Quando o chaveamento da Libertadores apontou dois confrontos brasileiros nas oitavas de final, a expectativa geral era de jogaços. Algo que Atlético Mineiro e Internacional cumpriram com afinco no Estádio Independência. As duas equipes fizeram uma das melhores partidas do ano no futebol nacional. Ainda que a qualidade técnica não tenha perdurado pelos 90 minutos, a emoção se estendeu dos primeiros segundos ao lance derradeiro, especialmente pela vontade de alvinegros e colorados. Para que o placar fechasse em um 2 a 2 de duplo sentido, com circunstâncias permitiram a satisfação de ambas as torcidas. Prometendo um reencontro espetacular na próxima quarta-feira, no Beira-Rio.

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Tanto Galo quanto Inter entraram em campo com os ânimos inflados. Afinal, os donos da casa viam o seu time quase completo (exceção a Guilherme), distante o pesadelo das lesões que perseguiu Levir Culpi nesta Libertadores e até mesmo a presença do novato Thiago Ribeiro. Já pelo lado dos visitantes, a questão era mais espiritual. Porque Diego Aguirre pode não agradar a todos com suas escalações, como desta vez, com D’Alessandro no banco, mas vai acertando a mão com os colorados. A reta final da fase de grupos e a decisão do Gauchão ressaltam o embalo do time.

E as apostas acertadas de Aguirre resultaram em uma maré vermelha antes de dois minutos, proporcionada por Lisandro López. Na infelicidade de Marcos Rocha em uma bola passada na frente da área, o argentino recebeu o presente no peito, invadiu a área e chutou no contrapé de Victor. Em um torneio no qual os gols fora são critério decisivo, balançar as redes longe de casa tão cedo levou os colorados ao êxtase, por uma vantagem valiosa e repentina.

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Por outro lado, o Galo tomou uma injeção de adrenalina para seguir a partida. Os minutos seguintes contaram com os mineiros bastante agressivos, testando a defesa colorada. Rafael Carioca quase conseguiu dar um replay no golaço contra o Colo-Colo, mas parou no travessão desta vez. No rebote, Rodrigo Dourado ainda apareceu no lugar exato para evitar o empate. Só que, diante do poder de reação apresentado pelo Atlético, o Inter cedeu aos 13 minutos, em chute de Douglas Santos que passou por entre os zagueiros e Alisson não chegou a tempo.

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O primeiro tempo seguiu lá e cá, como dois pistões funcionando à máxima combustão. Victor e Alisson precisaram realizar grandes defesas para manter a igualdade. Mas o cansaço pesou em ambos os times, que se resguardaram nos minutos anteriores ao intervalo. O duelo no Horto ainda prometia mais, com o Atlético voltando melhor na segunda etapa. O que fez o Inter se mexer.

Entre os 13 e os 15 minutos, Aguirre lançou mão de duas substituições, com as entradas de D’Alessandro e Valdívia. Duas peças fundamentais para o segundo gol, que saiu de imediato. Na primeira bola do argentino, falta para dentro da área que Alan Costa ajeitou de cabeça. Para Valdívia completar na pequena área, deixando ainda mais evidente a excelente fase e a estrela de quem tem sido protagonista nas últimas semanas. O menino trazido do Rondonópolis após estourar em uma Copa São Paulo, definitivamente, virou xodó.

Já era o momento que o burburinho de “eu acredito” se tornasse em grito uníssono nas arquibancadas do Independência. O milagre até poderia vir, ainda que tenha sido difícil de crer nele, depois da excelente oportunidade desperdiçada por Jemerson, isolando a centímetros do gol colorado. Levir botou o time para frente, com as entradas de Jô, Carlos e Giovanni Augusto. O problema era passar por Alisson. Inspirado, o goleiro fez duas defesas vitais. E, quando já estava vencido, contou com a ajuda da trave outra vez em chute de Rafael Carioca. A sorte do Atlético de sempre parecia se esvaziar. Até que se repetisse, matreira como sempre.

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No último minuto dos acréscimos, a jogada decisiva nasceu em um lateral cobrado com força para dentro da área. Leonardo Silva quis chutar uma vez e furou, mas teve a chance de tentar de novo. Só depois de outra furada, da defesa colorada, o capitão pôde encher o pé e estufar as redes. Um tento não tão importante quanto aquele marcado no Mineirão há quase dois anos, mas que serviu para estufar o peito dos torcedores do Galo outra vez.

Por fim, os dois clubes tinham sua dose de satisfação. O Inter, pelos dois gols fora, que lhe dão o direito de um empate mais magro no Beira-Rio. O Galo, pela igualdade no finalzinho, que o permite a chance de avançar com qualquer vitória em Porto Alegre. E em uma situação que conhece bem desde 2013, precisando reverter no jogo de volta – mas, novidade agora, longe de Belo Horizonte, que sempre parece lhe atribuir poderes mágicos com o apoio da torcida.

Em duas partidas sem favorito, o Inter tenta confirmar a leve vantagem trazida da fase de grupos, enquanto o Atlético busca não perder a aptidão sobrenatural ao impossível. Dois quadros que valorizam e criam ainda mais expectativas para o reencontro em Porto Alegre. Se ambos mantiverem a raça e a predestinação vistas até agora, será outro jogo para se lembrar por muito tempo.