Juan Carlos Osorio é um treinador que costuma dividir opiniões. Há quem aprecie o trabalho do “Profe”, com sua ofensividade evidente e suas rotações. Por outro lado, muita gente questiona o risco que se paga para adotar suas posturas. Enquanto comandou a seleção mexicana, o técnico foi acompanhado por muitas críticas no país. A derrota por 7 a 0 para o Chile, na Copa América Centenario, marcou negativamente sua passagem, mas ele seguiu em frente. Para, ao final, deixar um saldo razoável na Copa do Mundo de 2018. Osorio não superou o sarrafo nas oitavas de final e teve seus problemas, mas conquistou a vitória mais emblemática de El Tri na história dos Mundiais, o que levou muitos compatriotas a reconhecerem seus méritos. Nesta sexta, diante da confirmação de que não renovará o seu contrato, sai um pouco mais respeitado pelo que desempenhou.

Quando assumiu Miguel Herrera em 2015, Osorio tinha uma difícil missão justamente por substituir um treinador adorado pelos mexicanos. O ‘Piojo’ resgatou a confiança ao redor de uma seleção sem créditos, a levou à Copa do Mundo através da repescagem e fez bons papéis. O problema era justamente o seu gênio intempestivo, que teria resultado em uma alegada briga com um comentarista local que o criticara. Assim, o colombiano chegou para suplantá-lo e dar continuidade ao trabalho já depois da conquista da Copa Ouro.

As competições internacionais acabaram sendo o calcanhar de Aquiles de Osorio. O time até empolgava na Copa América Centenario, mas a goleada do Chile na semifinal, em que El Tri ficou à mercê a um adversário voraz, ainda que não estivesse em sua melhor versão, criou uma chaga sobre o colombiano. A federação preferiu avaliar os pontos positivos de seu trabalho e dar uma nova chance. No entanto, criava-se uma resistência um tanto quanto natural às suas ideias, de quem não soube atenuar o vexame. A Copa Ouro de 2017 guardou outra queda nas semifinais, assim como a Copa das Confederações. Apesar disso, o México rendia bem nas Eliminatórias e caminhou à Copa do Mundo sem grandes riscos. Não era suficiente.

As críticas da imprensa e de muitos torcedores contra Juan Carlos Osorio continuou forte. Não existia uma segurança sobre aquilo que o treinador fazia, como se nada se tornasse suficiente para atenuar as lembranças da goleada ou dos riscos que tomava. A rotação intensa nos nomes e a maneira como o time se expunha serviam de pólvora a um questionamento por vezes exagerado sobre os seus métodos. Mas seguiu em frente e conseguiu reverter a opinião de tantos opositores justamente na estreia do Mundial, contra a Alemanha. Naquele momento, o colombiano mostrava sua leitura de jogo e o aproveitamento máximo de seus atletas. Criou um sistema capaz de anular os campeões do mundo e com potencial para agredir nos contra-ataques. A vitória por 1 a 0 ficou barata, pela quantidade de chances perdidas. Condicionou a derrocada dos tetracampeões na competição, embora o time tenha demonstrado debilidades crônicas ao longo do torneio.

O México sofreu um pouco mais na sequência do Mundial. Venceu a Coreia do Sul mudando sua forma de atuar, e deveria ter feito um saldo melhor para se garantir na última rodada. Não conseguiu e, diante da atuação patética contra a Suécia, os mexicanos precisaram agradecer aos sul-coreanos pela ajuda. Por fim, se quisesse passar da barreira das oitavas, o Brasil se colocava como obstáculo. El Tri teve uma boa postura no início do jogo, agressiva e dominante. Contudo, o treinador não conseguiu mais acertar o time depois das mudanças pertinentes feitas por Tite e o excesso de violência marcou a eliminação. Aliás, na coletiva posterior ao jogo, o colombiano foi muito mal ao responder as perguntas e exagerou no tom. Um de seus últimos atos.

Após a vitória sobre a Alemanha, houve uma onda de pedidos de desculpa ao Profe. Uma maneira de apontar que as críticas até ali haviam sido pesadas. Mas a queda de rendimento na sequência da Copa voltou a levantar o ardor contra os seus métodos. Ao fim, prevalece um tom de reconhecimento em muita gente. Osorio não é o comandante infalível, muito longe disso. Possui suas particularidades, como outros em sua função. Mas trouxe acréscimos às formas e às discussões, ajudando a desenvolver jogadores talentosos e oferecendo bons momentos à sua equipe. Poderia ter feito melhor contra a Suécia, o que mudaria sua chave na Copa, ou contra o Brasil? Sim, sem dúvidas. Mas extraiu bons resultados de um time com seus limites.

É importante pensar que, independentemente de toda a sua tradição no futebol, o México acaba se atribuindo uma expectativa maior do que deveria ter. A cobrança ao redor de El Tri é digna das grandes seleções, quando o histórico ou até mesmo o material humano indicam que não é bem assim. Há, de qualquer forma, uma base interessante para seguir crescendo. Exceção feita a alguns setores, o time é essencialmente jovem e alguns dos protagonistas podem mirar o próximo Mundial. A ver como será a mentalidade de seu sucessor. Miguel Herrera, Matías Almeyda e Tuca Ferretti são os nomes mais fortes segundo a imprensa.

Sobre Osorio, as dúvidas se continuaria ou não na seleção perduraram desde a eliminação na Copa do Mundo, mas desde aquele momento ficava clara uma tendência de que aconteceria o rompimento. O treinador já indicava que não desejava ficar e, ante o fim de seu contrato, pediu para que não fosse considerado ao próximo ciclo. Sai de El Tri com um mercado considerável, inclusive em seleções. A trajetória com o México possui suas inegáveis manchas. Mas com lembranças e lições que perdurarão.