O Carrossel Caipira seria a primeira grande marca de seu trabalho no futebol, e logo inesquecível. Vadão estreou como treinador principal caindo de para-quedas e, apesar disso, provocou uma revolução no Mogi Mirim. O jogo ofensivo notabilizaria aquela equipe do Sapão, que pode não ter conquistado um título de peso, mas lançou bons talentos e ocupou o imaginário de muita gente. Seria o início impactante que impulsionou a trajetória de Oswaldo Alvarez à beira do campo, marcada principalmente por seus feitos no interior de São Paulo, mas também com trabalhos relevantes em outros grandes centros. Personagem importante do futebol brasileiro nas últimas três décadas, o veterano faleceu nesta segunda-feira. Aos 63 anos, o paulista vinha lutando contra um câncer no fígado, diagnosticado no início do ano.

Nascido na cidade de Monte Azul Paulista, em 21 de agosto de 1956, Vadão teve uma carreira modesta como jogador profissional. Cria das categorias de base do Guarani, o meia esquerda despontou na equipe principal durante os anos 1970. Rodou também por outros clubes do interior paulista, como Noroeste, Paulista, Velo Clube e Catanduvense. Ao mesmo tempo, o jovem realizaria sua formação em educação física. Logo preferiu seguir um caminho paralelo às quatro linhas, que dava mais garantias após o nascimento de seu primeiro filho. “Quando me formei, percebi que não teria muitas perspectivas como jogador. Por isso, aceitei o convite de Pedro Pires de Toledo, então preparador físico da Portuguesa, para ser seu auxiliar”, declarou, ao site Terceiro Tempo.

Vadão atuava como preparador físico quando recebeu o convite para assumir o Mogi Mirim em 1991. O novato integrou diferentes comissões técnicas do clube e os próprios jogadores reforçaram o pedido ao presidente Wilson de Barros, para que ele se tornasse o treinador. O Sapão se livrou do rebaixamento no Campeonato Paulista daquele ano, o que garantiu a efetivação de Alvarez. Com bons achados no mercado e o aproveitamento das categorias de base, o comandante ajudou a construir o célebre Carrossel Caipira. Os alvirrubros olharam especialmente ao futebol nordestino, de onde veio o trio ofensivo formado por Rivaldo, Válber e Leto.

O primeiro sinal da mudança aconteceu no primeiro semestre de 1992, com a conquista da “Copa 90 anos de Futebol”, torneio organizado pela Federação Paulista de Futebol para os clubes do interior. Assim, o Mogi Mirim chegou engrenado para o Paulistão de 1992. Em entrevista ao programa ‘Meu Time de Botão’ da Central3, Vadão confessou que o próprio Carrossel Holandês de Rinus Michels inspirou suas ideias para montar o Carrossel Caipira, com muita dinâmica dentro de campo e trocas de posições entre os jogadores. O comandante armava a equipe no 3-5-2, um esquema visto como “retranqueiro”, e mostrou como dava para ser ofensivo com aquela formação. Encantou.

O Mogi Mirim fez a melhor campanha no Grupo B, composto por times do interior, com o melhor ataque no início do Paulistão. Os alvirrubros avançaram ao quadrangular semifinal, mas não tiveram a mesma eficiência contra os grandes e terminaram na última colocação da chave – que incluía Palmeiras, Corinthians e Guarani. O Sapão também conquistou o Torneio Ricardo Teixeira, o chamado “Rio-São Paulo dos pobres”, no primeiro semestre de 1993 – antes de perder o título do Torneio João Havelange, reunindo também parte dos grandes, para o Vasco nos pênaltis. E o Carrossel Caipira ainda fez uma campanha digna no Paulistão de 1993, integrando o grupo com os principais clubes do estado. A equipe de Vadão foi a que menos perdeu, mas o excesso de empates impediu a classificação. Contra os quatro grandes, o Mogi não sofreria uma derrota sequer, batendo inclusive Palmeiras e Santos.

O Mogi Mirim não demoraria a se desmanchar, sobretudo com a venda do trio Rivaldo-Leto-Válber para o Corinthians. Vadão também deixaria o Sapão naquele momento. O técnico passou brevemente pelo Guarani em 1995, antes de dirigir com sucesso o XV de Piracicaba. O objetivo do novo comandante era reformular o elenco após a queda no Paulistão, mas ele fez muito mais antes disso, ao conquistar o título da Série C em 1995. O Nhô Quim atravessou um intenso mata-mata e eliminou adversários do porte de Inter de Limeira, Brasil de Pelotas, Joinville e Gama, até o triunfo na decisão contra o Volta Redonda – outro a subir à Série B de 1996.

Depois de mais um período no Mogi Mirim, Vadão teve sua segunda passagem pelo Guarani entre 1997 e 1998, agora com resultados mais relevantes. O treinador seria responsável por uma boa campanha no Paulistão, perto de conquistar a classificação às semifinais, além de safar o Bugre da queda no Brasileiro. Vadão ainda faria certo barulho com a Matonense no Paulistão de 1999, antes de rumar a outro trabalho expressivo de sua carreira: o Athletico Paranaense, pela primeira vez classificado à Copa Libertadores.

Com o aumento de participantes no torneio continental, a CBF resolveu criar uma competição paralela ao Brasileirão de 1999 e distribuir uma vaga através da chamada “Seletiva para a Libertadores”, que incorporava seus postulantes à medida que as equipes iam sendo eliminadas da Série A. O Furacão tinha batido na trave em busca da vaga nos mata-matas do Brasileiro, ao terminar na nona colocação. Compensaria com sua imposição na tal seletiva. Os rubro-negros superaram Portuguesa, Coritiba, São Paulo e Cruzeiro para carimbar o passaporte.

Aquela era uma equipe jovem do Athletico, em que se destacavam bons jogadores no setor ofensivo – com o chamado ‘Quadrado Mágico’ formado por Lucas Severino, Kléber Pereira, Kelly e Adriano Gabiru. Os rubro-negros alcançaram as oitavas de final da Libertadores, eliminados pelo Atlético Mineiro, e faturaram o título no Campeonato Paranaense de 2000 batendo o Coritiba na final. Ali estava lançada não apenas a base que conquistaria o Brasileirão em 2001, como também despontariam alguns jogadores que passaram pelas seleções principal e olímpica, incluindo o meio-campista Kléberson.

Vadão dirigiria ainda o Corinthians em 2000, mas assumiu uma equipe em desmanche após a conquista do Mundial e não evitaria o vexame no Brasileirão. O treinador, ao menos, pode recuperar um pouco de seu moral à frente do São Paulo. Sua passagem pelo Morumbi rendeu a conquista do Torneio Rio-São Paulo de 2001, embora o grande legado tenha sido o surgimento de Kaká. O meia era reserva na Copinha e, por isso, subiu antes aos treinos da equipe principal. O comandante não perdeu tempo em utilizá-lo e logo ficou clara a presença de um fenômeno, decisivo no título interestadual. Júlio Baptista e Luis Fabiano eram outros em ascensão.

Vadão não durou mais que 30 jogos no São Paulo, mesmo com a taça. Encerrou o Campeonato Brasileiro de 2001 à frente da Ponte Preta, capaz de uma boa campanha. A Macaca tinha Mineiro, Piá, Elivélton, Macedo, Washington e um elenco bem tarimbado. Fecharia a fase de classificação na sexta posição, até sucumbir ao Fluminense nas quartas de final. O técnico seguiria no time até o final de 2002, quando acertou seu retorno à Arena da Baixada. Permaneceu no Athletico Paranaense até agosto de 2003, sem repetir resultados tão expressivos, mas lapidando promessas como Jadson e Fernandinho. A partir de então, a carreira de Vadão foi mais itinerante.

O comandante dirigiu clubes como Bahia, Goiás, São Caetano e Portuguesa, além de viver sua única experiência no exterior, à frente de Tokyo Verdy. Neste intervalo, chegaria a celebrar o acesso à Série A do Brasileirão com o Vitória em 2007. Os veteranos Jackson e Edílson estavam entre os destaques naquela campanha. A promoção à primeira divisão escapou por pouco com o Bahia em 2004 e com a Lusa em 2010. Além do mais, Vadão teria alguns retornos aos principais times de sua trajetória, em especial os campineiros.

Oswaldo Alvarez compartilharia boas alegrias com o Guarani. Em 2009, conquistou o acesso rumo à Série A do Campeonato Brasileiro. Voltaria ao Brinco de Ouro em 2012, quando protagonizou a histórica campanha até a decisão do Paulistão. Os bugrinos eliminaram Palmeiras e Ponte Preta nos mata-matas, até sucumbirem na final contra o favorito Santos. E a semifinal do Paulistão de 2012 ainda possui um simbolismo especial a Vadão: mesmo acumulando nove passagens pelos rivais, o veterano nunca perdeu o Dérbi Campineiro – com cinco vitórias e quatro empates.

Vadão adicionaria mais um troféu à sua coleção em 2013, quando levou o Criciúma ao título do Campeonato Catarinense, ao bater a Chapecoense na decisão. Foi a última conquista do Tigre no torneio, em tempos nos quais o clube também figurava na Série A do Brasileiro. Por clubes, o veterano faria seu último trabalho em 2017, mais uma vez com o Guarani. Logo após o acesso do Bugre à Série B, o time surpreendeu durante as primeiras rodadas e se candidatou à promoção mais uma vez, mas caiu de rendimento e Alvarez acabaria pegando o boné no início do segundo turno da segundona.

Esta última estadia no Brinco de Ouro da Princesa já aconteceu durante o breve hiato de Vadão à frente da seleção feminina, quando Emily Lima assumiu o time. O treinador comandou a equipe nacional de 2014 a 2016 e retornou para mais um ciclo entre 2017 e 2019. O Brasil conquistou dois títulos da Copa América, bem como um dos Jogos Pan-Americanos no período. Entretanto, Oswaldo Alvarez esteve aquém dos resultados esperados, mais lembrado pelas oscilações e por algumas vitórias emocionantes do que propriamente pelo bom futebol apresentado ou pelos sucessos.

A Seleção caiu por duas vezes nas oitavas de final da Copa do Mundo, em 2015 e 2019, com o agonizante revés para a anfitriã França no último Mundial. Já a campanha mais simbólica ocorreu nos Jogos Olímpicos de 2016, quando as brasileiras começaram o torneio empolgando e alcançaram as semifinais, mas não corresponderam na reta final e terminaram na quarta colocação. Eleito o sexto melhor técnico do futebol feminino no mundo em 2016, Vadão recebeu críticas pela falta de um padrão tático no time e também pelos problemas em renovar o elenco, muito dependente de nomes como Marta e Formiga. Ainda assim, terminou respaldado tantas vezes pelos cartolas dentro da CBF.

Seria um final menos elogiado a uma carreira que contou com tantos grandes episódios. Além disso, a quantidade de jogadores revelados por Vadão também garante seu nome na história recente do futebol brasileiro. Vários talentos floresceram em suas mãos e ele se deu melhor justamente quando as expectativas não eram tão altas. Um carrossel, três acessos e outras campanhas memoráveis valem demais o respeito ao veterano, amplamente homenageado por seus ex-clubes e seus ex-pupilos nesta segunda-feira de despedida.

Para complementar a leitura, fica a dica do ‘Meu Time de Botão’ sobre o Carrossel Caipira, em que Leandro Iamin conversa com Vadão sobre aquela equipe

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Vá em paz professor, Sua missão nessa terra você cumpriu e com muito êxito.Desconheço qualquer ser humano igual, voce soube viver a vida de maneira digna e honestamente, orgulho demais de ter vivido momentos maravilhosos ao seu lado e ter tido a oportunidade de aprender muito. Obrigada por tudo e descanse em paz 🙏🙌🏼! #professorvadao . . Rest in peace, Professor. You have accomplished very successfully your mission in this Earth. I don't know any human being like you, you knew how to live your life in a dignified and honest way. I am so proud to have lived wonderful moments by your side and to have had the opportunity to learn a lot from you. Thank you for everything and rest in peace!

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