A polarização da Libertadores entre brasileiros e argentinos abriu o caminho na Copa Sul-Americana. A presença dos repescados do principal torneio continental, desta vez, pouco influenciou os mata-matas no certame secundário. E abriu o caminho a clubes brasileiros que, se fazem papéis mais medianos no cenário nacional, agora podem se coroar além das fronteiras com uma taça que seria muitíssimo significativa às suas histórias. A quarta-feira permitiu o sonho a duas torcidas, enquanto outra tem o direito de remoer o que não aconteceu, diante da arbitragem. Vida que segue a Fluminense e Atlético Paranaense, adversários nas semifinais, com o Bahia ficando pelo caminho de maneira contestável – embora não se negue, também, a falta de competência na marca da cal.

O primeiro a avançar foi o Fluminense. O resultado do jogo no Rio de Janeiro não havia sido tão bom aos tricolores, e a pressão por buscar o triunfo no lendário Parque Central era considerável. O Nacional de Montevidéu está longe de se equiparar a outros momentos de sua história, mas possuía um time motivado por relembrar seu passado monumental. Nada que o Flu não tenha conseguido lidar. Os cariocas se igualaram aos charruas em persistência e arrancaram uma vitória emblemática na capital uruguaia. O caminho ao time de Marcelo Oliveira esteve no forte trabalho coletivo e na entrega máxima para segurar o 1 a 0 no placar.

Mesmo jogando fora de casa, o Fluminense já havia feito um bom primeiro tempo. Criou oportunidades e buscou o gol que poderia mudar a história do confronto. O lance decisivo, contudo, aconteceu apenas no início da segunda etapa. O Nacional reclamou da “falta de fair play” dos tricolores, mas a realidade é que o goleiro Esteban Conde vacilou na saída de bola e a queixa se tornou uma desculpa ao erro. Méritos também a Luciano, que demonstrou uma frieza imensa para encarar a bagunçada defesa adversária, antes de estufar as redes. O tento oferecia uma comodidade aos cariocas, principalmente por prorrogar as chances de levar o duelo ao menos ao pênaltis. E a classificação dependeria de cada gota de suor dos tricolores.

O símbolo da noite foi Gum. O zagueiro, muitas vezes criticado pelas falhas, possui uma história inegável no Fluminense e também consegue viver suas noites de glória. Mesmo sentindo dores na segunda etapa, o veterano permaneceu em campo e teve uma atuação gigantesca para que os cariocas contivessem a pressão do Nacional. Pouco efetivo, o Bolso logo se perderia em seu próprio nervosismo, enquanto o Flu poderia ter matado o jogos nos contra-ataques. Já ao final, os uruguaios perderam a cabeça com entradas mais duras, mas nada que estragasse a comemoração dos visitantes. Como ocorreu de maneira frequente na década passada, sobretudo, os cariocas podem reavivar seu sonho continental.

Depois, restava ao Fluminense aguardar quem seria o seu adversário, Atlético Paranaense ou Bahia. O Furacão saíra da Fonte Nova com um excelente resultado, ao assegurar a vitória por 1 a 0. O Tricolor de Aço, por outro lado, tinha a sua razão para reclamar do revés. Foram dois gols anulados pelo VAR de maneira discutível. O primeiro, um voleio de Clayton no qual o árbitro assinalou a jogada perigosa do tricolor, durante a disputa com Nikão. Depois, um impedimento de Ramires. Sem poder mudar o que aconteceu, restava aos baianos jogar com sangue nos olhos na Arena da Baixada.

E, novamente, a bronca com a arbitragem prevaleceu ao Bahia. Foi um primeiro tempo bastante nervoso, em que a bola pipocava de ambos os lados e raras eram as chances claras de gol. Os tricolores vinham um tanto quanto tensos, entre as divididas firmes e as discussões, mas poderiam ter aberto o marcador logo cedo. Aos 17 minutos, Júnior Brumado marcou, mas novamente o apito interferiu e assinalou uma infração no mínimo controversa de Zé Rafael na origem do lance. Ao menos, não fez falta para que os baianos saíssem em vantagem antes do intervalo, apesar de jogarem na base dos contra-ataques. Quando o duelo ficava um pouco mais aberto, Douglas Grolli abriu o marcador aos 46 minutos, desviando bola dentro da área.

Já o segundo tempo teve o domínio do Atlético Paranaense, o que não adiantou muito. Os rubro-negros controlavam a posse de bola e jogavam no campo de ataque, mas pecavam nas conclusões. O nervosismo parecia pesar contra o Furacão, que pressionou inutilmente e não evitou a derrota. Assim, o confronto seguiu aos pênaltis e, por lá, a precisão dos anfitriões valeu muito mais. Santos pegou a cobrança de Vinícius e Zé Rafael isolou, contrastando com a categoria dos paranaenses na marca da cal. De qualquer maneira, esse será dos enredos sempre amargados pelo Bahia por aquilo que sentiram usurpado de suas mãos. Mesmo com o VAR, é compreensível a insatisfação. A classificação, de qualquer forma, é do Atlético.

A história, a partir de agora, se escreve nas semifinais. E tanto a Atlético Paranaense quanto a Fluminense, o título da Sul-Americana teria um peso imenso. Não apenas seria um caminho para encurtar a presença na Copa Libertadores, hoje inviável no Brasileirão, mas ainda mais para botar um troféu bastante reluzente na sala de troféus. A ambos, seria um momento inigualável. De qualquer forma, ainda precisam se encarar e, possivelmente, se cruzar na decisão com um time mais tarimbado nas competições continentais – com o Independiente Santa Fe aguardando o vencedor do confronto entre Junior de Barranquilla e Defensa y Justicia. A chance está posta na mesa, e restam apenas quatro jogos para isso.