A quinta-feira guardaria uma noite dos centroavantes no futebol brasileiro, isso estava claro desde o início. O Internacional derrotou o Paysandu pela Copa do Brasil com dois gols de Paolo Guerrero, 3 a 1 ao final. Já em Itaquera, o Corinthians venceu o duelo contra o Deportivo Lara graças a Vágner Love e Gustagol, autores dos tentos nos 2 a 0 pela Copa Sul-Americana. Porém, entre os veterano aclamados e os ídolos instantâneos, ninguém brilharia mais que aquele garoto atrevido no Maracanã. Ninguém seria mais letal que João Pedro, de novo, pelo Fluminense. O prodígio de 17 anos marca gols em progressão aritmética. E tem estrela, muita. Desta vez, para anotar sua tripleta e comandar o passeio tricolor nos 4 a 1 sobre o Atlético Nacional, pela Sul-Americana.

É sempre legal ver um jogador talentoso estourando, firmando seu nome entre os profissionais. O Fluminense tinha experimentado esta sensação fazia pouco tempo, diante do sucesso de Pedro. E num momento em que as expectativas se concentravam sobre o artilheiro, recuperado de lesão, João Pedro resolveu deslanchar. Entre a precisão e a inspiração, entre a qualidade e a predestinação, o novato vive uma semana espetacular. Nos últimos oito dias, não há atacante no Brasil mais eficiente que o rapaz de 17 anos – que até poucos meses atrás, empilhava gols pelos juvenis.

João Pedro, que iniciara sua contagem de gols na equipe principal em pleno Fla-Flu, mexeu com os brios do time na Copa do Brasil durante a última quarta. Em uma partida na qual o Tricolor massacrava o Cruzeiro sem balançar as redes, ele saiu do banco e buscou o empate por 1 a 1 no final. Três dias depois, João Pedro de novo mexeu com os brios do Flu. Saiu do banco não para recobrar o prejuízo, em reencontro com o Cruzeiro pelo Brasileirão, mas para impor a goleada por 4 a 1 com dois tentos nos últimos instantes. O choro do centroavante nos vestiários, incrédulo pela realidade repentina, emocionou quem viu. E nada mais justo que ele ganhasse a primeira chance como titular nesta quinta, diante do Atlético Nacional. Nada mais fatal.

O impacto de João Pedro nos minutos finais, desta vez, aconteceria logo nos primeiros. O Fluminense fez uma de suas partidas mais sufocantes sob o comando de Fernando Diniz. Anotou três gols em míseros 12 minutos, em um jogo intenso, ensandecido. E o bombardeio precoce dependeu bastante do artilheiro de 17 anos. Com sete minutos, já tinha guardado os seus dois primeiros, um em cabeçada firme e outro com categoria para tirar o goleiro. Barcos até carimbou o travessão do Flu, mas Luciano marcaria o terceiro antes. A assistência? De João Pedro, num cruzamento cirúrgico da esquerda para o companheiro escorar de cabeça.

Ainda que fosse um jogo com relativo equilíbrio na posse de bola, a intensidade do Fluminense era impressionante. A movimentação ofensiva garantia sempre diferentes opções de jogada e abria espaços para constantes chances de gol. Era agressividade pura. E havia também uma capacidade ímpar para fazer a diferença na conclusão, encarnada pelo jovem centroavante. Depois que Barcos descontou em um pênalti, aos 17, o quarto gol já viria aos 33. João Pedro completou sua tripleta, esfriando qualquer reação dos verdolagas. Foi o ápice de sua estrela. Carimbou a trave, mas estava atento para aproveitar o rebote com a meta escancarada. E o quinto só não saiu antes do intervalo porque Yony González desperdiçou um pênalti, defendido pelo goleiro José Fernando Cuadrado.

Durante o segundo tempo, o Fluminense não precisou ser tão impetuoso. Continuou partindo para cima e criando mais chances, mas pôde reduzir a marcha. Luciano era quem mais tentava, sem sucesso. Gilberto chegou a tirar tinta da trave, numa bomba de fora da área. E João Pedro, veja só, também teve chutes que não terminaram nas redes – desta vez, negado por Cuadrado, o único a manter um pingo de dignidade ao Atlético Nacional. Os verdolagas ainda evitaram o quinto tento graças ao goleiro, embora a diferença entre os times faça crer que a reviravolta em Medellín será inalcançável. Foi um baile tricolor.

João Pedro não precisou de muitas bolas para apresentar suas virtudes. João Pedro não precisou de muitas bolas para encadear gols. Tem um senso de posicionamento privilegiado, sabe ganhar os espaços dentro da área, finaliza da forma que for. Sua tripleta no Maracanã é o que se chama de “hat-trick perfeito” – fez de cabeça, de esquerda, de direita. Foi completo e demonstra ainda mais que algo especial aguarda o futuro de sua carreira. Parece um centroavante nato, mesmo que só no sub-17 tenha passado a jogar dentro da área. Tem detalhes a aperfeiçoar, claro, mas o principal ele já domina: a sede de gols.

No primeiro jogo contra o Cruzeiro, a torcida do Fluminense já tinha notado a propensão de João Pedro ao protagonismo. Não teve dúvidas depois do segundo jogo, em que o garoto não sentiu o peso da ocasião. Por isso mesmo, aplaudiu demais quando o nome do centroavante foi anunciado entre os titulares no telão, nesta quinta. E não havia outra atitude a não ser ovacionar o jovem quando ele foi substituído nos minutos finais contra o Atlético Nacional, sentindo câimbras. É impossível não se empolgar.

João Pedro é quem mais precisa botar os pés no chão. E mesmo com três gols em um jogo internacional no Maracanã, é difícil imaginar que o garoto vá se perder neste início. O choro nos vestiários, de alegria ou de orgulho, seria natural novamente. Representaria um mecanismo para se manter atado à realidade. Afinal, só o prodígio sabe a dificuldade enfrentada ao sair de Ribeirão Preto para Xerém aos 12 anos, só ele sabe a dor de ver a mãe amargurada pelas necessidades que a família passava, só ele sabe o quanto se esforçou para chegar até ali. Se a recompensa nos profissionais é precoce, a caminhada já era longa desde antes.

Três jogos bastaram para se questionar a decisão do Fluminense, ao vender o seu artilheiro dos juvenis ainda sem estrear nos profissionais. Em outubro de 2018, o clube aceitou os €10 milhões oferecidos pelo Watford por João Pedro, sendo 2,5 milhões na primeira parcela e o restante em bônus. Se os minutos ainda são parcos como amostra, os seis tentos anotados nesta semana fantástica dizem muito. Resta aos tricolores aproveitarem esta maré, já conscientes de que a promessa deverá se mudar à Inglaterra em janeiro de 2020. Mesmo que não saiba diferenciar o sonho da realidade até aqui, João Pedro tem que desfrutar um momento que é seu. Se possível, com mais gols.