Entre centenas de gols, e entre tantos golaços, CR7 atingiu a apoteose em forma de bicicleta


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Ser aplaudido pela torcida adversária é uma honra restrita apenas aos grandes. É preciso protagonizar algo muito especial para ser digno de tal privilégio. Ser um antigo ídolo do clube dono da casa, construir uma carreira singular, realizar uma partidaça. E os juventinos demonstraram não faz nem uma semana como é difícil conseguir a sua aprovação, ao perseguirem Leonardo Bonucci por considerarem uma “traição” sua transferência ao Milan. Apenas três dias depois, porém, os bianconeri se renderam. Não havia outra atitude possível, a não ser aplaudir Cristiano Ronaldo pela obra de arte que acabara de assinalar, emendando um golaço de bicicleta no Allianz Stadium. Um gol perfeito que perseguiu por anos, e concretizou em um dos maiores palcos.

Quem acompanha Cristiano Ronaldo sabe como a bicicleta foi, de certa forma, uma “obsessão” em parte de sua carreira. Foram várias e várias tentativas, que aconteciam em quase todos os jogos há alguns anos. Acertou a trave, parou em defesaças dos goleiros, viu milagres de defensores adversários em cima da linha. Teve até uma pintura mal anulada pelo árbitro, que não viu a bola entrar após bater no travessão e pingar no gramado em amistoso contra o Azerbaijão. Todavia, o camisa 7 diminuiu a insistência faz algum tempo. Talvez tenha percebido que, tal qual uma paixão avassaladora, não se procura o gol antológico. Ele simplesmente acontece.

O português até poderia se dar por satisfeito sete meses atrás, quando executou uma bela acrobacia contra as Ilhas Faroe, em jogo pela seleção. “Eu vinha tentando este gol por um longo tempo. Era o gol que estava faltando em minha carreira”, declarou o craque, após a partida. Apesar disso, o ‘voleio’ ou a ‘meia bicicleta’ da vez ainda não era o movimento impecável. Não era A Bicicleta. O que se consumou nesta terça.

Em um jogo que se prometia difícil ao Real Madrid, Cristiano Ronaldo abriu o caminho em sua única finalização no primeiro tempo. Marcelo fez grande jogada, Isco deu a assistência e o artilheiro não perdoou. Marcou pela décima partida consecutiva na Champions, um recorde absoluto. Depois, contudo, não seria tão acionado. Deixaria o seu melhor para a etapa complementar. E realmente, seria o melhor. Depois de quase ampliar nos primeiros minutos, sua antologia se desenhou aos 18 minutos.

O segundo gol do Real Madrid já parecia maduro. Gianluigi Buffon acabara de fazer uma boa defesa, até a bola seguir a Dani Carvajal. Então, o lateral limpou a marcação e cruzou. Encontrou Cristiano Ronaldo. Voltando da outra ponta, o artilheiro estava desmarcado. Veio correndo. Encontrou a ocasião precisa, que tanto esperou, para emendar sua bicicleta indefensável. Velocidade perfeita, impulso perfeito, giro perfeito. Com as costas paralelas ao chão, ganhou uma altura impressionante e soltou o balaço de perna direita. Mandou no canto de Buffon, que sequer se mexeu. O espetáculo estava completo.

Na maior competição da Europa, contra um dos maiores clubes do continente e em cima de um dos maiores goleiros da história, Cristiano Ronaldo conseguiu ser ainda maior. Decidiu a partida, encaminhou a classificação merengue, ampliou seus números indefectíveis. Arrancou os aplausos da torcida juventina, como Alessandro Del Piero já sido privilegiado dentro do Bernabéu na década passada. E, em cena tão emblemática quanto a ovação bianconera, Zinedine Zidane não escondeu o seu espanto. Quando se falar da trajetória espetacular do camisa 7 na Champions e da sua centena de tentos no torneio, este provavelmente será “o gol”. A obra-prima que sintetiza o fantástico construído ao longo do tempo.

Depois disso, Cristiano Ronaldo deu o passe para Marcelo fechar a contagem e quase completou o doblete de assistências, com Mateo Kovacic acertando o travessão. Ainda perderia boas oportunidade de assinalar o hat-trick, parando em Buffon e errando o alvo outras duas vezes. Poderia importante para ampliar mais a tranquilidade do Real Madrid, mas, a não ser que aconteça uma inimaginável hecatombe no Bernabéu, isso não será lembrado. O que fica mesmo gravado na memória é a acrobacia sublime.

Aos 33 anos, Cristiano Ronaldo anota o grande gol de bicicleta da carreira. Que, por todo o contexto, também pode ser incluído entre os maiores gols de bicicleta que o futebol já viu. Não existem limites para a voracidade do craque na Liga dos Campeões. E nem se pode pensar quando tal magia vai acabar, porque é bem possível que o monstro dobre os limites da imaginação – o que faz, temporada após temporada. Basta apreciar a história sendo feita. Aplaudir – seja em Turim, em Madri ou no canto do mundo que for.


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