Quando Joachim Löw anunciou que não convocaria mais Thomas Müller, Mats Hummels e Jérôme Boateng à seleção alemã, o discurso do treinador dava a entender que foi algo consensual. Por mais que a decisão coubesse ao comandante, ele afirmou que conversou com os jogadores e que eles aceitaram bem sua ideia. Não é o que acontece. Nos dias seguintes à confirmação, os campeões do mundo vieram a público. Thomas Müller postou um vídeo deixando clara a sua irritação com o caso, assim como Hummels e Boateng escreveriam nas redes sociais. Acima do que o afastamento sem prazo definido, o que irrita os atletas é a forma como tudo acabou conduzido.

“É claro que fiquei surpreso com a decisão do técnico. Não questiono que ele precisa tomar decisões esportivas. Mas quanto mais penso nisso, mais fico bravo com a forma como aconteceu. Não entendo a maneira definitiva foi sugerido. Fiquei totalmente perplexo com esta decisão, tomada do nada. Indica que você não é importante. Mats, Jérôme e eu ainda somos capazes de jogar futebol no mais alto nível. Tivemos uma longa carreira na seleção, na maior parte do tempo com sucesso. Não foi uma forma elegante ver as declarações clichê da federação logo após ser informado sobre a decisão do técnico. Sou um lutador e isso ainda não está encerrado”, disse Müller, na quarta-feira.

 

Boateng, por sua vez, foi um pouco mais melancólico em suas palavras: “Löw me disse em uma conversa franca que eu não continuarei sendo parte da seleção, que ele deseja oferecer espaço aos jogadores jovens pensando nos próximos torneios internacionais. Fico triste com isso, porque sempre foi o máximo para mim representar o país. Apesar disso, respeito e entendo a decisão. Quando era mais jovem, confiava nos conselhos dos jogadores mais velhos. Pessoalmente, estou convencido que posso jogar no mais alto nível. Vou sempre olhar para trás com grande prazer pelo tempo que passei na seleção. Sempre tive muito orgulho e nunca me esquecerei do verão de 2014, em particular. Claro, desejaria outro tipo de despedida a nós. Boa sorte à equipe no futuro”.

Já nesta quinta-feira, quem falou sobre o assunto foi Hummels: “Como um pouco mais de distanciamento, eu também gostaria de comentar a decisão do técnico da seleção. Independentemente de ser uma decisão difícil (o que eu, obviamente, respeito), eu não compreendo a maneira. Na minha opinião, sempre tive uma boa relação com as pessoas da federação e sempre nos tratamos honestamente. Thomas, Jêróme e eu demos tudo pela seleção por anos, por isso acho que este tratamento não faz justiça ao que conquistamos. E isso me entristece, porque amava jogar pela seleção. Posso dizer: foram anos fantásticos, que excederam tudo o que eu sonhava quando criança. Disputei grandes torneios, ganhei a Copa de 2014. Levarei este sentimento para sempre e faria de tudo para repetir isso”.

O próprio Bayern de Munique emitiu um comunicado atacando a federação alemã. A carta, assinada por Karl-Heinz Rummenigge e Hasan Salihamidzic, aponta para o momento inoportuno em que tudo foi feito. Os dirigentes se mostraram bem mais preocupados com os próprios compromissos dos bávaros nas próximas semanas, na briga pela liderança da Bundesliga e pela classificação à próxima fase da Liga dos Campeões:

“Por uma questão de princípio, não comentamos as decisões esportivas do técnico da seleção, que são apenas responsabilidade de Joachim Löw. Ao mesmo tempo, questionamos o tempo e as circunstâncias do anúncio aos jogadores e ao público. O último amistoso da seleção foi disputado em novembro de 2018. Estamos desapontados que os jogadores foram informados logo antes de um jogo decisivo ao Bayern pela Bundesliga e também antes do segundo duelo contra o Liverpool na Champions. Além do mais, ficamos surpresos que isso tenha acontecido com uma visita não anunciada de Löw e Bierhoff à sede do Bayern”, afirmou o clube.

Em coletiva de imprensa, o técnico Niko Kovac e Sandro Wagner (engasgado com Löw desde o corte à Copa do Mundo) fizeram suas ressalvas publicamente. “Sinto muito pelos rapazes, todos são três grandes jogadores, mas estou certo que eles desejarão responder no mais alto nível. Com esta raiva, irão jogar ao máximo contra o Liverpool”, apontou o centroavante. Quem também saiu para defender os companheiros foi Mesut Özil. Após suas afirmações de que sofreu preconceito na seleção, o meia exaltou Boateng no Twitter: “Levante a cabeça, irmão. Desde o seu começo nas seleções de base, celebramos muitos momentos especiais juntos. Você é um amigo verdadeiro e uma grande pessoa, dentro e fora de campo. Eu sinto muito ao ver um dos melhores jogadores alemães das últimas décadas tendo que deixar a seleção assim”. Um assunto que ainda tende a render e a movimentar o ambiente da já pressionada seleção alemã.