mudou, um monte de coisas mudou”.

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Roberto Baggio também pondera que perdeu um pouco do gosto que tinha em assistir às partidas: “Eu amo o futebol, é minha paixão. Mas, se você me perguntar se eu vejo muitos jogos que me divertem, respondo que são poucos. Algumas equipes jogam um futebol divertido, espetacular. Penso no Bayern ou no Dortmund, também no Barça. Alguns jogadores agora estão envolvidos na fase defensiva do jogo, como se fosse natural para eles”

Por fim, como costuma ser, Baggio comentou o lance mais lembrado de sua carreira: o pênalti perdido na final da Copa de 1994. “Está preso em mim. E assim vai ficar pelo resto da minha vida. Quando eu era pequeno, sonhava em conquistar uma Copa do Mundo com a Itália, contra o Brasil. Era o sonho perfeito, meu sonho favorito. Só que eu não sabia como esse sonho terminava. Acabou da pior maneira possível. Eu sempre pensei que seria melhor perder a final por 3 a 0 do que nos pênaltis. É meu maior arrependimento, minha maior amargura. Se você perder um jogo, perdeu, acabou. Mas houve um erro, um erro de que? De centímetros. Fica para toda a sua vida. E não só para mim. Toda vez que vejo uma disputa de pênaltis, me boto no lugar de quem vai perder. Está marcado em mim para o resto da vida. Eu nunca vou superar esse episódio, aprendi a conviver com isso. Tento não sofrer muito, pelo menos não além do que já sofri. Mas, toda vez que eu penso, isso volta. Minha filosofia de vida me ajudou, porque me ensinou a pensar para frente, sem olhar para trás. Mas é algo que está lá. É uma ferida dormente. Então você fala sobre isso, e ela volta a doer”. Uma pena que o destino tenha sido tão cruel com um cracaço do talento de Roberto Baggio.