O futebol não dá margem aos “e se…”. Imaginar o que aconteceria e por detalhes não se consumou é se torturar com alucinações. É se entregar a uma realidade paralela, cruel, que não foi e nunca será. Pois o vórtice ao Boca Juniors na decisão da Libertadores aconteceu no penúltimo lance do segundo tempo da prorrogação. O chute de Leonardo Jara que desviou no meio do caminho e bateu na trave, impassível, ao lado de um Armani já atônito. “E se aquela bola entra? E se os xeneizes arrancam o empate com dois a menos nos instantes finais? E se o peito do River Plate congela? E se as galinhas vão aos pênaltis com o emocional em frangalhos?”. O épico que os boquenses adorariam contar, e se martirizarão porque nunca poderão, enterrado pelo caminhar solitário de Pity Martínez rumo às redes.

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A história do Boca Juniors em uma final amarga, entretanto, ainda possui seus motivos de consideração. Os xeneizes tentarão esquecer esta partida, mas terão que se lembrar para sempre dela. E se for para lembrar, que ao menos seja para exaltar a valentia de dois personagens fundamentais ao time. Dois caras que permitiram aos boquenses sonhar por tanto tempo. Dois caras que exaltaram o caráter que tanto se prega na Bombonera, de não desistir jamais, de sempre se doar ao máximo.

Nahitan Nández permaneceu em campo os 120 minutos. E não houve um jogador no Boca Juniors que tenha feito tanto quanto o uruguaio. A garra charrua se somou à raça xeneize, potencializada na final da Libertadores. O meio-campista se multiplicou. Não houve uma faixa de campo que o jovem deixou de cobrir. Correu, desarmou, passou, combateu. Além do mais, quando seu erro na entrada da área quase permitiu o gol ao River Plate, o destino foi generoso. Permitiu que os millonarios não aproveitassem a jogada e a bola sobrasse na intermediária para o camisa 15. Sua qualidade se sublimou em uma enfiada de bola magistral, abrindo o placar no Bernabéu.

Pelo primeiro tempo grandioso, Nández já conquistava a torcida do Boca Juniors. O passar do tempo e as seguidas batalhas travadas em campo, porém, logo começaram a cobrar seu preço. As dores tomavam o corpo do uruguaio, que sentia, que mancava. Mas que nem por isso deixava de correr como um louco, de acreditar em cada bola, de derramar gotas de suor. As limitações pareciam agigantar o meio-campista, que se desdobrava também por obrigação. Wilmar Barrios, o motor na cabeça de área do Boca, essencial nos sucessos recentes do clube, terminou expulso. Fernando Gago, por sua vez, entrou e não demorou a ver os velhos fantasmas das lesões o perseguirem. Assim, Nández perseverou. Não deixou o gramado. Sucumbiu apenas com a derrota consumada nos instantes finais.

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E se o lamento profundo de Nández tocava, o mesmo seria já à margem das quatro linhas, com Darío Benedetto. O centroavante foi outro guerreiro. Outro jogador que encarnou o Boca Juniors, que ofereceu sua alma. A vaga na decisão só veio graças ao artilheiro renascido, um ano depois de uma lesão seríssima no joelho. Da mesma maneira, o duelo na Bombonera também teve no camisa 18 um norte, causando calafrios na defesa do River Plate. Não seria diferente neste domingo. Se o matador foi escolhido como titular, era justamente pelo respeito que exercia.

Um lance bastou a Benedetto. Um lance para tocar a eternidade com a ponta dos dedos. O lançamento de Nández veio adocicado. O drible em Jonathan Maidana fez o símbolo dos rivais beijar os seus pés. A definição sutil na saída de Franco Armani seria apenas o desfecho delicado a um golaço de talento e fúria. Pelo quarto jogo consecutivo na fase decisiva da Libertadores, o centroavante destruía. Poderia continuar destruindo. Não fosse a decisão pra lá de questionável tomada pelo técnico Guillermo Barros Schelotto: a substituição logo aos 17 minutos do segundo tempo, botando Ramón Ábila em seu lugar. Não que o reserva seja tão ruim assim. Mas é inferior ao camisa 18. Não tem a sua estrela. Não tem a sua sede por grandes jogos. Não tem a imponência sobre a zaga adversária. Na ausência do homem de referência, os xeneizes murcharam ofensivamente. Perderam alma, permitiram que os millonarios pressionassem mais. Não havia mais o cara que segurava os rivais atrás pelo mais puro temor.

Restou a Nández e Benedetto botarem a medalha de prata no peito, esforços em vão. Mereciam mais. Ganham a gratidão dos xeneizes e a certeza de que honraram o manto, ainda pouco diante do que se vislumbrava. Um prêmio de consolação que talvez renda mais aplausos nos próximos jogos dentro da Bombonera, mas por uma lembrança que todos optarão por deixar no fundo da memória quando se vestir azul y oro.