Quando reformulou a Série C, a CBF imaginou que a regionalização parcial poderia beneficiar o torneio. As viagens seriam mais curtas durante a fase de classificação, ainda que se questione demais o formato, em que logo a primeira fase de mata-matas acaba determinando o acesso. Além do modelo discutível, fato é que a divisão do país proposta inicialmente se transformou em um cenário totalmente destoante. A Terceirona de 2019, que começa neste sábado, é o melhor retrato disso: enquanto o Grupo A reúne um “mini Nordestão”, o Grupo B é mastodôntico e oferecerá viagens equivalentes às maiores experimentadas nas duas primeiras divisões nacionais. Uma situação que indica quão urgente se torna a discussão sobre o regulamento.

As próprias promoções e descensos moldaram a situação. Enquanto muitas equipes do Norte e do Nordeste convergiram rumo à Série C, os representantes da porção mais ao sul do território atravessaram uma fase favorável na Terceirona. No último ano, por exemplo, quatro times do Grupo B conquistaram o acesso. Enquanto isso, três nordestinos vieram da Série D, enquanto um terminou rebaixado da Série B. O reflexo disso é que os clubes nortistas terminaram remanejados à outra chave. Dentro da regionalização forçada, Belém e Porto Alegre terminaram no mesmo balaio, da mesma maneira como Rio Branco e Volta Redonda. Serão verdadeiras jornadas de Norte a Sul e de Leste a Oeste, que aumentam as exigências sobre os clubes.

Grupo A, o mini Nordestão

Pela primeira vez desde que a Série B adotou o sistema de pontos corridos, apenas três clubes nordestinos disputarão a segunda divisão. Enquanto isso, os representantes da região se acumulam na Terceirona. Os dez participantes também constituem um recorde no atual formato da competição, entre os tradicionais frequentadores da Segundona e aqueles que buscaram sua ascensão a partir da Série D. Seis dos nove estados do Nordeste terão clubes no Grupo A, incluindo também quatro duelos locais. A rivalidade imperará.

Quem puxa a fila na chave é Pernambuco. O momento desfavorável no futebol do estado não tira o favoritismo de Náutico e Santa Cruz, ao menos por tradição. O retorno do Timbu aos Aflitos pode contribuir, ainda mais depois da campanha até a final do estadual. Já os corais têm a força da torcida no Arruda, algo que quase derrubou o Fluminense na Copa do Brasil. A campanha anterior na Série C, todavia, deixa as suas ressalvas. Apesar do respeito inspirado pela dupla, fizeram campanhas bastante mornas, que engrenaram só no final e não adiantaram durante os mata-matas.

O Maranhão merece atenção. O Imperatriz vem do título estadual e do acesso na Série D, enquanto o Sampaio Corrêa se acostumou a viver na gangorra durante os últimos anos, conhecedor dos atalhos na Terceirona. O Ferroviário é uma grata surpresa após a conquista da Série D, embarcando na alta dos cearenses nas divisões nacionais. Dominante no Paraibano, o Botafogo tenta fazer o momento refletir além dos limites do estado, o que não aconteceu na campanha anterior. Terá a companhia do Treze, outro que chega motivado da quarta divisão. O Confiança tenta repetir no Sergipe o que se vê em Alagoas, contando com o caldeirão do Batistão em suas campanhas recentes. Por fim, enquanto o ABC carrega um histórico favorável na Série B, apesar da decepção na final do estadual, o Rio Grande do Norte ainda é representado pelo Globo, que tenta estabilizar seu projeto relativamente recente.

Pelo que se vê no Nordestão, três times do Grupo A se credenciam ao acesso. Enquanto Sampaio Correa, Confiança e ABC ficaram na fase de classificação, a terceira divisão segue representada no regional por Náutico, Santa Cruz e Botafogo. O trio não apenas avançou aos mata-matas, como também eliminou adversários de divisões acima para alcançar as semifinais. O Fortaleza, adversário do Santa, é o único “intruso”. Enquanto isso, Náutico e Botafogo irão se pegar por uma vaga na decisão. O que representa a chance de um grande título, porém, também pode se refletir em desgaste com os jogos a mais.

Grupo B, o desafio pelos ares

Os clubes da Série C, em azul os do Grupo A e em vermelho os do Grupo B [Imagem: Wikipedia]
Se a CBF quisesse, poderia seccionar a tabela do Grupo B de maneira mais sistemática para equilibrar as viagens – o que geraria outros desequilíbrios nas sequências como mandante ou visitante, entretanto. Serão muitas horas de avião, e extremamente desgastantes pelo curto período de tempo. A chave se divide em três “regiões” principais. Há a ala dos gaúchos, o conjunto dos sudestinos e aqueles que se espalham pelos entornos amazônicos. Ao longo de pouco mais de três meses, as equipes acumularão milhas suficientes para conhecer o restante do mundo. E isso tudo para, quem estiver interessado no acesso, realizar mais duas partidas que determinarão se a cansativa jornada foi bem sucedida ou não.

No Rio Grande do Sul, enquanto o Ypiranga permaneceu na Terceirona, o Juventude caiu da B e o São José subiu na D. São velhos conhecidos do Gauchão, ainda que o clube de Erechim sequer figure atualmente na primeira divisão. No Sudeste, enquanto o Volta Redonda permanece como único bastião do interior do Rio de Janeiro, Minas Gerais se beneficia dos investimentos de empresários em Tombense e Boa Esporte. No Mineiro, aliás, o Boa eliminou a equipe de Tombos nas quartas de final. Mais ao norte, o Luverdense também possui um investimento considerável, apesar do rebaixamento na Série B há dois anos. É o único encravado no Centro-Oeste, no norte de Mato Grosso. E o Atlético Acreano, o mais ocidental da chave, pede passagem por seu retrospecto recente. A agremiação acumula o acesso na Série D, o ressurgimento no estadual e a boa campanha na Terceirona de 2018 – que entrou em declínio justamente no momento quando não poderia.

O peso da chave, de qualquer maneira, fica ao Pará. É por lá que estão Remo e Paysandu, os mais acostumados a transitar na elite nacional. O Leão vive um ano melhor, depois de conquistar o Campeonato Paraense. Mesmo assim, a falta de confiança é considerável sobre um elenco que não possui grandes nomes. E há mesmo um longo jejum a quebrar, já que o clube permanece longe da Segundona desde 2007, incluindo aí sua tortuosa passagem pela Série D. O Papão sequer conseguiu superar o rival no estadual deste ano, mas ao menos possui um histórico razoável nas competições nacionais. Apesar da queda recente na Série B, o alviceleste já conquistou o acesso duas vezes no atual formato da Terceirona, em 2012 e 2014.

Problema maior à dupla do Pará, além dos clássicos marcados sadicamente às últimas rodadas de cada turno e da disputa particular na tabela, será o encarado nas viagens. Os remistas, por exemplo, emendam jogos em: Belém, Caxias do Sul, Lucas do Rio Verde, Belém, Belém, Tombos, Belém, Porto Alegre e Belém. Isso só no primeiro turno. A situação do Papão não é tão melhor assim, indo duas vezes ao Sul durante o segundo turno. A viagem da capital paraense a Porto Alegre, por exemplo, percorre cerca de três mil quilômetros. Terão que ir e voltar três vezes cada, ainda que exista a possibilidade de parar a um jogo ou outro no meio do caminho. O mesmo vale para os gaúchos voando no sentido contrário, ainda parando em Rio Branco. Ou ao próprio Atlético Acreano, indo ao extremo sul e também ao sudeste. Em suma: dificuldades evidentes e compartilhadas por todos.

É até difícil imaginar um cenário mais drástico do que este na Série C. Que a CBF banque as viagens, a realidade se torna bastante distinta em relação ao que foi planejado para a competição. E se soma a outros problemas já conhecidos, entre o calendário que se encerra no meio de agosto à maioria dos clubes e a fogueira imensa do acesso definido tão subitamente. É ver se os desdobramentos (ou mesmo a pressão dos clubes) pode forçar a cartolagem a pensar em mudanças – o que nunca é simples no Brasil. Um calendário mais amplo, um acesso menos apressado e uma regionalização mais bem feita (possivelmente com o próprio aumento no número de participantes, o que diminuiria a suscetibilidade às mudanças) ajudariam bastante a Terceirona.